DIMENSÕES SOCIAIS DE QUIXOTE As armas e letras de Miguel de Cervantes Dom Quixote de La Mancha, a obra-prima de Miguel de Cervantes, foi o instrumento do escritor espanhol para combater o obscurantismo cultural de seu tempo
POR MARCOS ANTÔNIO LOPES
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| Na pintura do alemão Andreas Achenbach, Dom Quixote e seu fiel escudeiro Sancho Pança se preparam para sair pela Espanha em defesa dos ideais cavalheirescos de amor e justiça |
A Espanha, na época dos últimos anos da vida de Miguel de Cervantes (1547-1616), estava em decadência. Era o fim do Século de Ouro, tempos de Carlos V (1550-1558) e Filipe II (1527-1598), os 80 anos gloriosos que marcaram o império no qual o sol nunca se punha, em alusão às possessões de um extremo ao outro do mundo. A União Ibérica (1580-1640) legou aos espanhóis importantes possessões portuguesas, como o Brasil e vastas regiões da Índia e da África. O gigantismo espanhol completou-se com a conquista das Filipinas, nome dado em homenagem ao rei Filipe II.
Dom Quixote de La Mancha, o famoso livro de Cervantes, foi concebido em um período particularmente difícil para o autor, contexto que coincidiu com os anos de transição entre os reinados de Filipe II e Filipe III. Dom Quixote é a obra de maturidade intelectual de Cervantes. O momento de elaboração da obra é o da acentuação aguda da crise econômica do império Habsburgo, em seu ramo ramo espanhol. O fim do século XVI e o início do século XVII foram marcados por duas bancarrotas da monarquia (1596 e 1607), sem falar na peste que dizimou um terço da população espanhola no mesmo período. Entre os anos de 1606 e 1610, a competição entre ingleses e holandeses fez com que as transações comerciais da Espanha, com suas possessões na América, declinassem aproximadamente 60%.1 Aliás, a crise econômica espanhola refletiu duramente sobre Cervantes, que viveu na penúria os seus últimos anos.
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| Na batalha naval de Lepanto contra os turcos otomanos (1571), Cervantes teve a mão esquerda atingida por um tiro de arcabuz e ficou conhecido como “El Manco de Lepanto” |
A ESPANHA COMO UMA COLCHA DE RETALHOS
Com efeito, a monarquia absolutista espanhola, sob a qual viveu o autor, nem sequer poderia ser concebida como um Estado régio unitário nos séculos XVI e XVII. Uma unidade política, jurídica e administrativa coesa seria construída apenas no século XVIII, pelos esforços da política centralizadora da dinastia francesa Bourbon: “A monarquia Bourbon levou a cabo o que os Habsburgo não tinham conseguido fazer”.
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