Carnaval e Humor no Rio de Janeiro sob a Ótica das Revistas Ilustradas Fon-Fon! e Careta Confira a tese de doutorado de Fabiana Lopes da Cunha, na FFLCH, que narra a cobertura carnavalesca dada por estas revistas
Leandra Rajczuk - Agência USP
Na tese de doutorado Caricaturas Carnavalescas: Carnaval e Humor no Rio de Janeiro sob a Ótica das Revistas Ilustradas Fon-Fon! e Careta (1908-1921), da pesquisadora Fabiana Lopes da Cunha, podemos compreender como se dava a cobertura carnavalesca por estas revistas: o acompanhamento dos blocos de rua pelos repórteres, a publicação de fotos, charges, bem como a promoção de concursos que eram constantes nas páginas destes dois periódicos semanais.
O estudo teve como objetivo analisar as caricaturas verbais e iconográficas que literatos, jornalistas e ilustradores difundiam antes e durante o transcorrer do carnaval. "Por intermédio delas, busquei compreender não apenas a forma como a festa era retratada e representada, mas também quais os fatos relevantes, sociais, políticos, culturais que eram alvo das letras e dos pincéis dos colaboradores destas revistas", afirma a autora.
Fabiana conta que, à priori, sua tarefa foi analisar Fon-Fon! e Careta até 1930, o que não deixou de ser algo extremamente exaustivo e instigante. "O exame de todos os números de carnaval ou dos que saíram pouco antes ou logo após as festas, fazendo uma leitura criteriosa de seu conteúdo e de suas charges, consiste em tarefa árdua", diz a pesquisadora. "Consultamos em torno de 40 exemplares de cada revista, cada um com média de 50 a 70 páginas, e nos deparamos com um material rico e revelador, principalmente quanto à postura que a revista tomava com relação à política e a certas práticas relacionadas ao carnaval."
Antes da análise da imagem ou do texto, Fabiana procurou descobrir quem era o autor do documento, pois muitas vezes os literatos e até mesmo os ilustradores, deixavam de assinar seus trabalhos. Para facilitar, foi realizado um levantamento de literatos, jornalistas e ilustradores que colaboraram com as duas revistas na época, o que resultou em uma tabela, em que ficaram registrados os nomes dos colaboradores, suas principais atividades, formação, periódicos em que atuavam e seus pseudônimos. Na etapa seguinte, optou-se pela análise do tema da narrativa ou do desenho.
"Muitas vezes, a ilustração era uma forma de trocadilho visual, ou seja, se na linguagem verbal ou narrativa, o período foi rico em difundir um humor em que o recurso do trocadilho era amplamente utilizado, isso também ocorria nas charges", explica. "Isto exigiu que não somente tivéssemos um amplo conhecimento do momento histórico, dos principais acontecimentos que haviam ocorrido na cidade durante aqueles dias, mas também sobre a festa, os costumes, os hábitos não apenas dos citadinos, mas também dos articulistas e ilustradores."
"Estrangeirismos" A pesquisadora também analisou como as publicações contribuíram para retratar o senso comum e adaptar as novas formas de brincar o carnaval, desenvolvidas a partir de "estrangeirismos" vindos, principalmente, da França e da Itália. "As revistas difundiam por meio de imagens, charges, reportagens e crônicas os diversos carnavais que até então existiam no Rio, no entanto, deram mais destaque para as formas de brincar o carnaval que eram consideradas mais elegantes.
Também inseriam, em suas páginas, citações sobre a forma como as pessoas ilustres da sociedade ou que faziam parte do círculo de intelectuais que então contribuíam para estas publicações, brincavam ou se portavam nestes dias de folia."
O estudo retrata ainda de que forma o carnaval e o humor difundido por meio de seus carros de crítica ou nas fantasias de mascarados avulsos - que insistiam em brincar pelas ruas da cidade - traduzem uma identidade com a nação e com seu cotidiano e política muito peculiar, muitas vezes traduzidas por intermédio do sarcasmo e da irreverência de críticas feitas em momentos de festa. "Não queremos, com essas observações, insinuar que o riso e a sátira sejam formas típicas do brasileiro se manifestar política e socialmente. Mas, ao menos durante a Belle Époque, a representação humorística foi extremamente usada e importante para a comunidade e também para a elite intelectual expressar seus anseios de modernidade."
Entre as principais representações humorísticas identificadas no estudo há algumas colunas elucidativas das representações do "bom" e do "mau humor". "Do chamado 'bom humor' temos exemplos, como Cartas de um Matuto, de José do Patrocínio Filho, difundida na Careta durante anos", destaca. "Do 'mau humor' temos também algumas como a Caixa de Gazolina da Fon-Fon!."
Representação O estudo revela como os caricaturistas e articulistas acabavam expressando, nas revistas ilustradas, não apenas suas opiniões, mas também aquilo que já era um consenso pelas ruas da cidade. "Por conta disso, tornavam-se motivos para a confecção de fantasias e máscaras sobre o assunto. Tais sátiras estavam, portanto, associadas a uma forma carnavalesca de representar estes temas que faziam parte do cotidiano da população ou de parte da inteligentsia que contribuía para estas edições", ressalta.
Historiadora formada pela USP, o mestrado de Fabiana Lopes resultou em um trabalho publicado no livro "Da marginalidade ao estrelato: o samba na construção da nacionalidade (1917-1945)", da Editora Annablume. Atualmente, Fabiana é professora da Universidade Estadual Paulista (Unesp) no campus experimental de Ourinhos, onde ministra aulas de História Social e Política do Brasil, além de Sociologia e África e Brasil: um diálogo cultural através do Atlântico.
"Ao ter entrado em contato com documentos e composições do referido período pude perceber que apesar do humor e do carnaval serem muito interligados não havia nenhum trabalho que tratasse de ambos como 'atores principais", enfatiza.
Segundo a historiadora, sua pesquisa poderá auxiliar em questões metodológicas sobre o uso de imagens e, sobretudo, caricaturas, como documento histórico. "O estudo também servirá como um estímulo à reflexão sobre a importância da festa e do humor e, destes dois aspectos associados, como elementos identitários importantes para se compreender a forma como nos vemos e nos concebemos enquanto nação." A tese de doutorado de Fabiana Lopes, defendida em 11 de abril de 2008, foi orientada pela professora Dra. Maria Inez Machado Borges Pinto, na área de História Social, do Departamento de História da FFLCH. |