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UMA VIAGEM AOS BASTIDORES TEATRAIS DO SÉCULO XX
A atriz e diretora teatral Dulcina de Moraes levantou a bandeira da profissionalização da dramaturgia no Brasil, que culminou com a Fundação Brasileira do Teatro (FBT), em 1955

ACERVO PESSOAL
Dulcina de Moraes e sua mãe, Conchita, na peça Bodas de Sangue, em 1983

"Creio na imortalidade do teatro. Aliás, eu creio. Essa é a minha atitude espiritual permanente... Não conseguem deter a FBT [Fundação Brasileira do Teatro]. Ela caminha sempre! Ora mais lentamente, ora mais aceleradamente, mas... sempre em frente e para o alvo!...

....Senhor Presidente (João Batista Figueiredo), tendo já uma entrevista marcada na TV Globo para anunciar a estréia do Teatro da FBT em Brasília, valho-me novamente do telégrafo nacional, pedindo uma audiência para confirmar a data dessa inauguração que, conforme ficou decidido em nosso primeiro encontro, seria marcada por Vª.Exª. Aguardando suas ordens, aceite a manifestação de meu profundo respeito e grande admiração.

....Na impossibilidade de conseguir recursos para montar um espetáculo nosso, da FBT, para a inauguração do Teatro e ao mesmo tempo terminar a obra, o indispensável para abrir as portas do Teatro, resolvi apelar para um espetáculo de categoria sim, mas que já estivesse pronto. Não podíamos perder a data de 21 de abril de 1980 (data de aniversário de Brasília).

Já estavam sendo impressos os convites e a publicidade. Mas qual? Eu tinha combinado com a Bibi (Ferreira) que ela dirigiria a primeira peça da FBT, em que eu atuaria como atriz e que ela traria, como segundo espetáculo, a Gota d´água, de Paulo Pontes - o mais belo texto da dramaturgia nacional -, que ela pretendia remontar, para excursionar pelos Estados.

FUNDAÇÃO BRASILEIRA DE TEATRO

Durante as décadas de 1940 e 1950, Dulcina ficou em evidência na mídia, justamente na época em que surgiu o movimento do "Teatro Brasileiro Moderno". Uma de suas principais contribuições no período foi a criação da Fundação Brasileira de Teatro (FBT), em 1955, dedicada à formação profissional e apresentações na área teatral.

A artista investiu energia e recursos pessoais no desenvolvimento do projeto, e manteve muitos contatos e audiências para angariar recursos privados e governamentais, com personagens importantes da política, como os presidentes Ernesto Geisel e João Batista Figueiredo. Foram quase três décadas na batalha para amadurecer o plano.

A FBT foi fundada no Rio de Janeiro e depois acabou sendo transferida para Brasília. A realização do grande sonho da atriz aconteceu com a inauguração do Teatro Dulcina, em 21 de abril de 1980, com o espetáculo Gota d`Água, que tinha no elenco Bibi Ferreira, e posteriormente, a Faculdade de Artes, que leva também o seu nome, ambas em funcionamento até hoje.

 

UMA IMERSÃO NO TEATRO DE DULCINA

Quatro anos de pesquisa em acervos históricos, diário pessoal, bibliografia especializada e mais dezenas de entrevistas. Essa foi a trajetória que a escritora e produtora cultural Michelle Bastos levou para apurar as informações, que resultaram na obra Dulcina de Moraes: Memórias de um Teatro Brasileiro, lançado no fim de 2007, pela LGE Editora.

Michelle conta que hoje, o acervo sobre Dulcina de Moraes está dividido entre seus familiares e a Faculdade Dulcina de Moraes, localizada em Brasília. "Eu, pessoalmente, tenho em mãos algumas peças que guardo com carinho, como LP´s com Dulcina cantando, cedidos por sua sobrinha Sônia. São preciosidades", diz.

Para a escritora, foi fundamental para a realização do livro ter acesso a um caderno de anotações, no qual Dulcina escreveu sobre as características que uma boa atriz deveria ter e como alcançá-las. "Também pude consultar um caderno de recorte de jornais sobre Dulcina, feito pelo pai dela, o ator Átila de Moraes", afirma. A possibilidade de imortalizar, em papel, a contribuição da atriz e diretora ao teatro brasileiro foi o que mais motivou Michelle a escrever a obra: "É um legado para as próximas gerações".

