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REIS SOLARES INFLUÊNCIA FRANCESA NO SÉC. XVII D. João V Rei-Sol Governante português traz a marca de Luís XIV em sua maneira de ser e governar: a alegoria do Sol, do luxo barroco ao modelo de exercício do poder
POR RUI BEBIANO
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Na obra de Giovanni Battista Tiepolo, pintor italiano do século XVIII, Apollo deixa seu palácio e é acompanhado por duas deusas horae, enquanto o Sol nasce atrás dele. Aqui, o astro-rei aparece como a força que dá vida e determina o curso dos dias, meses e anos |
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Os egípcios tinham o seu próprio Deus do Sol, chamado Rá. Nos cultos, O deus era concebido como o próprio sol, na forma de um disco |
Todo monarca é uma vedete. Colocado, pela sua condição, pelo seu temperamento, pelo sistema político e social de que é centro e emblema, na convergência de todas as atenções. Constrói uma imagem, lança modas, orienta uma certa modalidade do imaginário social. Ao mesmo tempo, é caprichoso: requer todos os cuidados para prolongar a imagem que criou, somente aceita os objetos e procederes que desenvolvam esse gênero de representação. Situado num local privilegiado, procura dar-se a ver numa atitude que realce a intangibilidade dessa posição.
Paradigmático em relação a essa constatação é o corpo físico e simbólico do rei, pensado e olhado na configuração solar, envolvendo na sua tela de significação historicamente situada um aspecto importante e momentaneamente essencial daquela vertente da condição régia. É sabido que a relação simbólica é tão velha quanto a condição humana — o animal, esse somente reage a um sistema de símbolos —, tendo sido a diferenciação com o meio ambiente aquilo que permitiu ao homem primitivo a sua experiência intelectual inicial. Foram, no princípio, os “gestos diferenciados em esquemas”, segundo a expressão de Gilbert Durand,1 mas também, para além disso, e como assinala Jacques Bril, “as percepções agrupadas em motivos e assimiladas, arrumadas pelo órgão psíquico segundo estruturas”, 2 aquilo que, de um modo em relação ao qual somente pressentimos os mecanismos, foi possível transmitir-se, determinando assim, gradualmente, os grandes arquétipos. A linguagem simbólica, sejam quais forem os veículos físicos que lhe possibilitem o desenvolvimento (gestuais, mímicos, fonéticos etc.) aparece então como resíduo da nossa comunicação primitiva com a natureza.3
Assim sendo, essa linguagem se reveste de alguma ambigüidade, se é, desde o início, uma linguagem “partida” — sabe-se que no seu étimo grego símbolos designa o objeto separado em dois, servindo cada uma das metades para confirmar num contato ulterior à anterioridade de uma relação estabelecida —, é também uma linguagem que, na sua teia de significações progressivamente complexas e imbricadas, remete em última instância para uma relação primordial, de contato direto com a natureza. A simbologia solar encontra-se, naturalmente, nessa situação, e a elaborada trama de significações que, ao correr dos tempos, foi assumindo, liga a todo o momento o indivíduo a um objeto natural, tão perto dele, tão presente no seu quotidiano hoje como no primeiro dia da “criação”.
A imagem solar é então proa da panóplia de símbolos que todas as civilizações foram erguendo. O Sol foi, desde sempre, objeto de uma reverência sagrada que a todo o momento o liga a sucessivas referências de caráter simbólico. A luz e o calor que dele emanam constituem elementos óbvios que apelam a constantes associações: o calor é o emblema da fecundidade, do bem-estar e da prosperidade; a luz representa o incessante triunfo do dia sobre a noite, da claridade sobre as trevas.4 Perto de nós conhece-se o encontro da estrela com a simbologia iluminista e maçônica. E mesmo a civilização técnica contemporânea, que modulou as diferenças entre luz e escuridão, entre frio e calor, aceita as benesses e a magia solares, ciclicamente consumados nas peregrinações aos novos santuários que são as praias cobertas de adoradores do astro-rei.
