INDEPENDÊNCIA ESPANHOLA DOS DE MAYO DE 1808 Guerra da Independência da Espanha Há 200 anos, a Espanha se rebelou contra a ocupação do país pelas tropas de Napoleão Bonaparte. Em 1808, o levante do Dos de Mayo marcou o dia em que a população civil de Madri, munida de paus, pedras e foices, atacou os soldados franceses e viu nascer o mito do "espanhol indômito"
POR ALDO DÓREA MATTOS
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A batalha de Somosierra, retratada na obra de Louis- François Lejeune, é considerada o maior êxito das forças polacas de Napoleão sobre as tropas espanholas |
Tal como o Brasil, que comemora 200 anos da chegada da Família Real, a Espanha também celebra um importante bicentenário em 2008 - a independência do jugo francês da época napoleônica. A data emblemática é 2 de maio de 1808, dia em que a população espanhola se insurgiu contra a ocupação do país por tropas francesas, fato que desencadearia um período de quatro anos de levantes populares, confl itos armados e uma convulsão em toda a Península Ibérica, com a participação também de efetivos bélicos ingleses.
Esse termo não é novidade para as pessoas ma A Guerra de Independência (este nome só viria a ser cunhado décadas depois) atrapalhou os planos expansionistas de Napoleão Bonaparte e criou terreno para seu enfraquecimento e posterior abdicação. Como resultado do confl ito, a Espanha viu nascer um inédito espírito de unidade nacional e o mito do "espanhol indômito", que viria a ser uma marca desse bravo povo.
OCUPAÇÃO CONSENTIDA
Após a Revolução Francesa e a meteórica ascensão de Napoleão na França - foi general, cônsul, cônsul vitalício e fi nalmente imperador -, as monarquias européias se sentiram ameaçadas. E não era para menos, pois a incontrolável ascensão da burguesia tinha posto em polvorosa a aristocracia francesa, e as cabeças de Luís XVI e Maria Antonieta já tinham rolado. Fruto da acirrada rivalidade entre franceses e ingleses, Napoleão insistia com portugueses e espanhóis para que fechassem os portos aos ingleses. Portugal até chegou a expulsar navios britânicos, mas não foi muito além disso. Napoleão tomou a inépcia portuguesa como pretexto para invadir Portugal, episódio que viria a causar a conhecida fuga da Família Real para o Brasil meses depois. Ainda em 1807, França e Espanha assinaram o Tratado de Fontainebleau, pelo qual a Espanha consentia na passagem de tropas francesas rumo a Portugal, admitia planos para uma invasão militar conjunta e estabelecia regras para a anexação de territórios lusos e até uma redistribuição das colônias. O monarca espanhol da época era Carlos IV, da dinastia Bourbon, mas o nome forte do governo era Manuel Godoy, um jovem primeiro-ministro que administrava as fi nanças, a diplomacia e, dizem, os suspiros de alcova da rainha Maria Luísa, por sinal mãe de Carlota Joaquina, a esposa do "nosso" D. João VI.
Em fevereiro de 1808, 65 mil soldados franceses já estavam em solo espanhol, sob o comando do general Murat, cunhado de Napoleão. Eles entraram por Gerona, indo até Barcelona e ocuparam o castelo de Monjuïc. Por outra frente, entraram por San Sebastián e avançaram até Burgos e Valladolid. A ocupação consentida começou a se mostrar um erro de Godoy. Embora espanhóis e franceses até compartilhassem as dependências nos mesmos quartéis, o que era para ser provisório passou a dar sinais de permanente. Murat começou a ditar ordens para a população civil e Napoleão já considerava inútil a vacilante monarquia de Carlos IV, preferindo ter a Espanha como um Estado satélite.
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Napoleão revidou aos ataques de forma cruel. No fi m da guerra, cerca de meio milhão de espanhóis foram mortos |
MOTIM, ABDICAÇÕES E LEVANTE
Consciente do imbróglio em que tinha se metido, Godoy trama a fuga da família real espanhola para Aranjuez, não muito distante de Madri. Surge em cena então a fi gura de Fernando, fi lho de Carlos IV e herdeiro do espírito conspiratório de sua mãe. Infl uenciando um núcleo importante da nobreza espanhola e com o apoio da Igreja, o carismático príncipe Fernando consegue apoio para barrar o enorme poder de Godoy e implantar reformas no governo, assim como para se coroar como Fernando VII. À frente do palácio real, eclode então a rebelião popular que receberia o nome de Motim de Aranjuez.
Napoleão não via com bons olhos as tantas intrigas da corte espanhola e, a título de mediação da crise monárquica, convocou Carlos IV e Fernando para uma reunião de cúpula em Bayonne, na região basca da França, perto da fronteira entre os dois países. O que era para ser mediação virou uma intimação - Napoleão forçou ambos a abdicar em favor de seu irmão José Bonaparte, que se convertia em José I. Esse episódio, que entrou para a história como as Abdicações de Bayonne, marcava o fi m dos Bourbon, dinastia tão odiada pelo pequenino imperador, e abria uma lacuna no direito de autodeterminação do povo espanhol. Em pouco tempo, José I publica o Estatuto de Bayonne, uma constituição outorgada. Embora os espanhóis relutem em aceitar o documento como uma manifestação legítima de seu povo, o Estatuto traz grandes avanços na questão dos direitos civis e liberdade religiosa, uma clara alusão às conquistas da Revolução Francesa e do Iluminismo.
Na Espanha, são criadas Juntas Provinciais de Governo e depois uma Junta Central que procura reger os territórios não ocupados. Em Madri, a mão de ferro do general Murat é sentida com mais força. Os franceses detêm e fuzilam qualquer cidadão espanhol que porte arma. É nesse cenário que recrudesce o sentimento antifrancês e se insufl a a indignação popular. Na madrugada de 2 de maio de 1808 o povo de Madri se lança contra o invasor. O levante popular do Dos de Mayo deixa patente a dissociação entre a vontade popular e o governo fantoche instituído pelos franceses. Munidos de paus, pedras, foices, utensílios domésticos e o que aparecer ao alcance das mãos, explode a violência do homem comum contra o elemento intruso. O combate nas ruas contrapõe o cidadão comum ao soldado treinado. O que se vinha tramando nas conversas de botequim, nos murmúrios durante a missa, à boca pequena no comércio, agora vinha à tona e se materializava em renhidas lutas no Paseo del Prado, na Puerta del Sol, nas Calles Mayor e Alcalá, algumas das principais artérias de Madri. Sem um exército regular e organizado, a guerra assimétrica e informal foi o método a que recorreram os revoltosos. Pequenos grupos de homens e mulheres, com grande conhecimento do terreno e intensa mobilidade, atacavam o inimigo com golpes localizados e súbitos, inclusive com luta corpo a corpo. Eis que surgia pela primeira vez o termo guerrilla. No dia seguinte, 3 de maio, a repressão francesa foi exemplarmente cruel: todos os detidos foram sumariamente fuzilados na montanha de Príncipe Pio, nos arredores de Madri.
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