Resistência Política no escurinho do cinema Durante a Guerra Fria, os EUA usaram a indústria cinematográfica para difamar o comunismo. Mas os militantes de esquerda brasileiros contra-atacaram, invadindo as salas de cinema e interrompendo a exibição dos filmes
POR ALEXANDRE BUSKO VALIM
Os filmes de propaganda anticomunistas alertavam o público para a ameaça de uma guerra nuclear
No final da década de 1940, vários jornais estamparam manchetes que diziam: “O vandalismo dos comunistas nos cinemas do Rio”; “prática revoltante e perverso ato de um agente vermelho” e “Histórias da vida real: assim agem os comunistas”. As manifestações, vistas como sabotagens, foram geralmente interpretadas como conseqüências dos conteúdos de tais filmes, que exibidos no circuito da Associação Brasileira Cinematográfica – ABC, alcançaram certo impacto social.
Nas manifestações contra o filme A Cortina de Ferro (Th e Iron Curtain, 1948), ocorridas em vários cinemas da cidade de São Paulo, no ano de 1949, os comunistas soltaram “bombas” de ácido sulfídrico entre as poltronas e jogaram “laranjas” de tinta preta contra a tela de exibição. Eles gritavam em coro “quebra-quebra”, “abaixo o imperialismo ianque” e “viva a União Soviética”. Além disso, cortaram a navalhadas algumas poltronas e, finalmente, destruíram as vitrines dos cinemas. Comparado a outros filmes do mesmo gênero, A Cortina de Ferro gerou poucos protestos no Rio de Janeiro, talvez por ter sido o primeiro filme de propaganda anticomunista produzido após a Segunda Guerra Mundial.
A Cortina de Ferro não obteve tanta atenção quanto os filmes que foram exibidos anos mais tarde, apesar das chamadas provocativas em seus cartazes: “o filme mais sensacional do nosso tempo”, “revelações que têm causado estupor”, “um vasto plano de espionagem”, “a história de Igor Gouzenko, ex-empregado de decodificação da Embaixada da URSS em Ottawa, Canadá”, “a mais incrível conspiração em 3.300 anos de espionagem!”.
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| Com perfil anticomunista o filme A ameaça vermelha (acima, o cartaz original) foi recebido com críticas e muita manifestação nos cinemas cariocas |
Os protestos ocorreram em várias salas de exibição, no entanto, os agentes do DOPS conseguiram frustrar algumas dessas tentativas por intermédio de policiais à paisana nos cinemas. Todavia, a reação de militantes contra os “filmes guerreiros” não se limitava aos protestos nas salas de exibição. Outra estratégia utilizada eram os telefonemas freqüentes para os escritórios das companhias de cinema, ameaçando retaliar a exibição de filmes anticomunistas. Tais ameaças levaram alguns escritórios a pedir garantias ao DOPS, não apenas para que os filmes fossem exibidos, mas até mesmo para que os rolos dos filmes pudessem ser desembarcados em segurança dos aviões.
CADA JORNAL, UMA VERSÃO
Os jornais de esquerda viam tais protestos como “vigorosas manifestações populares contra os filmes guerreiros”. Em abril de 1950, o jornal carioca Imprensa Popular descreveu como uma grande manifestação o ato contra o “filme de propaganda” Ameaça Vermelha (Th e Red Menace, 1949). Segundo o jornal, a exibição do filme não mais na Cinelândia, mas em um cinema de categoria superior, o Íris, estaria desafiando os sentimentos pacifistas dos brasileiros. No entanto, a manifestação contrária à “provocação americana” teria ocorrido no cine Rex, logo após “intensa propaganda no rádio e nos jornais” a despeito de “seu fracasso tanto do ponto de vista artístico como político”.
O “ato vigoroso de repulsa”, segundo o jornal, se deu, apesar de toda a propaganda feita em torno do filme, que de nada adiantou, posto que o cinema ficou “quasi [sic] às moscas”, só contando com a presença de “tiras”. Porém, no domingo, quando a freqüência ao cinema era bem maior, as manifestações voltaram a acontecer “com forte apoio popular”, por meio do grito de palavras de ordem, resultando em explosão de bombinhas fedidas, poltronas danificadas e a inutilização da tela por causa da grande quantidade de piche que jogaram.
Poucos meses depois, o Imprensa Popular noticiava mais um protesto, dessa vez contra a exibição do filme Traidor (Conspirator, 1949), no cine Metro-Passeio. De acordo com o jornal, mais uma “repulsa popular a um filme de propaganda guerreira, no velho estilo anticomunista de Hitler”. Para o periódico, a exibição do filme tinha evidente intuito político e fazia parte de um “espetáculo geral de provocações por todo o país”. Além disso, na opinião dos jornalistas que escreviam para o Imprensa Popular, o longa-metragem se tratava de “um clássico abacaxi americano, que desagradou até mesmo os cronistas da [imprensa] sadia. Nos jornais mais reacionários, sua péssima qualidade foi acentuada”. A “resposta da população” veio à altura por meio de uma “merecida recompensa”. A lição na “imunda produção encomendada pelos sórdidos reacionários de Wall Street”, teria sido dada por um grupo de populares empenhados em evitar a política “expansionista e sanguinária” dos capitalistas estadunidenses.
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