O livro descreve passagens entre os anos 1908 e 1996, desde o nascimento até o falecimento da atriz fluminense. A obra relata passagens da vida pessoal de Dulcina, dos bastidores de sua carreira como atriz, desde 1925, e posteriormente, diretora teatral, que revelam como era o perfil da dramaturgia brasileira na primeira metade do século XX. Um dos principais legados de Dulcina foi a criação da Fundação Brasileira de Teatro (FBT), um projeto que teve início em 1953.

Os relatos de Dulcina que estão no livro foram tirados do diário pessoal da atriz. Além disso, há entrevistas com importantes personagens do tablado, como Paulo Autran (falecido em outubro de 2007), Fernanda Montenegro, Marília Pêra, Nicette Bruno e Sérgio Viotti, além de depoimentos colhidos com os familiares de Dulcina.

Muitos dos trechos de entrevistas concedidas por Dulcina de Moraes constantes no livro foram extraídos da obra Bastidores - Série Teatro Brasileiro, de Simon Khoury, pela Letras & Expressões, publicado em 2001, como também de Dulcina e o Teatro de Seu Tempo, de Sérgio Viotti, pela Lacerda Editora, escrito um ano antes, além de outros títulos.

Segundo Michelle Bastos, Dulcina pode ser considerada como um divisor de águas para o teatro brasileiro moderno. O fato de a atriz e diretora teatral fluminense ter nascido em uma família de artistas - Conchita e Átila de Moraes, seus pais, com quem teve o primeiro aprendizado sobre a arte do tablado - é considerado fundamental para sua carreira.

ACERVO CIÊNCIA E VIDA
Ficha técnica Título: Dulcina de Moraes: Memórias de um Teatro Brasileiro Autora: Michelle Bastos Editora: LGE Editora 303 páginas

Ao casar com o ator Odilon Azevedo, Dulcina concretizou um de seus maiores sonhos: a Companhia Dulcina-Odilon, que surgiu em 1931. Essa companhia foi a primeira do Brasil a traduzir e montar textos de grandes autores internacionais, como o dramaturgo espanhol Federico Garcia Lorca e o irlandês George Bernard Shaw, e levar a encenação dessas obras ao povo. Mas uma das maiores influências na carreira da artista foi a defesa da instituição do ofício do ator como profissão, inclusive em termos legais. A sua companhia teatral foi considerada pioneira em instituir, na década de 1940, o descanso semanal nas segundas-feiras aos atores.

Outra atitude importante da diretora teatral foi eliminar do teatro o ponto (aquela casinha na frente do palco, onde um judante "soprava" o texto para o ator), passando a exigir o texto decorado. Essa iniciativa ocorreu durante a apresentação do espetáculo Chuva em Buenos Aires, realizado na Argentina, no ano de 1953.

Na impossibilidade de realizarmos a primeira hipótese, combinamos que ela o traria do Rio, já ensaiados os 4 da peça: Joana, Jasão, Egeu e Creonte, e eu me encarregaria de selecionar o que houvesse de melhor em Brasília para os outros personagens. Eu cuidaria do texto e o Fernando Azevedo, da coreografia.

No livro Dulcina de Moraes, há entrevistas com importantes atores teatrais, como Paulo Autran

Ela aceitou e partiu para avisar aos empresários de Gota d´água que possuem os direitos (autorais) da peça. Hoje, 7 de fevereiro, chegaram a Brasília os empresários Moisés e Max, para conhecer o Teatro Dulcina, em Brasília, e acertarmos a estréia de Gota d´água no Teatro da FBT, no dia 21 de abril de 1980! Viva Deus!!!

....Já selecionamos e começamos os ensaios com atores e bailarinos de Brasília. Alguns abandonaram os empregos para não perderem a grande chance de atuarem ao lado de Bibi (Ferreira), Adriano Régis, Felipe Wagner e Oswaldo Neiva, em um espetáculo dessa categoria.

Os empresários adoraram o teatro, assim como a faculdade, e prometeram voltar logo, quando então assinariam os contratos com a equipe brasiliense..."









Trecho editado pela jornalista Sucena Shkrada Resk.

 

 

 

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