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Memórias da luta armada
"Desafiamos o Exército a nos destruir, como se isso fosse impossível. Fuzilaram o Fabiano em plena rua, na noite de um dia sombrio que caiu sobre nossa cabeça como um manto fétido e frio (...)"

POR CARLOS EUGÊNIO PAZ

DIVULGAÇÃO
A história de Carlos Eugênio inspirou o diretor Toni Venturi a fazer o filme Cabra-Cega

“No começo tudo ia bem, as conversas ao pé do ouvido eram alvissareiras, a cada dia recrutávamos mais gente, as ações davam certo, companheiros partiam para treinamento em Cuba, o clima era de confiança na vitória.

Fabiano (entende-se Carlos Marighella) não se cansava de nos dizer que a luta seria longa, que não devíamos nos empolgar com os sucessos. Sua cautela, nós, os mais jovens, creditávamos a seus quase 60 anos; afinal, o peso da idade deveria se manifestar de alguma forma, mesmo nele, que esbanjava jovialidade física e mental.

Subíamos alegremente as favelas do Rio de Janeiro para alfabetizar adultos e fazer contatos, treinávamos artes marciais e tiro ao alvo nas praias desertas. Pichávamos palavras de ordem nos muros da cidade, recolhíamos medicamentos para a infra-estrutura da coluna guerrilheira, possuíamos slogans maravilhosos, ideais nobres, energia de sobra e a certeza da necessidade e possibilidade de mudar profundamente o País, acabando com a miséria e exploração.

Entrando na vida no momento em que os militares dirigiam o País como uma grande caserna, nos dizendo o que fazer, com quem e como andar, a que filme assistir, como pensar e agir, nossa revolta foi profunda. E que capacidade de revolta tem a juventude, idade dos extremos (...).

DOS CADERNOS ÀS ARMAS

Foi aos 17 anos que o estudante secundarista alagoano Carlos Eugênio Paz, hoje com 59 anos, ingressou na guerrilha estudantil contra o regime militar. Ele adotou o nome de guerra “Clemente” e passou a intregar a Ação Libertadora Nacional (ALN), na qual permaneceu como um dos militantes mais ativos e procurados do Brasil, entre 1966 e 1973. Ele foi o único dirigente da ANL que participou da luta sem nunca ter sido preso ou torturado pelos militares. Porém, com o enfraquecimento do movimento, Carlos Eugênio exilou-se na Europa e viveu como músico de jazz até o término da ditadura militar, na década de 1980, quando voltou ao Brasil. A história de Carlos Eugênio serviu como inspiração para o filme Cabra- Cega, do diretor Toni Venturi.

Nos tempos de luta armada, o ex-guerrilheiro pôde conhecer bem alguns dos líderes mais importantes do movimento, como Carlos Marighella (1911-1969) e Joaquim Câmara Ferreira (1913-1970), dirigentes da ALN foram mortos em emboscadas. “Foram homens que jogaram para o alto carreira, família e felicidade pessoal para abraçar a causa de todo um País: a liberdade e a igualdade de oportunidades. Temos de saber reconhecê-los e dar a eles a importância que merecem”, diz. Em Viagem à Luta Armada, Marighella é identificado como Fabiano; e Ferreira, como Diogo.

IMAGENS: WIKIPEDIA
Hoje Carlos Eugênio reconhece que o seqüestro do embaixador Charles Burke Elbrick foi um erro. Para ele, o ato de raptar o norte-americano foi como “cutucar onça com vara curta”. Na época o Brasil estava sob o comando da Junta Governativa Provisória de 1969 (Aurélio Lira, Augusto Rademaker e Márcio Melo)

Os que eram contra a luta armada não conseguiam nos dizer claramente suas dúvidas em relação aos nossos métodos, até mesmo porque não escutávamos suas palavras mais que cinco minutos, não tínhamos tempo a perder, havia uma revolução a ser feita, um País a mudar (...).

Alguém se empolgou com os sucessos e resolveu declarar que não éramos bandidos, e, sim, revolucionários expropriados. Descobrimos os seqüestros de embaixadores para trocar por militantes presos, que voltariam do exterior para reforçar nossas fileiras (...).

Desafiamos o Exército a nos destruir, como se isso fosse impossível. Fuzilaram o Fabiano em plena rua, na noite de um dia sombrio, que caiu sobre nossa cabeça como um manto fétido e frio, tecido em flores que não havíamos cantado e que nem poderiam cobrir seu corpo, enterrado em vala comum de um cemitério da periferia da capital mais rica da América do Sul. Conhecemos as quedas em série, produto da tortura científica (...).

Restava-nos Diogo, velho companheiro de Fabiano nas lutas contra Vargas. Diogo pedia dinheiro, corríamos atrás. Pedia propaganda, montávamos gráficas clandestinas ou até legais, procurem nos arquivos da polícia política, está tudo lá, até como caíram nas mãos da repressão em conseqüência do recurso ignóbil da tortura dos prisioneiros.

(...) O seqüestro [do embaixador norte-americano Charles Burke Elbrick] foi um grande erro, chamou atenção demais. Que me desculpem Diogo e os combatentes que participaram dele com toda a dedicação revolucionária, mas não era hora de cutucar onça, nossa vara era curta.

(...) Fabiano cometeu erros, mas não devemos nos esquecer de que a pista essencial, não digo que não houvesse outras, mas a que provocou o momento concreto de sua morte, só podemos raciocinar assim, afinal se trata de História, foi decorrente das prisões efetuadas em conseqüência direta e indireta da reação ao seqüestro do embaixador e, ação que desaconselhava, e que teve a grandeza política de apoiar.”

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