Controverso, porém, intrigante!

Júlio César tem sido uma das personagens históricas mais presentes em filmes, e também seriados, com enredos ambientados na Roma Antiga

Por Victor Henrique da Silva Menezes* | Foto: Reprodução/Creative Commons | Adaptação web Caroline Svitras

De acordo com a tradição literária antiga, foi nos idos de março (15º dia do mês) de 44 a.C. que Júlio César, com então 56 anos, faleceu. Sob a acusação de querer tornar-se rei de Roma, ele foi brutalmente assassinado em uma sessão do Senado por um grupo de políticos conservadores (os Liberatores). Ao contrário do que era esperado por eles, a morte de César causou profundas mudanças no cenário político da República Romana. Um Segundo Triunvirato – conduzido por Marco Antônio, Otávio e Lépido – foi formado e precedido por um novo período de guerras civis. Ao cabo dessas disputas, um novo regime político foi instaurado: o Principado; e Otávio, o sobrinho-neto que César adotara como filho em testamento, recebeu o título de princeps senatus (o príncipe do Senado) e tornou-se o primeiro imperador romano.

 

Otávio Augusto – como passou a ser chamado – não mediu esforços para desviar da figura de César a ideia “de ditador que atentara contra a República” que fora propagada pelos Liberatores. Os escritores romanos ligados à sua corte, inclusive, passaram a elaborar imagens de seu pai adotivo como um grande homem. A partir de então, Caio Júlio César, a “rainha da Bitínia” conforme era chamado por alguns de seus contemporâneos, começou a ser considerado uma figura chave da história de Roma; um homem “que superara todos os outros romanos”, como escrevera o historiador grego Diodoro Sículo (90-30 a.C.) tempos depois de seu assassinato. A carreira militar, os feitos políticos, as relações amorosas e o homicídio de César passaram então a marcar, aos poucos, o imaginário cultural acerca da concepção de homem romano.

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As visões negativas produzidas ainda na Antiguidade a respeito de suas ações, como aquelas que podemos encontrar nos escritos de Cícero (103-46 a.C.), Lucano (39-65 d.C.) e Díon Cássio (160- 229 d.C.) por exemplo, não impediram a difusão da ideia de César como um modelo de estadista a ser seguido. Sendo assim, diversos líderes políticos – tanto na Antiguidade Romana quanto nos períodos históricos posteriores – procuraram, com diferentes propósitos, identificar-se ou realizaram “cultos” à sua figura. Modernamente, ele tornou-se uma das personagens históricas mais conhecidas e citadas em aulas de história e em obras de ficções históricas. E nos dias atuais ainda é uma forte referência aos debates sobre imperialismo, ditadura, liberdade, tirania e também sobre o ideal masculino de governante de uma nação.

 

César constitui, assim, uma figura histórica que jamais desapareceu de vista ou do imaginário Ocidental. Testemunho disso é a incessante reutilização de sua imagem tanto em discursos políticos quanto em trabalhos literários e artísticos. Ele foi personagem central ou esteve presente, por exemplo, em obras literárias medievais e modernas consagradas, como no poema A Divina Comédia (século 14), de Dante Alighieri; na peça A tragédia de Júlio César (1599), de William Shakespeare; na ópera Júlio César no Egito (1723), de Georg Friedrich Handel; e na peça César e Cleópatra (1901), de George Bernard Shaw.

 

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Leituras da História Ed. 103

Adaptado do texto “Controverso, porém, intrigante!”

*Victor Henrique da Silva Menezes é mestrando em História Cultural pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP). Autor da monografia Capas, Espadas e Sandálias: representações da Antiguidade no cinema e na televisão, defendida na Unicamp, em dezembro de 2014.