TECNOLOGIA O minúsculo universo das nanotecnologia Sinônimo de técnica futurista, as nanociências começaram a ser pensadas há mais de 2.000 anos pelos filósofos atomistas gregos
POR MARCOS NALLI
Imagine-se por um instante na pele de Gulliver, personagem célebre de Jonathan Swift. O protagonista do romance As viagens de Gulliver, de 1726, acorda atônito em uma praia, completamente amarrado e atado ao chão, ameaçado por homenzinhos muito pequenos, os liliputianos. Tão atônitos quanto Gulliver, os minúsculos seres questionam quem poderia ser aquela imensa criatura, que não convém alimentar e muito menos matar, pois os danos seriam imensos para todos os habitantes de Liliput. Ao mesmo tempo, Gulliver tenta superar o susto e adivinhar quem seriam aqueles seres tão minúsculos, mas que tinham força suficiente para atar alguém muito maior e mais forte ao chão.
Deixe agora o universo literário um pouco de lado e imagine-se vivendo no início do século XX. De repente, alguém diz que em pouco tempo você não apenas conhecerá a natureza mais elementar das coisas, mas também se tornará íntimo dos átomos e será capaz de controlá-los e manipulá-los a seu bel-prazer. Bem, qualquer leitor mais atento e afeito aos avanços científicos e tecnológicos entre a segunda metade do século XIX e as primeiras décadas do século passado colocará, provavelmente, algumas objeções neste exercício de imaginação. Claro, houve muitos avanços significativos: o alvorecer da genética após a redescoberta dos artigos de Gregor Mendel; o progresso na organização e na visão química da natureza, a partir dos trabalhos de Dmitri Mendeleiev e a sistematização da tabela periódica. Impossível também esquecer a teoria da relatividade de Albert Einstein e sua importância para o desenvolvimento da física para além de Isaac Newton, bem como os avanços na mecânica quântica a partir dos trabalhos de Max Planck, Niels Bohr, Paul Dirac e Werner Heisenberg. Mesmo assim, se no início do século XX alguém falasse em controle e manipulação dos átomos, cheiraria a ficção científica.
| Não podemos esquecer que também há história no mundo microscópico das nanociências |
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| O universo minúsculo, no qual estão inseridas as nanotecnologias, pode nos deixar tão espantados quanto Gulliver, personagem de Jonathan Swift, ao dar de cara com os pequeninos liliputianos |
Provavelmente, você, leitor desta revista de história, deve estar se perguntando qual é o intuito dos dois exercícios de imaginação acima. Ambos são relacionados com várias subdisciplinas da história: história das idéias, história da literatura, História dos textos, história das ciências. Mas é no campo da história das ciências e das tecnologias que este artigo se enquadra. Embora se trate de um campo extremamente específico, geralmente dominado por autores cuja formação original tenha sido em Ciências ou então Filosofia (como é o caso deste autor que lhes escreve), também é uma área que merece toda a atenção do historiador, seja do ponto de vista mais “internalista”, isto é, do estudo das teorias propriamente ditas, seja do ponto de vista mais “externalista”, ou seja, da relação entre ciência, tecnologia e sociedade.
Com esse comentário, é provável que se justifique, ao menos em parte, o segundo exercício de imaginação. Mas não o primeiro. O que a história de Gulliver tem a ver com a história tecnológica e científica do começo do século XX? Uma única idéia básica: a de como o mundo das coisas infinitamente pequenas pode nos deixar atônitos, sem entendermos muito bem o que se passa com esse universo minúsculo. Para nós, leitores mais acostumados aos livros e textos produzidos pelas Ciências Humanas, pelas Filosofias e pelas Literaturas, a simples idéia de se defrontar com as produções de conhecimento oriundas das Ciências Exatas, das Ciências Biológicas e Naturais, e das Engenharias já é motivo de um frio na espinha. Mas, como historiadores, ou interessados pela historicidade em si, não podemos esquecer de que aí também se tem história. E é nesse espírito que teceremos algumas notas sobre a história ainda bastante recente das nanotecnologias.
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| BLAISE PASCAL foi um matemático brilhante e, em 1642, inventou a “La pascaline”, a primeira calculadora mecânica de que se tem notícia. Mas, apesar disso, o francês não tinha acesso à tecnologia necessária para distinguir o mundo do “infinitamente grande” do mundo do “infinitamente pequeno” |
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