Muro de Berlim: história e queda

Era preciso dividir o país, o espólio da guerra, em ideologias distintas. Nem que para isso fosse necessário “plantar” um muro bem na porta da casa das pessoas

Por Eduardo Vessoni | Foto: Reprodução/hamidmahmood.co.uk | Adaptação web Caroline Svitras

 

Ruínas de concreto ainda repousam ao lado de fotos de mortos homenageados em memoriais; faixas de ferro no chão contornam o antigo trajeto do muro; artistas seguem fazendo arte sobre a história no maior trecho preservado daquela construção conhecido como East Side Gallery; e estrangeiros lotam as dezenas de salas de exposição dedicadas a esse capítulo recente do país. O Muro de Berlim parece tão vivo quanto a onda crescente de visitantes estrangeiros que tem desembarcado na capital da Alemanha nos últimos anos.

 

As comemorações de 2014 aconteceram no dia 7 de novembro, quando uma sequência de balões brancos com gás hélio formaram um cordão iluminado que cortou locais de Berlim como o Portão de Brandemburgo, o Mauerpark, o Checkpoint Charlie e a Potsdamer Platz. Para relembrar a queda do muro, em 1989, os balões foram lançados no ar, no dia 9 de novembro, relembrando o momento em que as fronteiras foram liberadas. O evento foi acompanhado por uma corrente humana de 12 quilômetros de extensão, uma missa na Capela da Reconciliação e a reabertura do Centro de Documentação do Berlin Wall Memorial.

 

Mas, se em 2014 aqueles monumentos históricos foram palcos da celebração da união, no passado, foram símbolo da divisão de um país que, atônito e com imaginação insuficiente para fantasiar o que viria pela frente, viu-se sob os interesses de líderes que pretendiam protagonizar o domínio da Europa. Nem que para isso fosse necessário “plantar” um muro bem na porta da casa daquela gente.

 

“Ditadura do proletariado”

Fim da 2ª Guerra Mundial. A Alemanha nazista de Adolf Hitler estava em ruínas e se via dividida em zonas de ocupação administradas pelos Países Aliados vencedores da 2ª Guerra. O país estava fragmentado e assistia a uma luta ideológica de poder e de controle do continente sustentada por dois sistemas opostos, o socialismo e o capitalismo. De um lado, os soviéticos tomavam Berlim como espólio de guerra e começavam a transformá-la em uma espécie de satélite do comunismo. Do outro, França, Grã-Bretanha e Estados Unidos se ocupavam do lado ocidental do país sob as regras do capitalismo ou como diriam mais tarde Stalin e Nikita Khrushchev, respectivamente, o “tormento constante” e o “tumor maligno”.

 

O Muro de Berlim, ainda que sem concreto e vergalhões, começava a ter seus primeiros arrimos erguidos por uma ditadura estabelecida pelo Partido Socialista Unificado da Alemanha (SED, de “Sozialistische Einheitspartei Deutschlands”, em alemão), o único no poder. Embora não houvesse eleições livres em toda a Alemanha Oriental, o partido espalhava coloridos cartazes que retratam uma sociedade feliz que apoiava suas práticas. Para evitar a contaminação do vizinho ocidental, a União Soviética dava início a uma série de ações protecionistas que isolavam o oriente do país do resto do mundo não comunista que, cada vez mais, tornava-se atraente para aquela população isolada por um sistema rígido que ficaria conhecido como “ditadura do proletariado”.

 

Cidadãos de Berlim Ocidental observam soldados da Alemanha Oriental montando barricadas de arame farpado, em 13 de agosto de 1961, para bloquear circulação entre os lados oriental e ocidental da cidade | Foto: AP

 

Em 1952, o SED bloqueou passagens terrestres para a Alemanha Ocidental de modo a forçar a saída dos Aliados; documentos de identidade passaram a ser, rigorosamente, checados nas ruas. Em outubro de 1949, cinco meses depois da criação da República Federal da Alemanha (RFA), responsável pela Alemanha Ocidental, foi fundada também a República Democrática Alemã (RDA) ou, em alemão, Deutsche Demokratische Republik (DDR), cuja capital era Berlim; e, quatro anos depois, Stalin dava ordens para que Walter Ulbricht, líder comunista da Alemanha Oriental e responsável pela construção do futuro muro, colocasse seus homens na fronteira, a fim de ordenar os acessos descontrolados entre o Oriente e o Ocidente. A única fronteira aberta até aquele momento era Berlim, dividida entre soviéticos e ocidentais.

