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Iniciativas da universidade documentam origens do samba
Vídeo documentário que reúne relatos de personagens ligados à história do samba de São Paulo e um site

Agência USP

Alunos da Escola de Comunicação e Artes (ECA) e da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, com o apoio da Pró Reitoria de Cultura e Extensão, levaram adiante o projeto Samba à Paulista - fragmentos de uma história esquecida.

Como parte da iniciativa, foi produzido um vídeo documentário que reúne relatos de personagens ligados ao samba de São Paulo e um site (http://www.sambaapaulista.com) com todas as informações do projeto. Iniciado em 2005, Samba à Paulista forma um acervo de mais de 170 horas de material digital e cerca de 200 documentos históricos reunidos.

Depois de realizado o projeto, a percepção do diretor Gustavo Mello é de que o samba de São Paulo foi, e continua sendo, constituído em "guetos". "Ao realizar o filme me deparei com muitos sambistas da velha guarda que estavam desiludidos com a falta de reconhecimento e espaço para a produção musical", conta o diretor.

Mello, que é formado em Publicidade e Propaganda pela ECA, lamenta que a cidade nunca acolheu o sambista, nem referenciou sua identidade neles, e isso acabou por gerar uma enorme lacuna de registros históricos. "Para se ter uma idéia, o cordão carnavalesco é um dos festejos paulistanos mais típicos e eu encontrei apenas uns dez minutos de registro na cinemateca. Quase não há fotografias e filmes", diz, enfatizando que "o que se tinha de mais exclusivo se perdeu." De acordo com o diretor, os únicos detentores dessa história são os sambistas ainda vivos que guardam fotos pessoais e memórias, "embora muitas vezes imprecisas", como lembra Mello. "O recorte do filme passou por isso: relatos pessoais e fragmentos de histórias, uma história quase esquecida, como diz o sub-título. Desde que o filme foi lançando, no carnaval de 2007, cinco baluartes de São Paulo que participaram das filmagens já faleceram."

O diretor lembra que ações de preservação podem ser encontradas em grupos como o Kolombolo Diá Piratininga, com sede na Vila Madalena, em São Paulo (que pratica, nas palavras deles, uma "resistência cultural"), Sambaqui e Cupinzeiro, de Campinas, entre outros. "São ações positivas e cada uma com particularidades próprias."

As origens rurais e urbanas do samba

Num dos estudos mais recentes desenvolvidos na USP, o geógrafo Márcio Michalczuk Marcelino analisa que, mesmo nos dias atuais, alguns traços originais do samba de São Paulo ainda resistem. "Me recordo quando no carnaval de 2007 alguns integrantes da Vai-Vai, após a conquista do título, foram a uma igreja do bairro do Bexiga e em seguida a um terreiro, antes mesmo das comemorações", lembra. "Na Unidos do Peruche, antes do desfile, uma mãe-de-santo e um padre visitam a quadra da escola."

Marcelino, que defendeu dissertação de mestrado sobre o tema na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP, acredita que tais manifestações mostram a forte ligação do samba com a religiosidade. A pesquisa Uma leitura do samba rural ao samba urbano na cidade de São Paulo possibilita uma viagem ao início do século 18, a Pirapora do Bom Jesus, e analisa a atual situação do carnaval paulistano que, na opinião do pesquisador, tornou-se muito semelhante ao do Rio de Janeiro, totalmente comercial e preso a regras.

Um dos motivos que levou Marcelino a empreender um estudo desses, certamente foi sua origem ligada ao bairro do Parque Peruche, na Zona Norte de São Paulo, um dos redutos de sambistas paulistanos e onde estão sediadas algumas escolas de samba das mais tradicionais da cidade. Lá, o geógrafo identificou e participa de projetos que visam preservar e recuperar as origens do samba paulistano. "Uma escola do bairro chegou a adotar em seu currículo a história do samba de São Paulo", conta satisfeito.

Um dos projetos que Marcelino tem em mente é constituir o que ele chamará de Casa de Cultura do Samba. "Nem tudo pode estar perdido. Se proporcionarmos às pessoas, principalmente aos jovens, o conhecimento da história desse gênero musical em São Paulo, poderemos obter a médio e longo prazos iniciativas mais fortes de preservação dessa cultura", além da implementação de ações de geração de renda e fortalecimento das organizações sociais", avisa otimista. Segundo Marcelino, há ainda grupos de roda e jongo em alguns pontos do estado de São Paulo.

Samba marginal

Marcelino identificou em sua pesquisa os motivos pelos quais o samba de São Paulo chegou a ser marginalizado, principalmente entre as décadas de 1940 e 1950. "Nesse período de crescimento da industrialização muitas pessoas vieram a São Paulo. Um pouco antes, porém, o presidente Getúlio Vargas fechou algumas rádios da cidade", conta o geógrafo.

Foi aí, segundo o pesquisador, que se deu o início da hegemonia da Rádio Nacional do Rio de Janeiro. "A partir desse momento, os ouvintes paulistanos passaram a ouvir a programação da rádio carioca e, consequentemente, os sambas de lá. As origens do 'samba rural' paulistano começavam a ser apagadas."

Mas ele ressalta que mesmo assim havia na cidade os cordões, que originaram a maioria das escolas de samba tradicionais de São Paulo, como a Lavapés, Vai-Vai, Camisa Verde e Branco, e que muito lembravam as procissões religiosas. "Aí está mais um traço do samba ligado à religiosidade", define, lembrando que "enquanto no Rio de Janeiro uma senhora chamada Dona Ciata conseguia, lá no começo do século XX, reunir pessoas do samba e da cena carioca em geral, em São Paulo o gênero ainda estava na marginalidade." O pesquisador considera que até 1976, ainda na avenida São João, no centro de São Paulo, o samba paulistano das escolas de samba ainda tinha uma certa relação com o 'samba rural'. "A partir daquele momento, quando os desfiles foram transferidos para a avenida Tiradentes e, posteriormente, para o Sambódromo, o samba paulistano das escolas tornou-se cada vez mais semelhante ao do Rio de Janeiro, totalmente comercial e preso a regras", lamenta.

 

 

 

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