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Resistência
Política no escurinho do cinema
Durante a Guerra Fria, os EUA usaram a indústria cinematográfica para difamar o comunismo. Mas os militantes de esquerda brasileiros contra-atacaram, invadindo as salas de cinema e interrompendo a exibição dos filmes

POR ALEXANDRE BUSKO VALIM

MACARTHISMO: ANTICOMUNISMO DE ESTADO

Contando com adesão popular, o senador Joseph McCarthy obteve respaldo político para implantar uma política de caça às bruxas contra a ameaça vermelha

IMAGENS: ACERVO CIÊNCIA E VIDA

No início da década de 1950, o governo dos Estados Unidos deu início à propagação de idéias anticomunistas. Suas atividades transformaram o minúsculo e inexpressivo Partido Comunista norte-americano em um grupo extremamente impopular e em uma séria ameaça ao american way of life (estilo de vida americano). Contudo, a campanha do governo contra o comunismo não era monolítica. Diferentes grupos, no interior da máquina governamental, adotaram diferentes estratégias, por vezes conflitantes entre si, para combater a ameaça representada pelo comunismo. Tal competição intensificou ainda mais os impulsos anticomunistas de políticos e burocratas, que estavam empenhados em impedir uma infiltração comunista. Assim, ao difundir um implacável combate ao comunismo, o senador Joseph Raymond McCarthy ganhou popularidade e poder.

Joe McCarthy, como era mais conhecido, deu início a um movimento de perseguição contra todos aqueles que fossem suspeitos de simpatizar com o Partido Comunista. Artistas, intelectuais, membros de sindicatos e a população em geral tiveram seus nomes colocados em uma lista negra e foram acusados de praticar atividades antiamericanas. Essas pessoas eram convocadas a prestar depoimentos na Comissão de Assuntos Antiamericanos, que aconteciam em audiências públicas, cercadas de câmeras. De um modo geral, a sociedade estadunidense via o anticomunismo de maneira positiva, fazendo com que muitos políticos tivessem medo de questionar as atitudes de McCarthy e assim não conseguirem se eleger.

A política de McCarthy (acima) inspirou a perseguição em Hollywood: Dalton Trumbo (à dir.) foi preso e o cineasta Charles Chaplin (à esq.) obrigado a deixar o país.

Embora muitos pensem o contrário, McCarthy não chegou a atacar diretamente a indústria do cinema. As comissões lideradas pelo senador focavam outros setores sociais, como o Governo, as universidades e as Forças Armadas. No entanto, McCarthy influenciou enormemente comissões que devastaram o meio artístico, como a House Un-American Activities Committee (HUAC) e outros grupos estaduais. Entre as vítimas dessas comissões estão o ator Charles Chaplin, que se exilou na Suíça, e o roteirista Dalton Trumbo, que passou 11 meses na prisão, em Kentucky.

As táticas de McCarthy o tornaram muito conhecido e o colocaram em evidência no cenário político como um sinônimo de caçador anticomunista (sobretudo entre as instituições universitárias), ligando toda a sua atividade política a um aspecto doméstico da Guerra Fria. A influência de McCarthy cresceu vertiginosamente a partir de 1950. Confiantes na ajuda dos métodos do senador de Wisconsin para o crescimento do partido, os republicanos apostaram no discurso anticomunista, de olho nas eleições de 1952. Na convenção desse ano, ele foi a celebridade maior, superada apenas pelo próprio candidato presidencial, Dwight Eisenhower.

Com o trunfo nas eleições de 1952, Robert Taft, então líder do Senado, quis presentear McCarthy com o Comitê de Operações Governamentais, de modo a saciar a ambição do senador. Todavia, McCarthy usaria o Comitê de Operações Governamentais para se fazer presidente do temido Subcomitê de Investigações Permanentes. De posse desse novo e poderoso cargo, McCarthy se transformou no mais célebre protagonista das investidas anticomunistas. Suas acusações, de repercussão nacional, tinham peso e eram temidas e, por isso, respeitadas.

Todavia, a partir de 1953, antes temido interrogador, McCarthy passou a ser alvo de duras críticas e submetido a interrogatórios que expuseram a realidade de seus métodos. Suas ameaças e alegações fraudulentas logo se tornaram públicas, revelando a sua irresponsabilidade e desonestidade. Por fim, em 2 de dezembro de 1954, o Senado votou, por 67 votos a 22, a censura a McCarthy. O Senado interveio não para repudiar a sua postura, mas para se proteger de danos políticos maiores. Nesse sentido, sem dúvida, os ataques do senador ao presidente e a oficiais do alto escalão das forças armadas foram fundamentais na decisão governamental de isolá-lo.

A queda de McCarthy, de fato, pouco afetou a fórmula anticomunista das audiências parlamentares, com as chamadas testemunhas amistosas (os delatores, algumas vezes ex-comunistas), as listas de nomes de supostos comunistas (muitas das quais sem nenhum fundamento), a intimação das testemunhas inamistosas citadas pelas amistosas, a colaboração e o aplauso de entidades patrióticas e as manchetes da imprensa, continuaram a existir.

Contudo, a partir de então, passam a haver outras estratégias, visto que a administração de Dwight Eisenhower acreditava ter outros métodos mais eficientes do que a “caça às bruxas” de McCarthy. Assim, o seu declínio político simboliza uma rápida trégua depois de quase duas décadas de perseguição, tirania e demagogia, diminuindo naquele momento a intensidade anticomunista.

Os protestos contra os “filmes guerreiros” posicionaram a esquerda brasileira durante a Guerra Fria

Já para o jornal A Manhã, que fazia parte da “imprensa sadia”, os protestos ocorridos no cine Metro- Passeio contra o filme Traidor, foram fomentados por cerca de oito “comunistas depredadores” que conseguiram fugir. Segundo o diário, houve um protesto semelhante horas antes no cine Odeon, durante a exibição do filme A Cortina de Ferro.

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