 

Segundo dados divulgados pelo Mauer Museum, em Berlim, quase 3 milhões de pessoas aproveitaram essa brecha para deixarem suas casas e seguirem para o setor ocidental do país, via Berlim, entre 1949 e 1961. Enquanto a vizinha República Federal da Alemanha (RFA) se fortalecia com a chegada de fazendeiros e homens qualificados que passaram a contribuir para a ascensão econômica da Alemanha Ocidental dos Aliados, o lado comunista enfraquecia com o desaparecimento de sua população. Uma construção física que impedisse aqueles deslocamentos voluntários começava a tomar forma na mente dos líderes soviéticos. A partir de 1960, Ulbricht realizou viagens constantes a Moscou e, no ano seguinte, obteria a autorização para usar uma barreira entre as duas Alemanhas.

 

Em 1961, durante uma coletiva de imprensa, Ulbricht foi questionado por uma jornalista que gostaria de saber como seria a nova fronteira nacional e, vítima de um golpe de traição do próprio inconsciente ou talvez no papel de uma espécie de arauto do que viria a acontecer em breve, o líder comunista responderia: “Ninguém tem a intenção de construir um muro”, sem que nenhum dos presentes tivesse pronunciado tal palavra.

 

Dois meses depois daquele discurso mentiroso, Berlim amanhecia, em um domingo de verão, cercada por rolos de arames farpados e dezenas de cruzamentos bloqueados, entre as Alemanhas Oriental e Ocidental. Torres de observação, obstáculos para bloquear veículos e um muro provisório começariam a ser erguidos nas semanas seguintes. Construções eram derrubadas para dar lugar a novas faixas de isolamento, edifícios que ficavam ao lado das fronteiras eram lacrados com cimento, enquanto os moradores dos apartamentos orientais vizinhos pulavam de suas janelas para a rua, já em território ocidental.

 

Muro de Berlim e Portão de Brandemburgo ao fundo (1962)| Foto: Associated Press

 

Uma das cenas mais marcantes da época são as de residentes da Rua Bernauer Strasse que tinham seus corpos puxados, simultaneamente, por policiais orientais que tentavam colocá-los de volta no interior do prédio e por ocidentais na rua que insistiam em trazê-los para o mundo de liberdade. Outros métodos de resgate, como cordas e lonas de bombeiros ocidentais, eram usados também para retirar berlinenses daqueles prédios que acabariam se transformando em fronteira.

 

“Embora tivesse sido aprovada a construção de um muro de cimento com a altura aproximada de uma pessoa (…), nas semanas seguintes a barreira consistiria basicamente em rolos de arame farpado, pranchas de madeira e concreto e postes instalados nas rotas de tráfego, estreitamente vigiados por policiais armados”, descreve o historiador Frederick Taylor, autor do livro Muro de Berlim.

 

Para os comunistas, aquela invenção era o “segundo nascimento” da Alemanha Oriental. Berlim Ocidental passava a ser, então, uma ilha capitalista rodeada por um mar socialista. Porém, mesmo com a barreira física já erguida, que as autoridades insistiam em chamar de “muro de proteção antifascista”, Berlim continuou a ver a fuga de seus moradores para o setor ocidental da cidade. Assim como lembra o historiador Frederick Taylor, “até um desempregado em Bremen, no lado ocidental, vivia melhor que um operário especializado em Bitterfeld, no oriental”.

 

Os meios

Para muitos daqueles alemães isolados do lado de lá do muro, a solução para uma vida melhor era cruzar, ilegalmente, aquela barreira ideológica e política erguida com concreto e vergalhões. E muitos o fizeram, ou ao menos tentaram, preocupando os chefões do SED. As fugas se tornaram, praticamente, um capítulo à parte na história do muro e, atualmente, figuram como destaque em museus e capítulos de livros dedicados à divisão da Alemanha. Uma das imagens mais populares é a foto do cabo Conrad Schumann, responsável pelo controle em uma das fronteiras entre os dois Estados alemães, na Bernauer Strasse, uma das ruas mais icônicas da época.

