1347, o ano apocalíptico

Navegando pelos mares do Mar Negro, chegava à Europa uma das epidemias mais letais da história humana. Sem escolher raça, cor, idade ou extrato social, a Peste Negra se espalhou devastadoramente pelo continente europeu, dizimando quase um terço da população: o que para muitos se tratava do Apocalipse

Por Ávany França | Foto: Fabiana Neves/Shutterstock | Adaptação web Caroline Svitras

No capítulo 16 de Apocalipse, na Bíblia, São João discorre sobre os anjos enviados por Deus, que derramariam sete cálices de sua ira, trazendo calamidades, pestes, transformando água em sangue, homens queimando em chama ardente, e enfermidades que aniquilariam a todos aqueles que haviam desobedecido ao Senhor. Em outras passagens do livro bíblico, as profecias narram a Terra sendo devastada, vazia de animais e de vida, em que os poucos sobreviventes buscariam a morte, mas não a encontrariam. Haveria de se começar novamente a reconstrução da própria espécie e a evolução de uma cultura distinta que, ao final, talvez fatalmente, conduziria ao mesmo aniquilamento.

 

A perspectiva sobre o fim do mundo, na voz de São João, parecia se concretizar em outubro de 1347, quando os europeus do norte e do sul se depararam com uma das pragas mais devastadoras da história, a peste bubônica. Quando a “Black Death”, ou Peste Negra, desembarcou no continente, já enfrentava uma série de problemas. O primeiro deles proporcionado pelo aumento populacional e mudanças climáticas que, com o aumento das chuvas e do frio, provocava um processo de apodrecimento de plantas e a perda das colheitas. A escassez de alimentos também deixara os europeus mais vulneráveis a doenças, uma vez que o quadro de desnutrição era saliente. Para completar, o período foi marcado por algumas guerras, tais como a dos Cem Anos e as revoltas sociais entre 1383-1385, em Portugal. É nesse cenário caótico que o surto medieval da peste bubônica atinge o Velho Mundo.

 

A origem

A primeira pandemia que se tem notícia aconteceu por volta do ano 540, e ficou conhecida como a Peste de Justiniano, fazendo alusão ao imperador bizantino que queria a qualquer custo restaurar o Império Romano no Ocidente. Teria sido seus soldados os maiores propagadores da peste, que surgiu primeiramente no Egito, passando pelo Oriente Médio e se espalhando pela capital do Império Bizantino, Constantinopla. O número de mortes passava de 5 mil por dia e, em meio século, já se apontava o desaparecimento de 40% da população de toda a área mediterrânea.

 

Por volta de 1330, relatos de viajantes que transitavam pela Rota da Seda davam conta de uma praga existente em regiões isoladas entre China e Índia e que provocava a morte de muitos. No entanto, foi justamente no processo de interação entre o Oriente e o Ocidente que os roedores e suas pulgas – que hoje se sabe que são os causadores da peste – conseguiram se juntar às caravanas de mercadores que circulavam pelo Oriente na busca por bons negócios e, sem saber, voltavam para o Ocidente com o convés empesteado de ratos infectados.

 

 

 

Castigo divino

Por quase cinco séculos, a pandemia que aniquilou quase um terço da população europeia foi circundada de mistérios. Com recursos científicos limitados, pouco se sabia, de fato, sobre as causas da devastadora praga. Por atravessar um ciclo de grande fanatismo religioso, muitos supunham que as mortes eram um sinal da ira divina. O surto seria o Apocalipse.

 

Em meio à calamidade, nem mesmo os clérigos escaparam da Peste Negra | Foto: Do livro The Black Death, de Philip Ziegler/Reprodução

 

Outros fatores indiretos, como a doutrina do purgatório, em que se defendia que o indivíduo seria purificado após a morte, antes de entrar no reino dos céus, reforçavam a ideia do fim dos tempos. Nesse mesmo contexto, a Divina Comédia de Dante desnudava o inferno com riqueza de detalhes, influenciando, assim, muitos fanáticos que viam qualquer infortúnio como um castigo dos céus, adotando uma postura de resignação. Nesse clima de fanatismo religioso, em 1350, o papa Clemente VI anuncia o Ano Santo, instruindo os peregrinos a rumarem na direção de Roma, onde receberiam o direito ao paraíso sem passar pelo temido purgatório. A convocação causou um grande êxodo e contribuiu ainda mais para o alastramento da praga, uma vez que muitos já estavam infectados.

 

Xenofobia

“Cidadão, evitando uns aos outros, parentes mantendo distância, irmão abandonado pelo irmão, sobrinho pelo tio, irmão, irmã, e muitas vezes o marido pela esposa. Pais e mães abandonando seus próprios filhos, sem fiscalização, sem visita, como se estes lhes fossem estranhos.” A passagem escrita por Giovanni Boccaccio, considerado o patrono da ficção do século 14, narra o clima de hostilidade e medo gerado pela peste bubônica. Imigrantes, viajantes e peregrinos, nenhum desses eram bem-vindos em meio à turbulência causada pela praga. Em um ambiente de questionamentos, onde nem mesmo a França, considerada a escola de medicina mais evoluída da época, pôde encontrar as respostas para a praga que assolava toda a Europa, buscavam-se as causas e, principalmente, os culpados. Nesse panorama, qualquer forasteiro era acusado de ser o potencial transmissor do mal. Assim, portas eram fechadas, infectados morriam à míngua e a violência se tornou evidente.

