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A tradição da viola brasileira
Acima, o quadro 'O violeiro' de Almeida Júnior, uma das clássicas representações do solitário músico do campo

" A viola chegou ao Brasil há 500 anos. Ela surgiu na época dos mouros, no século XIII, e foi trazida ao País pelos portugueses e espanhóis. Apesar da origem européia, esse instrumento musical já é, há muito tempo, considerado tipicamente brasileiro. A viola ingressou com força no interior, pois acompanhou a religiosidade nas igrejas. Pela sua sonoridade, evoca a saudade dos negros, dos portugueses, dos europeus e a miscigenação com os índios brasileiros.

O instrumento tem uma relação muito forte com o violeiro, que representa um homem solitário. O músico expressa, com sua viola, tristeza, mas também alegria, como na folia de reis e congados; e tem um contato profundo com a natureza. Os violeiros difi cilmente conseguem viver em ambientes urbanos, e todos eles têm um pé na tradição.

Em 1995, comprei uma pequena fazenda em Minas Gerais. Foi a partir dessa imersão rural que realmente senti o alcance cultural da viola brasileira, apesar de já naquela época ter mais de 20 anos como produtora cultural

Mas o início da minha aproximação com a viola é mais antigo. Em 1987, conheci o músico Almir Sater durante o trabalho que eu desenvolvia no projeto ambiental Pantanal Alerta Brasil. Convidei-o para participar da campanha, que resultou em uma série de espetáculos no Museu da Imagem e do Som (MIS) e no Anhembi, em São Paulo. Os shows foram dirigidos pelo meu irmão Daniel e a mulher dele, a pantaneira Rita Figueiredo. Nessa ocasião, Sater sugeriu que deveríamos conhecer os violeiros do Pantanal.

Somente oito anos depois, tive a oportunidade de fazer um contato permanente com a musicalidade da viola, participando de festas tradicionais e folias de reis. Com isso, decidi ir fundo em um processo de pesquisa, e cheguei a 14 violeiros brasileiros: Almir Sater, da região pantaneira (MS); Roberto Corrêa e a dupla Zé Mulato & Cassiano, de Brasília; Tavinho Moura, da Barra do Guaicuí (MG); Zé Coco do Riachão (já falecido), de Montes Claros (MG); Pereira da Viola, do Vale do Mucuri (MG); Renato Andrade (já falecido), de Abaeté (MG); Adelmo Arcoverde, de Pernambuco; Braz da Viola, de São Francisco Xavier (SP); Ivan Vilela, de Ribeirão Preto (SP); Paulo Freire, de Campinas (SP); Passoca, de Ribeirão Pires (SP); e Pena Branca, de São Paulo.

Em 1997 surgiu o projeto Violeiros do Brasil, coordenado por mim. Nesse ano, os músicos se reuniram pela primeira vez em quatro shows que aconteceram no Sesc Pompéia, em São Paulo. O trabalho rendeu um CD ao vivo e quatro programas de televisão que foram exibidos pela TV Cultura.

AS PROSAS DOS VIOLEIROS
Em 2007, para comemorar os 10 anos do projeto Violeiros do Brasil, achei importante fazer um trabalho documental. Percorri o País com uma pequena equipe atrás desses artistas, que há muito tempo não via. Resolvi investir nos relatos, nas imagens e no áudio. Percebi que cada um deles estava se aprimorando cada vez mais, com a personalidade mais exposta.

Recordei histórias fascinantes, como a de Paulo Freire. Em 1997, fui atrás de Paulo até Urucuia, um pequeno braço do Rio São Francisco, no norte em MG, que foi um lugar muito importante no Grande Sertão Veredas, de Guimarães Rosa. Paulo contou que foi para lá no início da década de 1990, porque fi cou interessado em tocar viola como os mestres, entre eles, Manoel de Oliveira, conhecido como "Seu Manelin". Paulo fi cou tocando lá por dois anos em troca de serviços na roça.

Nunca me esqueço quando conheci Zé Coco do Riachão, já octogenário. Foi um encontro lindo, em um ambiente muito simples da periferia de Montes Claros, em Minas Gerais. Uma das últimas aparições públicas dele foi no lançamento do CD Violeiros do Brasil, em 1997. No ano seguinte, ele faleceu.

Já com Renato Andrade, descobri sua faceta de contador de "causos". Uma vez, ele estava em uma apresentação quando quebrou a corda de seu violão. Mas ninguém percebeu que a trocou, porque ele prendeu a atenção do público com suas histórias.

Muitos desses violeiros traçaram caminhos contemporâneos. Zé Mulato (poético e irônico) e Pena Branca mantiveram as tradições do homem caipira, do contraponto do homem engravatado com o homem do campo, tratando das difi culdades que regem o universo social e político brasileiro.

Paulo Pereira carrega a tradição do Vale do Mucuri, da origem africana dos avós, e misturou essa infl uência com a música mineira. Não há nada parecido com o que ele faz. Adelmo, Braz, Ivan, Passoca, Paulo Freire, Roberto, Sater e Tavinho Moura se apaixonaram pela viola nas tradições e deram uma linguagem completamente contemporânea, colocando o instrumento em um patamar moderno, de solista e de improviso.

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