 

Guardas da fronteira da Alemanha Oriental detém Peter Fechter, que foi baleado e morto, em agosto de 1962 | Foto: Associated Press

Em 15 de agosto de 1961, em um ponto onde apenas uma barreira feita com arame farpado separava aqueles dois mundos, um irrequieto Schumann se via tentado pelos chamados insistentes de policiais da Berlim Ocidental do outro lado daquela barreira de estrutura ainda frágil. Schumann largou sua submetralhadora automática no chão, saltou sobre o arame farpado e entrou correndo no interior do carro policial que já estava com o motor em funcionamento, à sua espera. Seu salto certeiro ficaria congelado no ar para sempre no registro rápido do jovem repórter Peter Leibing, cuja imagem se tornaria mais tarde em um dos mais conhecidos ícones da Guerra Fria.
Aquele intrépido militar seria lembrado como o primeiro desertor do sistema comunista da Alemanha Oriental. No entanto, tantos outros anônimos protagonizaram travessias arriscadas (e inusitadas) para o outro lado. Bastava o desejo de liberdade e certa dose de criatividade.

 

Uniformes militares caseiros, feitos com material contrabandeado, serviram de disfarce em uma fuga de 1962 em que nem os policiais da fronteira perceberiam a farsa; malas interconectadas, cujo interior prolongado era o refúgio para a noiva de um francês, em 1971; e até via aéreas foram usadas, como a fuga épica a bordo de um balão caseiro de ar quente com oito membros das famílias Streizyk e Wetzel, em 1979. E a criatividade era do mesmo tamanho da esperança de cruzar aquela fronteira em busca de uma vida melhor, na Alemanha capitalista.

 

Entre 1971 e 1973, 29 pessoas escaparam para o lado Ocidental no interior de uma máquina de solda de 260 quilos, cujas extremidades eram protegidas por uma placa elétrica, de um lado, e cabos, do outro, impedindo que os refugiados fossem vistos em seu interior. Atualmente, o inusitado aparato de fuga se encontra em exposição no Mauer Museum, em Berlim, com acervo dedicado ao muro. Segundo a polícia secreta da Alemanha Oriental (Stasi, nome abreviado do Ministério para a Segurança do Estado), mais de 3 mil pessoas foram presas, entre agosto e dezembro de 1961, ao tentarem cruzar a fronteira, ilegalmente, a pé, a bordo de trens, em redes de esgoto e a nado pelas águas de canais fronteiriços ou pelo Rio Spree.

 

Um dos personagens que viraria símbolo das ousadas travessias fluviais foi o jovem Ingo Krüger que, separado de sua noiva Ingrid que ficara isolada no Ocidente, engendrou um plano que consistia em cruzar a fronteira pelas águas geladas do Rio Spree. Mergulhador experiente, Krüger teria seu corpo resgatado por policiais da Alemanha Oriental no fim daquela noite fria de 10 de dezembro. O jovem não resistiria às baixas temperaturas invernais de Berlim e morreria por conta de um choque térmico e, consequentemente, por afogamento, nas primeiras horas do dia 11, segundo a autópsia feita pelo Instituto de Medicina Forense da Universidade de Humboldt.

 

 

 

Nos primeiros anos de divisão da Alemanha, um serviço dava esperanças a quem queria deixar aquela cidade cercada: a falsificação de passaportes estrangeiros que permitiam cruzar a fronteira para o Ocidente com relativa segurança. Organizado por estudantes e com certa conivência não oficial de autoridades também ocidentais, o Grupo Girmann era responsável por um bem elaborado processo que incluía instruções para que os fugitivos se comportassem e dessem informações de acordo com suas novas identidades.

 

Sob os olhares dos guardas da RDA, homens constroem o muro em Potsdamer Platz, praça central, em 18 de agosto de 1961 | Foto: Alliance/dpa

 

Com a dificuldade causada pela complexidade do esquema, outras rotas começaram a surgir nos anos seguintes, como as fugas pela rede subterrânea de esgoto em Berlim que, por vezes, foram descobertas por conta do rastro deixado pelo cheiro do bueiro impregnado nas roupas dos fugitivos. A partir de 1962, túneis sob o solo arenoso da cidade foram construídos e, dois anos mais tarde, mais de 70 deles eram usados para fugas em direção à Alemanha Ocidental.

