FOLCLORE Assombrações de Diamantina Relatos sobre fantasmas e aparições eram tão comuns na cidade mineira, na virada do século XIX para o século XX, que chegaram a virar notícia em vários jornais locais. Embora sejam fantásticas, as lendas revelam a cultura e a história da região
POR MARCOS LOBATO MARTINS
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| Os garimpeiros de Diamantina acreditavam que espíritos iriam aparecer e dizer onde estavam exatamente as pepitas de ouro e os diamantes. Mas para que isso acontecesse, era preciso que o minerador tivesse o coração puro |
Muitos diamantinenses acreditam que o atraso da região do Alto Jequitinhonha, no nordeste de Minas Gerais, deve-se aos fantasmas de escravos que vagam por ali. De tanto sofrerem violências nas lavras de ouro e diamantes, as almas desses homens exerceriam uma espécie de maldição que impede o desenvolvimento econômico regional. As brutalidades do passado, sobretudo porque ainda não foram devidamente expiadas, teriam lançado Diamantina e as cidades vizinhas em uma condenação inelutável. A pobreza que assola aquelas terras seria a conseqüência da lenta reparação moral e religiosa necessária para pacificar uma multidão de espíritos que perambulam por aqueles confins.
Casos de aparições, eventos sobrenaturais e lugares mal-assombrados são comuns em qualquer ponto da Serra de Santo Antônio. Pertencem à tradição oral das comunidades, tanto rurais quanto dos núcleos urbanos regionais, chegando a entreter a imaginação dos turistas mais curiosos que visitam Diamantina.
| Os contos fantásticos são meios para entender como os homens viam e pensavam o mundo |
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| É comum na religiosidade popular os devotos fazerem “negócios” com os santos, exigindo bens e vantagens concretas em troca de orações e outras promessas |
Em Diamantina, memorialistas escreveram sobre almas penadas que percorriam ruas, becos e caminhos situados nas alturas do Espinhaço Central. Narrativas fantásticas estão presentes nas obras de Helena Morley, Cyro Arno e Aires da Mata Machado Filho, escritas entre os anos de 1893 e 1945. A imprensa local também registrou números significativos de histórias de fantasmas e de eventos sobrenaturais ocorridos na região. Essas lendas apareceram em diversos jornais, ligados ou não à Igreja Católica, no final do século 19 e início do século 20. Um exame nas coleções de periódicos antigos, guardados na Biblioteca Antônio Torres, em Diamantina, revela um dado interessante: registros desse de assombrações concentraram-se nas primeiras décadas do século 20 e, em seguida, cessam-se rapidamente. Tal fato deixa algumas perguntas no ar: teriam sido os homens e mulheres diamantinenses do fim do século 19 e do início do 20 mais supersticiosos que os das décadas posteriores ou anteriores? Por que a elite letrada, que produzia os jornais, deu tamanha visibilidade para as histórias de fantasmas naquela época? Seria uma simples questão de simpatia pelos relatos populares?
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Os historiadores da cultura local desconfiam que existe algo mais por trás dessa súbita e intensa atenção dos jornais e dos memorialistas pelas aparições de fantasmas em Diamantina. Além de tratar essas narrativas como documentos, os historiadores entendem que o insólito lança luz sobre os desejos, os temores, as angústias, os valores morais e as esperanças que movem os grupos sociais e as comunidades. Ao contrário de Afonso d’Escragnolle-Taunay, autor da conhecida obra Monstros e monstrengos do Brasil, o historiador de hoje não pretende distinguir o verdadeiro do falso. Atualmente, a preocupação é outra, e os contos fantásticos são vistos como meios para entender como os homens viam e pensavam o mundo. Lugares mal-assombrados, fantasmas, monstros, deformações, magia e malefícios integravam o mundo dos homens do passado, como ainda hoje têm presença no mundo atual, e representam estruturas mentais que moldam a cultura da região.
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