QUESTIONAMENTO PARA TRANSCENDÊNCIA "Gostaria de lançar pontes entre crentes e não-crentes. Pois o limite entre crer e não crer nos perpassa. Nós somos a um só tempo crentes e não-crentes"
POR ANSELM GRÜN
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| A visão de São João, do italiano Alonso Cano (1601 – 1667) |
“Depois de completar o ensino médio, ingressei na Abadia de Münsterschwarzach, porque desejava fazer alguma coisa pela Igreja. Já antes de meu ensino médio, o concílio havia começado. E eu auferi alguma coisa desse espírito do concílio. Após o entusiasmo primeiro pela vida monacal, adveio uma crise durante meus estudos. Muita coisa me pareceu antiquada e empoeirada. Os rituais não tinham sentido para mim. Alguns companheiros e eu queríamos um monacato renovado. Queríamos dar uma resposta às perguntas da época. Em algumas respostas a Igreja nos parecia conservadora demais.
Procurávamos então na Psicologia e na meditação zen saídas para nosso caminho espiritual. Nos anos 1970, voltamos da Psicologia para as fontes dos monges primitivos. A Psicologia de C. G. Jung ajudou-nos a redescobrir os rituais. A conjunção de Dürkheim, da meditação zen e da Psicologia de Jung ajudou-nos a levar a sério o corpo e encontrar um novo sentido para os gestos e atitudes de oração. E assim demos novo sentido à nossa vida de monges. E sentimos que este caminho nos leva à vida e a uma espiritualidade mais profunda.
(...) Acredito que muitas pessoas em busca espiritual entendam meu modo de pensar. Sentem-se compreendidas em sua experiência. Meu objetivo é mostrar a essas pessoas em busca que a tradição cristã leva a sério suas experiências e que também as leva avante não só no espaço do silêncio, mas, em última análise, até Deus, que mora em mim neste recinto do silêncio. E Deus não é apenas o divino, mas um tudo que me interpela e me ama (...).
Não tenho problemas com a Igreja oficial. Bispos me convidam para retiros e conferências. Estudei Teologia Dogmática em Roma. Meus livros estão conformes à dogmática católica. Mas, para mim, a dogmática não é uma limitação. Sua finalidade é manter aberto o sentido para o mistério. (...) Os autores que fazem restrições a mim são muitas vezes levados pela inveja. Invejam que meus livros sejam lidos por pessoas não ligadas à Igreja. Mas eu estou plenamente dentro da Igreja e escrevo de tal forma que os cristãos muitos próximos de Cristo façam bom proveito de meus livros quanto também os afastados da Igreja sejam por eles tocados. Gostaria de lançar pontes entre crentes e não-crentes. Pois o limite entre crer e não crer nos perpassa. Nós somos a um só tempo crentes e não-crentes.
(...) Para mim, faz parte de uma boa teologia que ela seja entendida. Sempre quis explicar a meus irmãos o que escrevia. E isto é um critério importante para mim, que as pessoas entendam a Teologia. Muitos textos religiosos têm uma linguagem peculiar. Não quero mudar a linguagem da Bíblia e da dogmática. Mas ela precisa de uma tradução. Para mim fica sempre a pergunta: como entender isto? E qual a experiência que está por trás dessa frase? Não basta apenas repetir os velhos chavões.
| DEBATE INTERNO |
| O 21o Concílio Ecumênico Vaticano Segundo (CVII) foi iniciado durante o papado de João XXIII, em 1962, e teve fim sob o papado de Paulo VI, em 1965. Discutiram-se nesse período temas pertinentes à Igreja, com vistas a uma regulamentação para trazer melhor entendimento de Cristo na realidade do homem moderno. Os concílios ecumênicos católicos proclamam, disciplinam e instituem a dogmática da Igreja para determinada época. Entre eles, o CVII foi o que refletiu em nível global sobre a própria Igreja. Permitiu, por exemplo, que o latim fosse substituído por línguas locais nos cultos religiosos. |
(...) Fiz minha tese de doutorado sobre a obra de Karl Rahner. Senti-me com isso afinado com seu pensamento. Para ele também a grande questão era como posso sentir Deus. Para ele, Deus era o mistério insondável, mas sempre presente em nosso pensamento. (...) É muito importante hoje que a Igreja procure satisfazer o desejo espiritual das pessoas. E isto ela só o consegue na medida em que transmite a elas a riqueza espiritual. Esta está sobretudo na oração e na meditação que sempre foram praticadas no cristianismo.
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