 

Entre as obras famosas está o Túnel 29, sob o número 78 da Rua Bernauer. Sob as orientações de dois italianos da Universidade Livre da Alemanha Ocidental (Mimmo e Gigi), o túnel foi construído com a ajuda de 41 voluntários e facilitou a fuga de 29 pessoas, em duas noites de operação, em setembro de 1962. A construção só seria descoberta pela Stasi, dias mais tarde, quando o rompimento da tubulação alagaria o túnel e a esperança daquela gente em seguir escapando para o Ocidente. Por outro lado, membros da Stasi também se infiltravam em grupos de fuga e detinham fugitivos, frustrando a operação.

 

Andamento da construção do Túnel 57, famosa passagem ilegal, também conhecido como Túnel Fuchs | Foto: Ralph Kabisch

 

Curiosamente, as escavações eram financiadas pelos meios de comunicação interessados em notícia e fotos exclusivas, como a revista semanal alemã Stern e a rede americana NBC, que chegou a oferecer transmissores de rádio e adiantou 50 mil marcos alemães para a construção do Túnel 29, em troca da cobertura jornalística.

 

Outra famosa passagem ilegal da época foi o Túnel 57, conhecido também como Túnel Fuchs. O idealizador Wolfgang Fuchs e estudantes voluntários construíram uma passagem subterrânea com 145 metros de comprimento e 70 centímetros de altura por onde 57 pessoas conseguiram fugir para o oeste, entre os dias 3 e 5 de outubro de 1964. Na noite do mesmo dia 5, o túnel seria invadido por dois homens que se passaram por fugitivos e, ao deixarem o local para buscar um suposto amigo que os esperava do lado de fora do túnel, retornaram com policiais de fronteira (os Grepos), dando início a um tiroteio histórico que tiraria a vida do soldado oriental Ergon Schulz. Por conta desses últimos acontecimentos fatais, acompanhados de certa desconfiança geral sobre possíveis desvios do dinheiro doado pelos meios de comunicação, a era dos túneis se encerrava naquele início de outubro de 1964. Segundo o historiador Frederick Taylor, o Túnel 57 teria sido “o último projeto de fuga sem fins lucrativos, no qual nada se cobrou dos fugitivos”. Daquele momento em diante, “cobrava-se em dinheiro vivo, que de bom grado era pago”.

 

Fugir, ou morrer

A primeira vítima do muro foi o jovem alfaiate Günter Litfin, declarado o primeiro fugitivo a ser morto pela polícia de fronteira, em 1961. Conhecido como “atravessador de fronteira” por viajar, diariamente, para trabalhar no lado ocidental, Günter foi assassinado ao tentar fugir a nado o Rio Spree, após uma abordagem de um policial da TraPos, como era conhecida a Transportpolizei.

 

Atualmente, seu irmão mais novo, Juergen Litfin, encabeça uma impactante visita ao Gedenkstätte Günter Litfin, memorial em homenagem a Günter situado no alto de uma antiga torre de observação, em Spandau. A construção que abriga o memorial é considerada uma das únicas originais da época.

 

A primeira vítima do muro foi o jovem alfaiate Günter Litfin (na foto, à direita), declarado o primeiro fugitivo a ser morto pela polícia de fronteira, em 1961 | Foto: Eduardo Vessoni

 

Números oficiais registram 138 mortos em Berlim nos 28 anos em que o país esteve dividido. Segundo estatísticas do Berlin Wall Memorial, cem pessoas foram mortas tentando deixar a Alemanha Oriental; 30 perderam suas vidas, acidentalmente; e oito eram soldados orientais assassinados por desertores, fugitivos ou até companheiros de trabalho.

 

Atualmente, a Janela da Memória, uma sequência de fotos na Bernauer Strasse, em Berlim, presta homenagem aos feridos e mortos que tentaram cruzar as fronteiras. Outro monumento do local é a Capela da Reconciliação, uma construção de taipa oval com um revestimento de ripas de madeira, cuja original foi explodida, em 1985, a mando do governo da Alemanha Oriental, pois estava localizada sobre os limites dos dois Estados. Atualmente, o local celebra missas em nome dos mortos.

 

Cada vez que os comunistas se sentiam ameaçados por novas fugas, o sistema reforçava as barreiras na fronteira e o muro ganhava peso e tamanho com versões que chegaram a 3,6 metros de altura, além de mais largo e com o topo arredondado para evitar novas evasões. Os fugitivos estavam cada vez mais ousados. E as fronteiras também.

