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Estruturas góticas trazem solidez à Catedral de São Paulo
Torres frontais e outros detalhes típicos do gótico garantem segurança estrutural e equilíbrio a construção

Agência USP

 

  Símbolo religioso, arquitetônico e social da cidade de São Paulo, a Catedral da Sé apresenta características em sua construção que lhe conferem grande solidez, analisadas em pesquisa da Escola Politécnica (Poli) da USP. O trabalho da engenheira Karen Niccoli Ramirez mostra que detalhes típicos do estilo gótico, como as torres frontais, trazem maior segurança estrutural à igreja, garantindo o equilíbrio da construção.

O estudo tinha como objetivo avaliar a estrutura da Catedral e seu comportamento com relação a deslocamentos e tensões, a partir de um modelo tridimensional simplificado que considerou o comportamento linear dos materiais. "Não há trabalhos sobre a Catedral da Sé, e para conseguir material foi necessário pesquisar nos arquivos da Cúria Metropolitana de São Paulo", conta Karen. "No mestrado, foram pesquisados os aspectos arquitetônicos e históricos e abordados aspectos do comportamento estrutural da edificação de um ponto de vista qualitativo, enquanto a análise estrutural foi desenvolvida no doutorado."

Inicialmente, a Catedral foi analisada em sua totalidade por meio do modelo tridimensional. Em seguida, simulou-se a remoção dos arcobotantes (elementos de apoio das paredes),  típicos do estilo gótico, e, também das torres frontais. "Verificou-se que embora não viesse a ocorrer o colapso da estrutura com a retirada destes elementos, ambos são fundamentais para dar segurança estrutural à obra", diz a engenheira. "Sua inclusão foi bem concebida pelo engenheiro arquiteto Maximiliano Hehl, responsável pelo projeto."

O estudo da estrutura também revelou que as regiões com os maiores deslocamentos estruturais são também as mais críticas em termos de tensão. "A recente reforma pela qual a Catedral passou entre 2000 e 2004, após a queda de tijolos das abóbadas (arcos do teto), alertou para a necessidade de se compreender melhor a estrutura da igreja, e nesta ocasião foram mapeadas um grande número de fissuras em suas abóbadas", afirma Karen. "Entretanto, não há risco de colapso na estrutura, fato que já havia sido demonstrado pelo engenheiro Luiz Anhaia Melo durante as obras, em 1950, quando algumas fissuras surgiram e foram atribuídas a um assentamento das fundações."

Carregamento
De acordo com a engenheira, poucas são as fissuras da Catedral relacionadas ao carregamento. "Esta análise é preliminar e apenas indicativa de quais aberturas podem estar associadas ao carregamento. É necessário estudar os outros prováveis agentes, como efeitos de recalque e de temperatura", relata. Apesar dos reparos feitos durante a reforma, algumas fissuras voltaram a aparecer na região curva próxima ao altar, que é uma das mais críticas em termos de tensão. "Será preciso realizar estudos mais detalhados para verificar se há relação entre as novas fissuras e o carregamento."

A Catedral da Sé começou a ser construída em 6 de julho de 1913, quando Dom Duarte Leopoldo e Silva era o Arcebispo de São Paulo. A inauguração aconteceu em 25 de janeiro de 1954, no quarto centenário da fundação da cidade, mesmo com parte das torres frontais, os torreões e elementos decorativos ainda não executados. "Apesar de estilo predominantemente gótico, no cruzeiro do transepto [ponto do edifício em que dois salões se cruzam] ergue-se uma cúpula renascentista, inspirada na Catedral de Florença, na Itália", diz Karen. "O longo período de construção levou a mudanças de alguns materiais estruturais, como é o caso da cúpula e provavelmente de algumas das abóbadas de seu entorno, que foram feitas em concreto armado, ao invés de tijolos."

Com 111 metros de comprimento e 46 metros de largura, a Catedral tem dimensões semelhantes à Abadia de Saint-Denis, da França. "Porém, ela é menor que outras catedrais do Alto Gótico europeu, como Chartres, Reims, Amiens e Beauvais, também localizadas na França", aponta a engenheira. "Essas igrejas possuem três naves, sendo uma central mais alta que as demais, enquanto em São Paulo são cinco naves e as abóbadas se projetam da mesma altura, proporcionando um efeito de verticalidade menor".

Karen pretende que o trabalho incentive pesquisas sobre questões estruturais de outras construções do patrimônio arquitetônico brasileiro. "Existem poucos estudos de engenharia realizados no Brasil, a maior parte é feita na Europa", conclui. A pesquisa teve a orientação do professor Henrique Lindenberg Neto, da Poli.

 

 

 

 

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