História Entidades assistênciais foram vitais para judeus se fixarem no Brasil durante a guerra Segundo a pesquisadora Renata Mazzeo Barbosa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH), da USP, calcula-se que, entre 1937 e 1946, mais de mil imigrantes judeus tenham sido beneficiados com as aulas de língua portuguesa
Agência USP de Notícias
O apoio de entidades judaicas, como a Congregação Israelita Paulista (CIP), foi fundamental para que os judeus refugiados da Segunda Guerra Mundial e também no pós-guerra conseguissem se estabelecer no Brasil. "O governo brasileiro não implementou nenhum programa de auxilio ou assistência a essas pessoas. Elas chegavam ao País sem falar o idioma, muitas vezes sem família e sem conhecer ninguém", conta a pesquisadora Renata Mazzeo Barbosa, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP. "A falta de amparo do governo brasileiro fez a comunidade judaica se organizar para ajudar os refugiados", aponta.
Renata pesquisou o papel de instituições judaicas de auxílio, em especial a CIP, durante a fuga de judeus da Europa e a imigração para o Brasil no contexto da Segunda Guerra. Segundo ela, calcula-se que, entre 1937 e 1946, mais de mil imigrantes judeus tenham sido beneficiados com as aulas de língua portuguesa, uma das atividades oferecidas pela Congregação Israelita Paulista.
A pesquisa foi realizada a partir do Arquivo Histórico Judaico Brasileiro e do Arquivo Público do Estado - que contêm documentos do Departamento Estadual de Ordem Política e Social do Estado de São Paulo (DEOPS). "Durante a realização do mestrado, a professora Maria Luiza Tucci Carneiro (orientadora da pesquisa) recebeu a doação do arquivo do médico Ludwig Lorch (conhecido como Luis Lorch), que foi um dos fundadores da CIP e presidente da instituição até 1942", destaca Renata. "Neste arquivo encontramos documentos inéditos sobre a Congregação, fato que muito contribuiu com meu estudo", diz. Entre o material ela destaca listagens de judeus proibidos de entrar no Brasil entre 1939 e 1945, atas de reuniões e correspondências da CIP com outras entidades judaicas de assistência.
Amparo
A CIP foi criada em dezembro de 1936. Um dos papéis da instituição era o de amparar os refugiados judeus. "Os representantes da CIP iam até o porto, traziam essas pessoas para São Paulo e os auxiliavam na busca por moradia, emprego, escola para as crianças, concediam empréstimos, assistência médica e hospitalar", explica Renata. A congregação também buscava legalizar, junto às autoridades, a situação dos imigrantes que haviam chegado ao Brasil com vistos para turismo, válido por apenas 90 dias.
Outro objetivo da CIP era trabalhar para que um número cada vez maior de judeus conseguisse chegar ao Brasil. "Isso acontecia por intermédio das "cartas de chamada" que, até 1938, foram a condição para que alguns segmentos imigrantes pudessem chegar ao País. As cartas deveriam ser emitidas por parentes do imigrante e atestar que o sustento do mesmo estaria garantido no Brasil. Após 1945, o trabalho centrou-se em trazer para o País os refugiados do pós-guerra, por meio de contatos com cônsules e diplomatas e a garantia da concessão de vistos para o Brasil", explica a pesquisadora.
De acordo com Renata, a CIP mantinha relações com outras associações de auxílio tanto no Brasil, como a Associação Beneficente Israelita do Rio de Janeiro (União), como também no exterior, como a American Jewish Joint Distribution Committee (JOINT), com sede em Nova Iorque (EUA).
"A CIP e a União atuaram para evitar a prisão de judeus após a entrada do Brasil na guerra: muitos deles eram alemães e acabavam sendo confundidos pela polícia como súditos do Eixo", afirma. Renata lembra que japoneses e italianos também tiveram o mesmo problema devido aos decretos que determinavam a prisão e o confisco de bens de pessoas dessas nacionalidades. "Houve uma movimentação na CIP com a finalidade de explicar ao governo brasileiro a diferença entre judeus alemães e alemães simpáticos ao nazismo. Ocorreram reuniões com ministros e cartas foram encaminhadas para o então presidente Getúlio Vargas", conta.
Campanhas de arrecadação
A CIP recebeu dinheiro da JOINT até 1942, quando a Congregação passou a se manter financeiramente. De 1941 até 1948, a CIP realizou campanhas de arrecadação de verbas entre os membros da comunidade judaica paulista a fim de enviar para a Europa e ajudar outras instituições semelhantes.
Outra atitude importante da Congregação ocorreu em 1937, com a Fundação do Lar da Criança Israelita, "uma espécie de escola responsável por amparar as crianças órfãs ou muito pobres. Além das crianças que iam para a escola pela manhã e saíam à tarde, o Lar mantinha cerca de 20 internos (entre os anos de 1937 e 1948)", explica Renata.
Segundo dados da CIP, em 1942 o número de imigrantes judeus em São Paulo era de 8 mil pessoas, sendo que 3.725 eram provenientes da Alemanha. "Até 1938, o número total de recém-chegados amparados pela CIP, variava entre 100 e 200. No entanto, a partir de 1939, com a crescente imigração de pessoas que entravam no Brasil com visto de "turistas" e de idosos, esse número subiu para 400 pessoas. Apenas naquele ano [1939], 305 pessoas se beneficiaram com aquela assistência. Já em 1941, os beneficiados chegaram a 400", aponta.
Mais informações: (11) 3719-5076 / (11) 9239-5838 ou e-mail remazzeo@usp.br, com a pesquisadora Renata Mazzeo |