 

Nos anos seguintes, 900 km de barreira foram erguidos ao longo de toda a Alemanha e os planos para evitar novas fugas incluíam campos minados, torres de observação equipadas com alarmes, cães de guarda, cercas eletrificadas, fios com alarme, patrulhas fluviais e um tapete de pregos posicionado, estrategicamente, para ferir e deter fugitivos, que ficou conhecido no Ocidente como “gramado de Stalin”. Formou-se a “faixa da morte”, uma terra de ninguém entre as duas barreiras do Muro que era patrulhada por soldados que tinham ordem para utilizar todos os meios para travar pessoas em fuga. Estas tropas de fronteira dispararam 1.693 vezes durante 1961 e 1989.

 

7 de outubro de 1961: enquanto ocorre a construção, ao fundo, oficial da polícia de Berlim Ocidental vigia a fronteira | Foto: Associated Press

Um dos símbolos arquitetônicos mais importantes da “superioridade da sociedade socialista”, nas palavras de Walter Ulbricht, surgiria nesse contexto, pouco antes do 20º aniversário da fundação da República Democrática Alemã. Inaugurada em 3 de outubro de 1969, a Torre de Televisão de Berlim, do alto de seus 368 metros, era a materialização de um país avançado que o setor oriental queria mostrar para o resto do mundo e funcionava como torre de telecomunicações durante a existência da RDA. Atualmente, a obra de contornos espaciais e com referências ao satélite soviético Sputnik abriga uma inocente plataforma para observação da cidade e um restaurante panorâmico.

 

Em 1989, o Muro de Berlim se estendia por 155 quilômetros e era reforçado com 302 guaritas, 20 bunkers, 259 áreas para cães, mais de 105 km de trincheiras antiveículo e quase 130 km de cerca elétrica. No entanto, alguns dos endereços mais temidos eram as penitenciárias espalhadas ao longo do país para abrigar presos civis e traidores do sistema repressivo encabeçado pelo SED. Localizado nas antigas dependências da Stasi, em Dresden, o Bautzner Straße Memorial é um dos poucos monumentos do gênero a ser preservado em toda a Saxônia e guarda um dos capítulos mais cruéis da história do muro, onde eram realizados interrogatórios e prisões preventivas de fugitivos de Dresden e de países satélites como a Tchecoslováquia.

 

O local passou a ser administrado por militares após a invasão soviética de Dresden, em 1945, e abrigou também o Serviço de Inteligência da União Soviética, cujas salas dos andares superiores eram usadas para reuniões do tribunal militar. Os quatro andares da penitenciária estão abertos para visita pública e incluem ambientes como celas, áreas de trabalho e sala de triagem, onde o recém-chegado era fichado com dados como suas particularidades de caráter, estado mental e tendência ao suicídio.

 

Embora contasse com 44 celas minúsculas e com rara ventilação, o local chegou a abrigar de uma só vez 432 presos, sob um sistema de reclusão que durava, em média, quatro meses. Calcula-se que por ali passaram, entre 1954 e 1989, de 12 a 15 mil detentos. Os interrogatórios tinham caráter persuasivo, a fim de convencer os presos de que a cooperação traria benefícios como o período de retenção e a redução da pena. Para preservar a imagem da RDA, a violência física foi extinta dos interrogatórios nos anos 60, substituída por outros métodos de pressão, como os longos questionamentos noturnos, tortura psicológica ou chantagens, como deter os familiares dos presos.

 

Uma das particularidades da Stasi-Haft Dresden, o nome oficial do local, era a presença de “informantes de cela”, companheiros de prisão que eram subornados para cooperar com a Stasi. Números oficiais apontam que 14% da população carcerária dali tinham essa função, frente aos 6% das outras penitenciárias da Alemanha Oriental.

 

Considerados inimigos do Estado, os presos tinham seus nomes ocultados e eram chamados pelo número da sala onde estavam confinados e por sua localização no interior da cela. Anônimos para os funcionários, os presos tinham suas vidas vigiadas pelos policiais a cada cinco minutos, através de um visor de vidro instalado nas portas das celas, e as cartas escritas para seus familiares eram acompanhadas por um guarda que fazia as censuras necessárias antes de serem enviadas a seus destinatários. Falar, cantar em voz alta e contatos verbais com outros presos também eram proibidos para aquela população carcerária que tinha direito a apenas um banho de ducha por semana.

