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Resistência
Política no escurinho do cinema
Durante a Guerra Fria, os EUA usaram a indústria cinematográfica para difamar o comunismo. Mas os militantes de esquerda brasileiros contra-atacaram, invadindo as salas de cinema e interrompendo a exibição dos filmes

POR ALEXANDRE BUSKO VALIM

ACERVO CIÊNCIA E VIDA
CENÁRIO DE LUTA Por sua dimensão e movimento, a Cinelândia (na imagem) foi escolhida como o local preferido para as manifestações e protestos após a exibição dos filmes

O ator norteamericano Glenn Ford disse em entrevista ao jornal Última Hora, em 1953, que o filme O Americano fracassou graças à ação dos militantes brasileiros

É importante salientar que o modo como esses filmes foram recebidos pelos manifestantes comunistas evidencia que as pessoas não estavam simplesmente discordando de mensagens presentes nessas produções. Os protestos estavam fundamentados em uma posição muito mais complexa: a resistência. Essa posição foi reafirmada em 1949, quando o Partido Comunista Brasileiro (PCB) pregou a derrubada do imperialismo dos Estados Unidos. Em 1950, a formalização de tal hostilidade foi realizada no Manifesto de Agosto, em que Luis Carlos Prestes conclamou a “luta direta pelo poder” a partir da criação de uma “ampla organização popular”, conhecida como Frente Democrática Nacional. Por esse motivo, durante o período de ilegalidade do partido, as ações comunistas foram vistas pelo DOPS como tarefas designadas por líderes subversivos.

Outra questão importante é o lugar em que tais protestos ocorreram. A Cinelândia, no Rio de Janeiro, era um dos locais escolhidos para os protestos e, conseqüentemente, de constantes repressões policiais. Por ser um movimentado pólo de lazer, a Cinelândia era um lugar onde a militância política podia organizar manifestações relâmpagos nas saídas dos cinemas e, depois, se esconder.

Diante de coberturas jornalísticas sensacionalistas, tendenciosas e superficiais sobre casos de corrupção; crises aéreas e outras mazelas sociais que acometem os brasileiros atualmente, é importante refletir sobre os meios de comunicação e sobre a identificação de “imprensas sadias” e “imprensas doentes”. Há algumas décadas, a imagem que o cidadão comum possuía da Guerra Fria estava associada às mensagens veiculadas pela grande imprensa, aos filmes, às canções, às histórias em quadrinhos e a outros meios que produziam informações repletas de ideologia e estereotipadas do confronto. Por essa razão, analisar a maneira pela qual a mídia abordou os conflitos sociais no passado é muito importante para compreender como os veículos de comunicação de hoje tratam as questões atuais que os brasileiros enfrentam.

REFERÊNCIAS:

MUNHOZ, Sidnei J. Guerra Fria: um debate interpretativo. In: SILVA, Francisco C. Teixeira da. (Org.) O século sombrio. Ensaios sobre as guerras e revoluções do século XX. Rio de Janeiro: Elsevier, 2004.

SAUNDERS, Frances Stonor. The cultural Cold War: The CIA and the world of arts and letters. New York: The New Press, 2000. STRADA, Michael J.; TROPER, Harold R. Friend or foe? Russians in American film and Foreign Policy. Lanhan, MD: The Scarecrow Press, 1997.

VALIM, Alexandre Busko. Imagens vigiadas: uma história social do cinema no alvorecer da Guerra Fria (1945-1954). Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal Fluminense, Niterói. 2006.

ALEXANDRE BUSKO VALIM é doutor em Historia Social Contemporânea pela Universidade Federal Fluminense-RJ e atualmente desenvolve pós-doutorado na Carleton University (Ottawa, Canadá) na área de Comunicação de Massa. Email: alexandrebvalim@yahoo.com.br

 

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