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Pioneirismo antes do Kasato-Maru
"O povo que demonstrou o seu vigor nos campos de batalha, também deve mostrar o vigor na abertura da mata virgem, com o machado e a enxada, nas mãos, saindo ao trabalho na madrugada estrelada, voltando com o luar da noite"

por Sucena Shkrada Resk.

Hoje de manhã, 5 horas, finalmente chegamos ao Rio de Janeiro. Imediatamente, alugamos um 'sampan' (tipo de barco rústico) e desembarcamos. Cobraram 9 shillings, o que é um tanto exorbitante. Esperamos por muito tempo na alfândega, mas não conseguimos a liberação, e, face à sua demora, resolvemos ir até a estação férrea para Petrópolis e embarcamos no trem das 4 horas da tarde.

INSTITUTO BRASILEIRO DE GEOGRAFIA E ESTATÍSTICA
Grupos de japoneses no Brasil preparam a vinda de 500 famílias japonesas, chegadas de navio em longa viagem

Foi necessário andarmos de barco durante 1 hora até embarcarmos no trem. Subindo a serra, chegamos a Petrópolis pelas 9 horas. Imediatamente visitamos a Legação (local que recebe estrangeiros) e ali encontramos 3 ou 4 funcionários, além do secretário e intérprete oficial.
No dia seguinte, levantamos às 6 horas, e tomei café com o sr. Akiba. Embarcamos no trem às 7 e chegamos ao Rio, às 9h, e imediatamente fomos à alfândega onde retiramos a bagagem. Às 4 horas da tarde fomos à estação central, onde fomos explorados no transporte da bagagem. Embarcamos no trem das 9 horas da noite. O sr. Kudama foi comprar pão para saciar a fome e perdeu o trem, razão pela qual fiquei sozinho no trem, sem dormir. Às 7 horas, chegamos ao nosso destino, que é São Paulo....
Em setembro... todos os dias, procurava emprego em vão, quando me achava desanimado, surgiu a possibilidade de me empregar em uma chapelaria, através da apresentação do Kameya. Consultei o sr. Ohira, que opinou não recomendá-lo, pois sem eu saber falar português, pouco adiantava. Porém, o sr. Akao mostrou- se interessado e decidimos trabalhar os dois, a partir da tarde desta data. Em 7 de setembro, começo a trabalhar das 7h da manhã até às 7h da noite. No dia seguinte, recebi o meu primeiro "ordenado", 2 mil e 500 réis....
PROCLAMAÇÃO... ....Mesmo depois de nossa chegada ao Brasil, as circunstâncias nos permitiram dar início ao nosso plano almejado e assim se passou um ano. ...A oportuna reportagem sobre a República dos Estados Unidos do Brasil, apresentada pelo Ministro Plenipotenciário do Japão no Brasil, Fukagi Sugimura, despertou sobremaneira a curiosidade de nosso povo, a nós radicados em Kagoshima, no extremo Sul do Japão, nos oferecemos para a incumbência de sermos seus pioneiros mais decididos.

LEMBRANÇAS DE UM AGRIMENSOR

Com a simplicidade de quem tenta se adaptar aos costumes e idioma de um país estranho,o agrimensor japonês da província de Kagoshima, Ryoichi Yassuda (1885-1961) - um dos primeiros imigrantes japoneses a se estabelecer no Brasil - descreve em seu diário, os primeiros tempos de sua vida no Brasil, que se tornaria sua "casa", até a morte. O jovem de família samurai desembarcou acompanhado por parte do grupo do advogado Saburo Kumabe, após uma longa viagem do Japão, que teve uma parada na Inglaterra.
Escrito em boa parte, em Romaji (japonês escrito em alfabeto romano), depois em japonês, a tradução do diário pessoal de Ryoichi foi um dos principais desafios do então intérprete Takeo Kawai, que com apoio de Tomoo Handa, realizaram o trabalho em 1976. A cópia do documento é uma das lembranças que o primogênito de Yassuda, o ex- diretor da Cooperativa Agrícola de Cotia (1948-1968) e ex-ministro da Indústria e do Comércio (1969-1970) - o empresário Fábio Riodi Yassuda - , aos 86 anos, ainda guarda com respeito.
AS PRIMEIRAS INICIATIVAS DE UMA COLONIZAÇÃO CONSENSUAL BRASIL-JAPÃO

Após uma longa viagem iniciada em 19 de maio de 1906, partindo do porto de Kobe, no Japão, com parada em Londres, na Inglaterra, e com destino final no Brasil, Ryoichi acompanhou um grupo de outros japoneses - "...todos com firme decisão de implantar um Japão Novo nos Campos das Selvas", conta em seu diário.
A iniciativa se devia a tratativas do governo japonês com o Brasil, representado à época pelo ministro plenipotenciário do Japão no país, Fukagi Sugimura. A idéia era abrir as portas para a colonização japonesa no Brasil. Nessa empreitada, em 1907, Ryoichi acompanhou os empreendedores Saburo Kumabe, Shinkiti Arikawa e Tamezo Nishizawa, entre outros. E a parceria foi estabelecida com o governo do Rio de Janeiro. A proposta era abrigar um grupo de 500 japoneses, na colônia agrícola pioneira, que se chamaria Fazenda Santo Antônio, no município de Macaé.
Em documento assinado pelos quatro em 18 de outubro de 1907, dizem "...Em nosso caso, no Brasil, não somos simples imigrantes, mas pretendemos representar o Novo Japão e nós que não somos como os ocidentais, que têm farta experiência na matéria, devemos procurar um meio de termos sucesso, para evitar os fracassos, conjugados à iniciativa do sr. Mizuno...". A menção refere-se a Ryu Mizuno, que era representante das companhias de imigração no convênio e fez parte do grupo dos pioneiros de 1906.
Foram dias consecutivos de narrativas sobre o trabalho no campo e seus percalços descritos em parte de seu diário, totalizando 171 páginas. "Apesar de o projeto em Macaé não ter êxito, papai e mais um alemão foram nomeados para trabalhar no Ministério da Cultura, em Alagoas, no serviço de combate à seca", conta o ex-ministro.
"Mas chegando lá, viu que havia a "indústria da seca" em 1908. Não queria ficar sem fazer nada. Foi, então, para a Escola Agrícola de Maceió, onde involuntariamente criou o primeiro horto florestal de lá.", diz Yashida. Sua rotina era catalogar todas as espécies que ia conhecendo, com seus respectivos nomes científicos. "Queria conhecer a botânica local", diz.
Depois de outras passagens e aventuras pelo Brasil, anos mais tarde, em Pindamonhangaba, Ryoichi foi um dos primeiros a implementar a técnica de cultivo do arroz à região, enquanto o Brasil vivia a transição das lavouras cafeeiras, para onde foi destinada a maioria dos imigrantes, que chegaram no Kasato-Maru, em 1908.
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