 

O fim

População descontente, prisões lotadas de dissidentes, escassez de produtos, falta de energia por conta de crises de petróleo, como a de 1980, e um Estado falido devido às dificuldades econômicas foram os primeiros sinais de que a queda do muro e, consequentemente, aquele sistema político estavam próximos.

 

A falsa aparência de um Estado bem-sucedido já não conseguia ser mantida (nem entre os próprios orientais e muito menos para o mundo exterior). Para se ter uma ideia, o número de emissões de autorizações para deixar a Alemanha Oriental pulou de 30 mil, em 1984, para 112 mil, em 1987, um movimento que teve início após a histórica conferência que aconteceu em 1975, em Helsinque, na Finlândia, na qual os líderes orientais davam sinais de abertura para a livre circulação da população. Uma das ações do governo da Alemanha Oriental para reverter o quadro de crises foi a venda de presos políticos para o Ocidente, uma negociação que gerava quase cem mil marcos por cabeça. Acredita-se que nesse esquema de exportação humana foram libertadas 34 mil pessoas.

 

Homem martela muro de Berlim, em 12 de novembro de 1989 | Foto: John Gaps III/Associated Press

 

Diante dessa realidade, Leipzig fazia uma revolução silenciosa, pacífica e fundamental para a queda daquele que entraria para a história como uma das construções separatistas mais icônicas de todo o planeta. Localizada a menos de 200 km de Berlim, essa cidade da Saxônia foi considerada um dos principais pontos de oposição ao sistema imposto na Alemanha comunista por um evento histórico que ficaria conhecido como Revolução Pacífica, em que foi dado o primeiro passo decisivo para a revolução que cresceu e contaminou todo o lado Leste. Exatamente um mês antes da queda do Muro de Berlim, que se deu em 9 de outubro de 1989, aconteceram em Leipzig as, até então, maiores manifestações populares espontâneas da Alemanha Oriental, que reuniram 70 mil pessoas – uma multidão, contra a qual o partido SED não podia fazer nada. Coincidentemente, a mesma Leipzig que vira nascer Walter Ulbricht, em 1893, seria palco de um movimento popular que levaria ao chão o Muro de Berlim, pouco mais de um século depois. Desde 1982, Leipzig ficara conhecida pelas manifestações sem violência que aconteciam, religiosamente, às segundas-feiras, na Igreja de São Nicolau (Nikolaikirche, em alemão), no centro histórico de Leipzig. Aquelas manifestações encorajariam todo o restante do país.

 

No dia 9 de setembro daquele ano, 70 mil pessoas saíram às ruas da cidade, com velas nas mãos e ecoando “Nós somos o povo” para protestar contra aquela ditadura, alterando a rotina de uma cidade discreta que um dia fora residência de nomes da música clássica como Bach, Wagner, Schumann e Mendelssohn. Dois dias antes, a Alemanha Oriental celebrava, com toda a ostentação rígida de um digno desfile militar comunista, os 40 anos da criação República Democrática Alemã. “[Naquele dia] soubemos que a Alemanha Oriental não era mais a mesma. Pressentíamos, mais do que realmente sabíamos, que algo extraordinário havia acontecido. Só mais tarde compreenderíamos de fato o que acontecera”, relembra Christian Führer, ex-pastor luterano da Igreja de São Nicolau, em uma entrevista para a Deutsche Welle, a rede de notícias da Alemanha.

 

Cidadãos do lado oeste derrubam uma parte do muro, ao lado do Portão de Brandemburgo, em novembro de 1989 | Foto: Jean Claude Coutausse

 

Leipzig ficava distante da então capital da Alemanha Oriental, mas perto o suficiente do Haus zur runden Ecke, o prédio da Stasi, cujo edifício preservado abriga, atualmente, um museu dedicado à história e à atuação da polícia secreta daquele Estado socialista. A Alemanha presenciava, pela primeira na história do país, uma manifestação de proporções únicas. “Mais do que uma revolução sem líderes, o evento foi um encontro de pessoas que, em silêncio, protestavam por melhores condições no país”, descreve Arne Kühn, empresário que viveu parte de sua adolescência na Alemanha Oriental e dono, atualmente, da agência Nautas, especializada em tours históricos que são ilustrados com vídeos originais da época.

