América Latina em Guerra O conflito da Colômbia já mostrou que pode atingir todo o continente latino-americano. Mas a luta entre as Farc e o governo do país costuma ser tratada de forma superficial pela mídia, que insiste em deturpar os personagens dessa história
POR PEDRO JORGE DE FREITAS

A guerra civil na Colômbia permanece uma ilustre desconhecida do povo brasileiro, apesar das trágicas conseqüências para a população colombiana nos últimos 50 anos. Tratada pela imprensa nacional e internacional como uma questão de ordem policial, a luta é descrita como um duelo entre o Estado colombiano e um grupo de guerrilheiros envolvidos com o narcotráfico. Essa versão simplista do conflito deixa de lado uma série de elementos históricos, que são indispensáveis para entender o problema.
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| O assassinato de Gaitán (imagem), candidato à presidência da Colômbia, foi o estopim para a luta conhecida como "La Violencia" |
Em primeiro lugar, fica no esquecimento o fato de que a oligarquia colombiana, dividida entre os partidos Liberal e Conservador, disputou o poder por mais de um século, de 1830 a 1954. O episódio mais marcante dessa rixa foi o assassinato do líder liberal Jorge Eliécer Gaitán, em 1948. A partir do assassinato de Gaitán, iniciou-se a fase mais recente dessa disputa: liberais e conservadores se enfrentaram por mais de cinco anos, em uma luta fratricida conhecida como La Violencia, que vitimou mais de 700 mil colombianos.
Dividida e temendo a crescente organização popular sob comando dos comunistas, a oligarquia chegou a um acordo, em 1954. O objetivo da trégua era combater a livre organização dos camponeses pobres e operários. Para isso, a partir de 1960, a oligarquia colombiana passou a contar com o apoio do Plano Laso (Latin America Security Operation), projeto norte-americano que visava conter o crescimento de movimentos esquerdistas na América Latina.
Uma das primeiras iniciativas, depois de implantado o Plano Laso, foi a convocação dos mariners norte-americanos, a Força de Fuzileiros Navais dos Estados Unidos da América, para intervir na Colômbia. A intenção dos líderes oligárquicos, ao lado dos norte-americanos, era combater o pequeno grupo de camponeses armados que atuava na região de Marquetalia, sob o comando do líder camponês Manuel Marulanda, que havia se destacado na guerra entre liberais e conservadores. Na década de 1960, dois grupos guerrilheiros surgiram como uma forma de os camponese prisioneise defenderem contra a agressão da oligarquia: as Farc-EP (Fuerzas Armadas Revolucionarias de Colombia - Ejército del Pueblo) e o ELN (Ejército de Liberación Nacional).
Historicamente, o nascimento da guerrilha aconteceu muito antes de a Colômbia surgir como grande produtora de pasta de coca e formar poderosos grupos de narcotraficantes. Esses criminosos apareceram mais tarde, quando a oligarquia colombiana não tinha mais forças para derrotar a guerrilha pelos meios convencionais: forças policiais e militares regulares, ligadas ao Estado colombiano. A elite viu na atividade ilegal do narcotráfico o meio de financiar a organização de tropas irregulares (verdadeiros exércitos privados), mais conhecidos como grupos paramilitares, famosos pela forma extremamente violenta que agem contra a população.
| A guerrilha surgiu muito antes de a Colômbia virar grande produtora de coca e berço de narcotraficantes |
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| Suspeita-se que Álvaro Uribe tenha envolvimento com o narcotráfico colombiano, especialmente com o chefe do cartel de Medellín, Pablo Escobar, que morreu em 1993 |
No cenário da guerra civil colombiana, estão unidos em uma grande aliança o grosso das classes dominantes locais (latifundiários, empresários dos mais diversos setores, representantes do capital internacional), segmentos das camadas médias urbanas, militares, políticos, paramilitares e narcotraficantes. Sobre o atual presidente Álvaro Uribe, pesam fortes suspeitas de envolvimento com o narcotráfico, em especial com o grande chefe do cartel de Medellín, Pablo Escobar, morto em 1993, e com os grupos paramilitares de extrema direita. Além disso, quase 70 deputados colombianos estão sendo processados por atividades ilegais, dos quais 33 já foram condenados e presos.
Os grupos guerrilheiros, atuantes em quase todo o território colombiano, também fazem parte desse cenário. Eles recebem forte apoio dos trabalhadores do campo e dos diversos grupos urbanos de oposição. A ajuda que parte da cidade é proveniente de um sindicalismo muito atuante, que paga um alto preço com a vida de seus dirigentes (em 2007, de cada dez sindicalistas assassinados no mundo, nove eram colombianos). Também são colaboradores das Farc os partidos políticos de oposição e até os grupos de defesa dos direitos humanos, que pugnam por uma saída pacífica para a crise colombiana.
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