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EXPLORAÇÃO NO CONGO
Um pedaço de bolo no meio da África
Dono do Estado Livre do Congo, Leopoldo II, da Bélgica, inaugurou a temporada de exploração do continente africano

POR MARCELO GALLI

POTENCIAL ECONÔMICO E RELIGIOSO
De olho nos recursos naturais de um território que compreendia dezenas de vezes o tamanho da Bélgica, cujo centro atravessa um rio que só perde em extensão para o Amazonas, Leopoldo II, considerado pelo jornalista e agente Henry Morton Stanley, que seria a ponta da lança do belga nessa empreitada, como um “esperto estadista”, “supremamente esperto”, usou das suas credenciais reais e articulação política para adquirir, sem nunca ter pisado no local, uma colônia para si, particular. Realizou, assim, o sonho do pai, Leopoldo I, e contrariou o conto de Borges em que a personagem principal vai ao encontro do seu tesouro alhures, após um sonho, leva uma surra, volta para casa e desenterra o sonho no quintal de casa.

FOTO: THOMAS ANNAN
O missionário David Livingstone desvendou o continente mesmo com saúde débil. A Sociedade Real Geográfica Britânica chegou a enviar expedição em seu auxílio, mas, quando esta chegou, Livingstone já estava morto e seu corpo na Inglaterra

Os motivos para o imperialismo podem ser vistos sob prismas diferentes. Mas, de qualquer maneira, as cores são, quase sempre, sombrias. O fardo do homem branco, de levar a luz da cultura e razão ocidental e européia aos povos, segundo a visão deles, primitivos. O interesse econômico e comercial, entretanto, é interdito no discurso polido dos homens da política e negócios dos países que participaram do empreendimento intercontinental. A expansão do mercado consumidor para os produtos industrializados da Europa, que passava, naquele momento, a partir das décadas de 1860 e 1870, por uma recessão sazonal; concentração populacional provocada pelo êxodo rural e nascimento das grandes metrópoles modernas; e, finalmente, busca de matéria-prima e mão-de-obra barata para a indústria.

Mas, antes do surto imperialista, missionários percorreram regiões do continente africano para catequizar os habitantes locais e denunciar o terror e destruição que o comércio de escravos provocava; isso com a Bíblia numa mão e a civilização na outra. O inglês David Livingstone foi um deles. Abriu caminho para o interior do continente, via Zambezi, importante rio localizado na África meridional, que deságua no oceano Índico, em Moçambique, escreveu diários relatando o dia-a-dia de suas viagens. Comandou também expedições em benefício da Coroa inglesa e para sociedades geográficas; era conhecido na Europa e Estados Unidos e, em 1871, pouco se ouvia falar dele. O jornal New York Herald, por esse motivo, resolve enviar o jornalista Henry Morton Stanley com a missão de encontrá-lo, que, embora estivesse com a saúde debilitada, continuava a desvendar o continente, principalmente a região dos Grandes Lagos, no leste do Congo. O encontro ocorreu em novembro daquele ano, em Ujiji, perto do lago Tanganica, e reforçou em ambos o interesse pela exploração do continente.

FOTOS: WIKIPEDIA
Foto de Leopoldo II, da Bélgica. Descrito como um estadista “supremamente esperto”, usou suas credenciais para adquirir uma colônia particular, sem nunca ter pisado no local

Temendo pela piora de saúde do missionário, a Sociedade Real Geográfica Britânica (Royal Geographical Society) envia uma coluna de auxílio sob a liderança do oficial naval (que trabalhara para o esquadrão antiescravidão) Verney Lovett Cameron. A expedição foi denominada The Livingstone East Coast Expedition, chegou em Ujiji em fevereiro de 1874, mas tarde demais, pois o corpo embalsamado dele, morto um ano antes, já estava na Inglaterra. Segundo o jornalista inglês John Reader, no livro Africa — a biography of the continent (“África, biografia de um continente”), ainda não publicado no Brasil, Cameron foi o primeiro homem a atravessar o continente, partindo do Índico, em março de 1873, até o Atlântico, em Benguela, atual Angola, em novembro de 1875. Chegou a fazer acordos com as lideranças locais e, por força destes, declarou um protetorado britânico sob a bacia do Congo em 28 de dezembro de 1874, a ser aprovado pelo Foreign Office (Ministério de Relações Exteriores inglês). A diplomacia britânica não aceitou a proclamação do Congo como seu protetorado, atendendo a interesses portugueses na região, em troca de acordos de comércio e combate à escravidão, já que o primeiro europeu a fazer contato com os autóctones, de acordo com relatos históricos, foi o navegador português de Vila Real, Diogo Cão, em 1483. Ele estabeleceu relações com o Reino do Congo em nome da Coroa portuguesa e interesses mercantilistas da Península Ibérica.

UMA OPORTUNIDADE IMPERDÍVEL
A experiência do oficial foi relatada em cartas, encaminhadas para a Sociedade Real, cujo presidente, Sir Henry Rawlinson, divulgou para o público na noite de 10 de janeiro de 1876. No dia seguinte, Leopoldo II, no seu palácio, leu trechos dos relatos na edição do dia posterior do Th e Times, que recebia todos os dias: “[...] o interior é em grande parte um magnífico e rico país de uma riqueza intraduzível. Eu tenho um pequeno montante de bom carvão; outros minerais, como ouro, cobre, ferro e prata, são abundantes; e estou confiante que com uma sábia e liberal (não generosa) despesa de capital, um dos maiores sistemas de navegação interior do mundo pode ser utilizado e, de 30 até 35 meses, começar a repagar qualquer capitalista empreendedor que poderia gostar de ter de volta (...) noz-moscada, café, semsem [sesame seed], amendoim, olho de palmeira, arroz, trigo, algodão; toda a produção do sul da Europa, borracha da Índia, copal e cana-de-açúcar são as produções de vegetais que podem ser lucrativas. Um canal de 20 até 30 milhas por toda a região baixa do país poderia conectar os dois grandes sistemas do Congo e do Zambezi, as águas da chuva podem até formar uma ligação entre eles. Com um capital de 1 até 2 milhões de libras para começar, uma grande empresa iria ter a África aberta por volta de três anos, se trabalhar de forma adequada”.

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