 

Na Alemanha, estima-se que pelo menos 200 comunidades judaicas tenham sido erradicadas, uma vez que os alemães e boa parte do norte europeu culpavam os judeus de envenenar poços e cisternas de água. Na Península Ibérica, houve vários casos de afogamentos e queima de judeus em praça pública. Acredita-se que a perseguição aos judeus durante os cinco anos em que a peste bubônica assolou a Europa só não foi maior que o massacre ocorrido durante o Holocausto.

 

Péssimas condições sanitárias contribuíram largamente para o alastramento da praga | Foto: Boccaccio

 

Na Espanha, os espanhóis usavam os árabes de bode expiatório, a discriminação e o assassinato passa a fazer parte do cotidiano por todos os lados. Nem mesmo os peregrinos religiosos escaparam da xenofobia, sendo largamente exterminados em terras portuguesas. Mas, se por um lado, os estrangeiros constituíam uma classe passível de perseguição, por outro, no clima de euforia por sobrevivência, até mesmo familiares e pessoas próximas se tornaram inimigos. Os efeitos da peste se espalhavam rápido, assim como o temor a qualquer sinal de infecção. Não foram poucos os casos de filhos sendo abandonados pelos pais e vice-versa, como citado nos manuscritos de Boccaccio.

 

O receio de contaminação tornou as ruas das cidades europeias em verdadeiras covas públicas. Nem mesmo os mais abonados tinham direito a um enterro digno, como era de costume até a chegada da peste. Dessa forma, mortos eram lançados em covas coletivas às pressas, e poucos eram os interessados em prestar condolência a qualquer familiar. O clima era de histeria e pânico.

 

As marcas

No ano de 1351, a Peste Negra se arrefeceu, deixando a Europa dilacerada após quase cinco anos de horror. Ruas, campos e cidades esvaziadas. A economia levaria séculos para se restabelecer, assim como o temor na mente dos europeus de que a qualquer momento a praga voltasse a atacar. Por décadas, fecharam-se as portas para qualquer visitante vindo de terras distantes, o sentimento de ódio era justificado pelo medo de uma possível contaminação.

 

A Europa amedrontada pela peste bubônica já não era a mesma do início do século 14.  A sociedade feudal fora dizimada assim como os ratos e as vítimas da peste. A mão de obra se tornou escassa, fazendo com que muitos proprietários de terras entrassem em colapso. No clero, faltavam jovens interessados no sacerdócio e, em vez dos padres cultos de outrora, os centros de fé se tornaram decadentes, acolhendo qualquer um disposto a vida religiosa. Nas artes, as pinturas se tornaram mórbidas, refletindo o sentimento comum. A morte, até então tema pouco explorado, ganhou destaque em quadros, dando vida à famosa dança macabra, gênero que, em geral, representa esqueletos e cadáveres.

 

A causa

Foi apenas em 1894 que, finalmente, o francês Alexandre Yersin, encontrou a explicação para a Peste Negra: um bacilo que vivia como um parasita em ratos e que recebeu o nome de Yersinia pestis, em sua homenagem. A vacina e o soro contra a peste surgiu logo na sequência pelas mãos de Yersin, Albert Calmette e Emile Roux. Alguns anos mais tarde, Paul-Louis Simond, também francês, descobriria a participação das pulgas dos ratos na transmissão da doença.

 

 

Embora as condições de saneamento básico, antes escassa, tenham melhorado pós a pandemia de 1347, em 1855, registrou-se na China a “Pandemia Contemporânea”, que foi amplamente disseminada graças ao desenvolvimento do transporte marítimo. Praticamente, todos os continentes foram contaminados, com exceção da Oceania. Em 1910, a peste voltou a matar cerca de 50 mil pessoas em uma região ao leste da Ásia chamada de Manchúria. No Brasil, em 1899, há registros de casos nas regiões litorâneas, graças a um carregamento de trigo vindo da Holanda, proliferando-se para os centros urbanos e chegando a matar cerca de 500 brasileiros por ano até a década de 1950, declinando para o número máximo de 100 casos anuais na década seguinte. Segundo a Organização Mundial da Saúde, a peste é considerada uma doença emergente e seu controle se dá pelo Regulamento Sanitário Internacional (RSI), um acordo firmado por cerca de 200 países, a fim de evitar a propagação da doença. Nos últimos 20 anos, 44 mil casos da peste bubônica foram confirmados em pelo menos 26 países espalhados pelo mundo.

 

Adaptado do texto “1347, o ano apocalíptico”

Revista Leituras da História Ed. 73