 

Leipzig possui uma rota autoguiada para pedestres que passa por 20 endereços relacionados com a Revolução, como a Nikolaikirche e o Tröndlinring, arredores da cidade onde 20 mil pessoas se reuniram no dia 2 de outubro de 1989.

 

E a cada paralelepípedo que se acende, aleatoriamente, todas as noites, no chão do centro histórico de Leipzig, um manifestante da época é relembrado. Kühn explica que, desde a Idade Média, a cidade fora um cruzamento de rotas comerciais e a população aproveitou a edição de 1989 da Leipziger Messe, uma das maiores feiras de comércio do mundo, para chamar a atenção da mídia internacional. Ainda assim, como que tocado pela onda de “ostalgia” que tem tomado a Alemanha (uma referência à nostalgia do leste que, em alemão significa “ost”), esse jovem empresário lembra com saudades da época do socialismo na Alemanha, como segurança nas ruas, emprego garantido e Educação gratuita. “Não havia preocupação com o futuro, pois vivíamos em uma economia baseada no planejamento e os relacionamentos eram mais profundos, marcados pela cooperação. Dependíamos do outro para conseguir aquilo que não era possível ser comprado”, conta Arne Kühn, que também é economista e tradutor. “Havia um sentimento de coletividade que hoje faz falta”, completa Kühn, para quem a popularização da “ostalgia” é consequência da perda de valores.

 

Em Leipzig, cada paralelepípedo que se acende, todas as noites, um manifestante da época é relembrado | Foto: Eduardo Vessoni

 

Em 1985, Gorbachev, o último líder da União Soviética, assumiria o cargo de secretário-geral do Partido Comunista e protagonizaria mudanças radicais não só na Alemanha como em toda a União Soviética, como a retirada de seu título de Estado socialista e a democratização dos países comunistas do Leste Europeu. “[A Alemanha estava] isolada atrás da Cortina de Ferro, como que guardada sob uma redoma, antes de desaparecer de todo. Durante 50 anos, a Alemanha estivera congelada. Agora, o homem novo se encontra no poder: Mikhail Gorbatchov”, descreve o escritor Michael Meyer, em seu livro 1989 – O Ano que Mudou o Mundo.

 

O discurso que o então presidente americano Ronald Reagan faria, em 1987, diante do Portão de Brandemburgo era mais um exemplo de que a intolerância estrangeira já atingia seu limite. Naquele evento de comemoração do 750º aniversário de Berlim, Reagan ordenou: “Mr. Gorbatchov, open this gate. Mr. Gorbatchov, tear down this wall” (“Sr. Gorbatchov, abra este portão. Sr. Gorbatchov, derrube este muro”, em português). No entanto, o Muro de Berlim cairia tão inesperadamente quanto seu surgimento, 28 anos antes.

 

Trecho do Muro de Berlim visto do interior do museu Topografia do Terror, um dos inúmeros museus de Berlim dedicados aos anos de separação na cidade | Foto: Eduardo Vessoni

 

Na tarde do fatídico 9 de novembro de 1989, Günter Schabowski, membro do comitê máximo do Partido Comunista, encontrava-se em uma coletiva de imprensa na Alemanha Oriental quando começou a ler, pausadamente, um papel que continha um conteúdo desconhecido pelo próprio Schabowski. Intermediada por olhadas desconfiadas e confusas, a leitura disparava uma série de medidas (inesperadas, diga-se de passagem) que revogava a lei de 1988 que proibia viagens para fora da Alemanha Oriental, assim como a ordem de agilizar os pedidos de permissões de saídas e a abertura das fronteiras entre a RDA e a RFA.

 

Um jornalista, então, pergunta-lhe: “Quando entra em vigor?” Schabowskim se volta para seu emaranhado de papéis e devolve, em seguida: “Pelo que entendi, imediatamente.” Às 20 horas daquela longa noite histórica, os jornais já anunciavam que a Alemanha Oriental acabara de abrir suas fronteiras e, pouco tempo depois, alemães se dirigiam a postos fronteiriços como o da Invalidenstrasse e do Sonnenallee para exigir passagem para o outro lado. Às 00h02min, todas as fronteiras se encontravam abertas e o mundo comunista nunca mais seria o mesmo. Muito menos a Alemanha.

 

Adaptado do Caderno de Exercícios “Muro de Berlim…25 anos depois”

Revista Leituras da História Ed. 74