Corrida pelo infinito Há 50 anos, o governo dos Estados Unidos inaugurou a Nasa, agência estatal cujo principal objetivo era desenvolver tecnologia aeroespacial para ganhar dos soviéticos o título de principal potência da Guerra Fria
POR RODRIGO GALLO
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NASCIMENTO DO GIGANTE
1 - O presidente Eisenhower (ao centro) cumprimenta os primeiros administradores da NASA em 1958.
2 - Ao lado, o hangar de aeronaves em Cabo Canaveral, Florida |
A briga de gato e rato que os Estados Unidos e a União Soviética travaram durante a Guerra Fria (1945- 1989) ganhou uma nova dinâmica no dia 1 de outubro de 1958. Foi nessa data que a Nasa começou a funcionar. A agência espacial norte-americana, conhecida pela sigla que designa a Administração Nacional de Aeronáutica e Espaço (do inglês National Aeronautics and Space Administration), foi a resposta de Dwight D. Eisenhower, então presidente dos Estados Unidos, ao programa russo Sputnik, que colocou em órbita o primeiro satélite artificial da Terra, em 4 de outubro de 1957.
No dia em que o Sputnik 1 foi para o espaço, a União Soviética provou ao mundo o que os norte-americanos mais temiam: a tecnologia soviética era realmente mais avançada. Para piorar, no mês seguinte os americanos amargaram mais uma derrota: em 3 de novembro de 1957, os soviéticos lançaram o Sputnik 2, que carregou a cadela Laika, o primeiro ser vivo a sair do planeta. Era preciso que os Estados Unidos agissem rapidamente. Isso não quer dizer que antes do advento da Nasa, o país estivesse completamente desprovido de pesquisas nesse setor.
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Até julho de 1958, os Estados Unidos contavam com a Naca (National Advisory Committee for Aeronautics - Comitê Nacional de Aconselhamento para Aeronáutica, em português). Essa agência antecessora da Nasa foi criada pelo governo americano em 1915, impulsionada pela Primeira Guerra Mundial e a aviação. Mas, em 29 de julho de 1958, o presidente Eisenhower assinou um documento, trocando o "c" de committee (comitê) pelo "s" de space (espaço), e criou a Nasa. A partir daí, os olhares dos americanos ultrapassaram a atmosfera e voltaram-se para o universo.
Foi com o surgimento da Nasa que se deu a largada para a corrida espacial. Essa disputa, que se desenvolveu no contexto da Guerra Fria, gerou grandes progressos científicos e tecnológicos. O país que dominasse primeiro o espaço provaria, conseqüentemente, qual sistema econômico era o melhor e mais avançado, o capitalismo ou o socialismo.
UM CONFLITO IDEOLÓGICO
Os Estados Unidos e a União Soviética já disputavam a soberania das inovações tecnológicas e bélicas desde o fim da Segunda Guerra
Mundial, em 1945. Com o fim do conflito, comunistas e capitalistas, até então aliados na luta contra os nazi-fascistas, repartiram a derrotada Alemanha em duas partes e a separaram com o Muro de Berlim.
Após a tomada da capital alemã, a situação entre americanos e soviéticos se agravou e ganhou uma amplitude maior: de um lado, os Estados Unidos levantaram a bandeira em defesa do capitalismo; do outro, o bloco comunista se fechou em torno da extinta União Soviética.
Na raiz do conflito, estavam as diferenças ideológicas entre as duas potências. Soviéticos e americanos compunham dois dos maiores e mais populosos países do mundo, divididos geograficamente pelo Estreito de Bering (que separa a Sibéria do Alasca). Mas, do ponto de vista político- econômico, a distância entre as duas nações era bem maior.
Com a criação da Nasa, os olhares dos americanos ultrapassaram a atmosfera e voltaram-se para o Universo
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DOMÍNIO DO ESPAÇO
O lançamento da Sputinik 1 (acima) provou aos americanos o quanto os soviéticos estavam mais avançados na teconologia espacial. Uma disputa que não acabaria tão cedo |
Impulsionados pelo pensamento de Karl Marx e motivados pelo resultado da Revolução Russa de 1917, que derrubou o regime dos czares, os soviéticos buscavam uma forma de espalhar seus ideais socialistas pelo mundo. Eles queriam disseminar a igualdade entre os homens e o fim das propriedades privadas. Na outra ponta, os norte-americanos tentavam expandir a política de livre mercado e o acúmulo de capital.