Durand assinala o triunfo da heliolatria na época de Hallstatt (de 1000 a 500 anos a.C.), na mesma altura em que se desenvolve o culto do fogo e do céu. A devoção solar torna-se então universal. Adorado como Osíris no Egito, Baal na Caldéia, Mithra na Pérsia, Hélios em Rodes, tornou-se Apolo à sua chegada ao Ocidente, na Grécia, antes de ser adotado por Roma e continuado, sob formas várias e em sucessivas épocas, por todos os continentes. Em astrologia, o Sol é também símbolo da vida, do calor, do dia, da luz, da autoridade, do sexo masculino, e toda a influência dos signos do Zodíaco é considerada como de essência solar.5 Copérnico, recorde-se ainda, coloca-o no centro de todo o universo, enquanto Telésio o ergue como alma da matéria.6
A iconografia do rei-Sol francês fará, no histórico do absolutismo de origem divina, culminar essa tendência
Analogicamente, é o Sol um símbolo universal do rei. Adotada de longa data pelos potentados asiáticos como sinal de autoridade e poder, aparecendo nas moedas romanas desde César, a representação gráfica da coroa solar, da auréola de raios atribuída a Mithra-Hélios, vai ser, na tradição cristã medieval, usada na representação de Cristo e dos santos,7 assim como, ainda que menos claramente, na estilização figurativa das coroas régias.
Os qualificativos solares são, aliás, a todo o momento aproximados daqueles que habitualmente rodeiam os monarcas (ainda que o inverso seja também verdadeiro). Animais solares, também grandes e poderosos no seu meio, são o leão e a águia, tantas vezes relacionados com o rosto simbólico dos reis. É que o Sol, tal como o monarca, sendo ambos o centro de um sistema, brilhando igualmente na sua grandiosidade, dá vida, orienta e faz crescer a tudo quanto aos seus pés se estende.
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Conhecido também como Rei-Sol, pois havia adotado como símbolo um sol resplandecente, Luís XIV batalhou contra a Espanha, Holanda, Áustria e Luxemburgo a fim de criar uma supremacia comercial e econômica. À direita, o leão, conhecido como o rei das selvas, também é associado ao poder do Sol. Na astrologia, o signo de leão é regido pelo astro |
A iconografia do rei-Sol francês fará, no circunstancialismo histórico do absolutismo de origem divina, culminar essa tendência, prolongada muito ulteriormente nas mitografias napoleônica e nacional-socialista. É por demais conhecida a apresentação de Luís XIV como Rei-Sol. O vestuário usado pelo soberano no Ballet de la Nuit, em 1653, é a tal respeito profundamente emblemático: um número sem fim de raios dourados desprendese do centro que é o corpo do rei-astro, a cor e a maquiagem realçam a consistência dourada da estrela que é a fonte da vida e do homem que detém no seu cetro todo o poder político.
A heliotropia desenvolvida por todos os seres vivos em relação ao astro-rei é aqui assumida pelos cortesãos, em primeiro lugar, mas também por todos os franceses na sua relação imaginária com o rei-astro. A imagem solar de Luís será assim reproduzida, especialmente nas primeiras décadas de seu reinado,8 sob formas várias, simbolizando em pintura, na gravura, em escultura e na medalhística a centralidade do monarca; será, depois, fixada em Versalhes, criado como templo dourado destinado ao culto régio. Aqui o espaço do jardim e os diversos traços figurativos encontram-se ordenados segundo a legenda de Apolo-Luís.
1 DURAND, GILBERT, Les structures anthropologiques de l’imaginaire. PARIS: DUNOD, 1984. P. 62. 2 BRIL, JACQUES. SYMBOLISME & CIVILISATION. ESSAI SUR L’EFFICACITÉ ANTRHROPOLOGIQUE DE L’IMAGINAIRE. PARIS: HONORÉ CHAMPION, 1977. P. 71. 3 CF. FROMM, ERICH. LE LANGAGE OUBLIÉ. INTRODUCTION À LA COMPREHENSION DES RÊVES, DES CONTES ET DES MYTHES. PARIS: PAYOT, 1953. P. 104. 4 CF. GUSDORF, GEORGES. LES PRINCIPES DE LA PENSÉE AU SIÈCLE DES LUMIÈRES,. PARIS: PAYOT, 1971. P. 297.
5 CF. CHEVALIER, JEAN. E GHEERBRANT, ALAIN. DICTIONNAIRE DES SYMBOLES. PARIS: ROBERT LAFFON — JUPITER, 1982. PP. 891-896. 6 VER O CONJUNTO DE ARTIGOS INCLUÍDOS NA COLECTÂNEA LE SOLEIL À LA RENAISSANCE. SCIENCES ET MYTHES. BRUXELLES: PRESSES UNIVERSITAIRES DE BRUXELLES, 1965. 7 CF. BENOIST, LUC SIGNES, SYMBOLES ET MYTHES. PARIS: PUF, 1981. PP. 49-50. |
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