Resistência Política no escurinho do cinema Durante a Guerra Fria, os EUA usaram a indústria cinematográfica para difamar o comunismo. Mas os militantes de esquerda brasileiros contra-atacaram, invadindo as salas de cinema e interrompendo a exibição dos filmes
POR ALEXANDRE BUSKO VALIM

Era mais um filme romântico sendo exibido em um dos cinemas mais freqüentados do centro do Rio de Janeiro, o cine Metro-Passeio, em uma agradável noite de 1949. Ao entrar na sala, o público não notou nada de anormal. No entanto, pouco depois de Traidor (Conspirator, 1949) começar, um verdadeiro pandemônio se instalou no interior do cinema. Bombinhas fedidas e bolas de piche foram jogadas para todos os lados, as poltronas foram cortadas e a tela rasgada. Os espectadores saíram correndo aos berros. Alguns até se feriram. Fora do cinema, vidraças e bilheterias foram quebradas, e agentes disfarçados do DOPS (Delegacia de Ordem Política e Social) prenderam algumas pessoas. Foi uma confusão generalizada. No dia seguinte, alguns jornais da cidade explicaram o ocorrido. Era uma repetição, em menor escala, de atitudes comunistas similares às que estavam acontecendo constantemente no resto do mundo. Segundo os periódicos, os comunistas arruaceiros e intolerantes provocaram instantes de grande desordem em pleno centro da cidade porque o tema do filme que estava sendo exibido era anticomunista.
Na segunda metade da década de 1940, durante o período marcado pelo confronto entre o capitalismo dos Estados Unidos e o socialismo da União Soviética, conhecido como Guerra Fria, o cinema foi um dos principais veículos usado pelos estadunidenses para divulgar discursos conservadores. Foi nessa época que os Estados Unidos iniciaram uma significativa produção de filmes que geraram e fortaleceram inúmeros temores e preconceitos relacionados ao comunismo.
Na América Latina, como em vários outros lugares, a propaganda estadunidense esteve dirigida para a manipulação das opiniões relacionadas a diversos conflitos internacionais como, por exemplo, o Bloqueio de Berlim (1948-1949), a tomada da China pelos comunistas (1949) e a Guerra na Coréia (1950- 1953). Além disso, a política externa estadunidense e os filmes produzidos por Hollywood, sob a influência dessa política, intensificaram reações exageradas não apenas nos Estados Unidos, mas também onde essa política e a produção de Hollywood exerciam uma influência efetiva, tal como no Brasil.
O sentimento de que a “batalha de idéias” divulgada pelo cinema seria decisiva na guerra contra o comunismo chegou ao Brasil no final da década de 1940, ocasionando uma série de diferentes protestos contra a exibição de filmes com mensagens anticomunistas. Na imprensa paulista e carioca, o embate ocorreu entre os jornais da “imprensa sadia” e os da “imprensa doente”.
IMPRENSA SADIA E IMPRENSA DOENTE
A expressão “imprensa sadia” foi popularizada por jornalistas como Gondim da Fonseca, para chamar ironicamente os jornais alinhados aos interesses burgueses ou estadunidenses. Dentre esses periódicos estavam O Globo, o Correio da Manhã e os pertencentes ao Grupo Diários Associados, cujo proprietário era Assis Chateaubriand. Logo o apelido passou a ser utilizado pela militância de esquerda, que acusava a “imprensa sadia” de ter se vendido ao imperialismo estrangeiro por se referir aos comunistas como desordeiros.
No extremo oposto, a “imprensa doente” estava comprometida com as “ideologias exóticas” provenientes da União Soviética, ou seja, o comunismo. Embora atualmente tais expressões estejam em desuso, entre 1940 e meados da década de 1960, elas foram utilizadas em debates sobre o papel da mídia na cobertura de eventos políticos.
O primeiro protesto relatado contra um filme anticomunista no Brasil ocorreu durante a exibição de Luz Nova (1920/1921), um dos primeiros do gênero produzidos em Hollywood. O longa-metragem, que tratava de uma suposta “socialização das mulheres”, não foi bem aceito desde sua primeira apresentação, no cinema Odeon, na cidade de Niterói (Rio de Janeiro), em agosto de 1921. Os protestos contra a película resultaram em algumas prisões e ocasionaram uma grande confusão.
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| Produções de Hollywood durante a Guerra Fria pretendiam manipular as opiniões sobre os comunistas aos países latinoamericanos, em relação a conflitos internacionais como no exemplo da Guerra da Coréia (acima) |
Quase trinta anos após esse incidente, em janeiro de 1949, um investigador do DOPS relatou a seus superiores que a linha de conduta dos comunistas havia se modificado radicalmente e que os “agitadores” passaram a agir abertamente, de uma aparente passividade para ações agressivas. Como exemplo, o investigador se referia ao impacto social de vários filmes produzidos em Hollywood com mensagens anticomunistas. Muitos deles resultavam em protestos e quebraquebras dentro e fora dos cinemas. Esses tumultos eram amplamente divulgados pelos jornais do período, desde os mais conservadores até os mais à esquerda. Obviamente, as interpretações dos diários eram bastante distintas. Os “filmes guerreiros” eram assim chamados por difundirem, na opinião da imprensa alarmista, uma visão de mundo que inevitavelmente levaria a um novo conflito mundial e a uma hecatombe nuclear.
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