Ambos os países já haviam demonstrado força militar nas batalhas da Segunda Guerra e, com a oposição ideológica, logo se transformaram em grandes adversários em uma luta que tomou os dois blocos econômicos. Em pouco tempo, os confrontos entre as duas nações passaram também para as quadras de basquete e pistas de atletismo durante os Jogos Olímpicos ¬- era questão de tempo até a briga ir para além os céus.
DA POLÍTICA PARA O LABORATÓRIO
Na década de 1950, os líderes dos Estados Unidos perceberam que estavam perdendo a corrida tecnológica e, caso quisessem reverter a situação, deveriam responder à altura. A ameaça soviética cresceu justamente com o lançamento do Sputnik, feito memorável para a época e considerado um grande marco para a Guerra Fria.
Com isso, a atenção do mundo voltou-se para esse conflito não mais exclusivamente ideológico, mas principalmente científico. Em pouco tempo, a hegemonia do espaço tornou-se uma obsessão para comunistas e capitalistas. Aos demais países do globo, restava apenas acompanhar os episódios dessa saga contemporânea.
Segundo o historiador americano Walter A. McDougall, professor da Universidade da Pensilvânia e autor do livro Th e Heavens and the Earth: A Political History of the Space Age (Os céus e a Terra: uma história política da era espacial), antes de 1957, a Guerra Fria apenas opunha os blocos capitalista e comunista do ponto de vista ideológico. O papel dos Estados Unidos, no período, era apenas de apoiar material e psicologicamente seus aliados para o caso do início de conflitos armados entre as duas nações, mas sem se envolver diretamente no embate com a União Soviética.
Esse distanciamento parcial, no entanto, teve de mudar após o Sputnik, que alterou os rumos do conflito e talvez da própria história do homo sapiens no planeta. O primeiro assalto da luta, portanto, foi vencido pelos soviéticos. O satélite artificial Sputnik, pesando pouco mais de 80 quilos, foi lançado ao espaço a partir de uma base no deserto do Cazaquistão.
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MARCO HISTÓRICO Este selo comemora o lançamento do satélite artificial Sputinik pelos soviéticos em 1957. Um aviso e uma prova de que os soviéticos não estavam brincando |
A missão do equipamento era bem simples, embora demonstrasse uma tecnologia muito avançada. Em órbita, o aparelho deveria apenas emitir um sinal de rádio, que pôde ser captado por radioamadores até 26 de outubro daquele ano. Essa tarefa mudou drasticamente a percepção que os norte-americanos tinham sobre o desenvolvimento da tecnologia inimiga. "O lançamento do Sputnik, em 1957, revelou uma insuspeita dianteira tecnológica soviética no terreno espacial", escreveu o cientista político Demétrio Magnoli em seu livro Da Guerra Fria à Détente: Política Internacional Contemporânea. O Sputnik permaneceu na órbita da Terra por três meses, até que pegou fogo ao reentrar na Terra.
O problema todo, explica McDougall em seu livro, vencedor do Prêmio Pulitzer de 1986, é que o lançamento do satélite levou insegurança à população norte- americana. Muitos se questionavam sobre a qualidade do ensino do país: será que os soviéticos tinham vencido o primeiro round por serem mais eficientes na formação educacional de cientistas? Além disso, ele argumenta que o sucesso do satélite colocou em dúvida também as capacidades de defesa dos Estados Unidos no caso de um ataque. Afinal, quem conseguiu enviar um satélite ao espaço poderia, no limite, bombardear Washington.
Para o governo soviético, por outro lado, o sucesso da missão Sputnik teve um outro efeito. Mostrou não somente à população, mas também ao resto do mundo, que a tecnologia do país tinha mesmo atingido um elevado grau de excelência. No mês seguinte, o Sputnik 2 virou destaque nos jornais de todo o mundo: era o primeiro vôo tripulado ao espaço da história, levando uma cadela à órbita da Terra.
A TERRA É AZUL
Os Estados Unidos tentaram dar uma resposta com o lançamento do satélite Explorer 1, em 1 de janeiro de 1958. Mesmo assim, ainda era necessário colocar em prática medidas mais enérgicas. Para não ficar atrás dos oponentes, o governo norte-americano criou um grande projeto espacial, caro e inédito no Ocidente, que poderia causar um forte impacto na credibilidade da nação. Assim, meses após o lançamento do Sputnik, Eisenhower anunciou o surgimento da Nasa.
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