A santa devassidão de um Monge Louco Rasputin pregava que para alcançar a virtude era preciso pecar. Apesar de polêmico, ele conquistou a confiança do czar Nicolau II e tornou-se o homem mais importante dos últimos anos da Rússia czarista
POR SÉRGIO PEREIRA COUTO
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Depois de controlar as crises hemofílicas de Alexei (o garoto na imagem, entre o casal Romanov), Rasputin (à esquerda) ganhou a confiança de Nicolau II e Alexandra |
Cabelos desgrenhados, olhar feroz, barba emaranhada, e uma presença que atingia a tudo e a todos. Essas são as características que marcaram uma das figuras mais misteriosas da História: Grigori Yefimovich Novykh, mais conhecido como Rasputin. Em 1905, o monge russo foi apresentado ao czar Nicolau II por Militsa e Anastásia, grã-duquesas de Montenegro. A partir desse encontro, o curandeiro que vivia metido em brigas e algazarras tornou-se o homem mais influente nos últimos do período czarista da Rússia.
Rasputin conseguiu não só conquistar a confiança de Nicolau II como também a de sua esposa, a czarina Alexandra. Isso porque os dois tinham um segredo que ocultavam dos súditos e que era conhecido apenas por poucas pessoas da corte: o filho do casal e herdeiro do trono, o czarevitch Alexei, era hemofílico, uma doença que havia adquirido pelo lado materno, fato pelo qual a czarina se culpava interminavelmente. Toda vez que o garoto caía, em geral durante as brincadeiras normais de qualquer criança, ficava logo com enormes manchas azuladas embaixo da pele branca, o que indicava hemorragias intensas, além da enorme dor que sentia. Na época, essa doença era pouco conhecida pelos médicos da corte, que se sentiam impotentes ao tentar ajudar o menino.
Desde que Rasputin tratou das crises de Alexei pela primeira vez, ele virou uma presença constante no palácio do czar. Porém, Nicolau e Alexandra eram cuidadosos e recebiam o curandeiro de maneira discreta. Eles queriam evitar que o resto da corte fizesse comentários maldosos a respeito das visitas de um benzedor de aparência tão desleixada quanto Rasputin.
PERFORMÁTICO E FANFARRÃO
O desempenho que o monge fazia na frente de Nicolau e Alexandra para cuidar do pequeno czarevitch era invariavelmente o mesmo: ele se jogava de joelhos e rezava algumas preces em uma língua que ninguém entendia. Depois de um tempo, levantava e se aproximava da cama do garoto, fazia o sinal da cruz, e afirmava com uma voz profunda e melodiosa: "está tudo bem, Alexei. Amanhã você estará bom novamente". Em seguida, o garoto era tranqüilizado com a leitura de contos de fadas siberianos e posto para dormir.
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A czarina Alexandra Romanov abraçada ao filho (esquerda) confiou ao curandeiro Rasputin (o primeiro da esq. para dir., na foto ao lado) o segredo da hemofilia de Alexei, tratado com frequência no palácio de maneira discreta para evitar comentários maldosos sobre sua descendência |
Depois da "consulta", Rasputin dizia aos pais desesperados para que acreditassem no poder de suas orações para que o menino pudesse se recuperar. No dia seguinte, tudo acontecia como o monge previra: Alexei acordava se sentindo bem e recuperado, de uma maneira praticamente incompreensível. Por isso, não é de se espantar que o monge tenha conquistado prestígio e poder sob a tutela do czar e da czarina. O que não se entende até hoje é a discrepância das atitudes de Rasputin. Se por um lado ele posava de homem santo e sábio, por outro era famoso por suas bebedeiras, farras com mulheres, e brigas - atitudes nem um pouco dignas de uma pessoa tão iluminada e poderosa.
Apesar de mulherengo e fanfarrão, Rasputin adquiriu poder e prestígio junto aos czares por sua pose de sábio
Um dos maiores mistérios em relação a Rasputin é a forma como ele conseguiu se destacar na corte de Nicolau em tão pouco tempo. Para muitos historiadores, tudo foi uma questão de ele conseguir por em prática suas habilidades hipnóticas, uma característica que bate bem com as descrições das pessoas que conviveram com ele. Elas relataram o poder que podiam sentir emanando por Rasputim. O homem parecia uma espécie de contradição, pois apresentava características santas e diabólicas ao mesmo tempo.
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