EXPLORAÇÃO NO CONGO Um pedaço de bolo no meio da África Dono do Estado Livre do Congo, Leopoldo II, da Bélgica, inaugurou a temporada de exploração do continente africano
POR MARCELO GALLI
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| Selo de postagem do Congo Belga, um objeto que, sozinho, sintetiza o anacronismo da “civilização” da África pelos europeus |
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| Moeda comemorativa dos 175 anos da dinastia real belga. Vê-se a efígie de Leopoldo II, a inscrição “Leopoldus” e a data de 2007 |
O escritor argentino Jorge Luís Borges definiu o livro Coração das trevas, do britânico de origem polonesa Joseph Conrad, como “o mais intenso de todos os relatos que a imaginação humana jamais concebeu”. Opinião inequívoca expressa de um autor que, sabidamente, usou a imaginação de forma prodigiosa (e sabia da ausência de fronteira desta) para criar mundos e situações literárias nos seus contos.
Por conta do trabalho na marinha mercante francesa, e depois britânica, Conrad relata naquela obra o que presenciou do imperialismo nascente das nações européias na segunda metade do século XIX, na África, pelos olhos de Marlow, que trabalha para uma companhia num vapor em um “grande rio”, onde a lua espalhava “na superfície de todas as coisas uma fina camada prateada — sobre a mata densa, sobre o lodo, sobre o muro de vegetação entrelaçada, mais alto que as paredes de um templo”, e para quem esse cenário, silencioso, levantava uma dúvida: “A quietude na face da imensidão que olhava para nós significava um apelo ou uma ameaça”. Neste caso, a resposta poderia ser dupla e estridente, porque, na realidade, tratava-se do Estado Livre do Congo, empreendimento localizado no centro-sul do continente africano, oficialmente caracterizado de filantrópico-humanitário-científico-civilizatório, capitaneado pelo monarca belga Leopoldo II.
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| Ilustração do encontro entre Henry Morton Stanley e David Livingstone. Este último comandou expedições para a Coroa inglesa e para sociedades geográficas. O encontro estimulou os interesses exploradores de ambos |
A historiografia aponta a administração dele como a mais cruel e barbárica, embora escassamente lembrada quando o assunto é neo-imperialismo europeu, sendo considerada o primeiro golpe de facão para a “partilha da África”, isto é, a criação de colônias e protetorados por toda a extensão daquele continente pelas potências da Inglaterra e França, principalmente, além de Alemanha, Itália, Espanha e Portugal. Os métodos pouco ortodoxos e iluminados usados pelos prepostos do rei contra a população local levariam o monarca hoje para o tribunal como um criminoso, a parear com facínoras como Stálin e Hitler. O repertório incluía corte das mãos, dedos, narizes e assassínios sem motivo, pelo não cumprimento de cotas determinadas de extração de borracha, por exemplo.
| Os motivos para o imperialismo podem ser vistos sob prismas diferentes, mas as cores são sempre sombrias |
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