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Diplomacia no Reich
Pesquisa inédita mostra a relação entre diplomatas brasileiros e de outros países da América Latina com os nazistas, antes de a Segunda Guerra Mundial estourar. Seduzidos pelo totalitarismo de Adolf Hitler, o comportamento desses representantes internacionais oscilou entre o calculismo, a ingenuidade e a inabilidade diplomática

POR ROBERTO LOPES

Os estudos sobre a ligação entre os diplomatas do Brasil e dos países vizinhos com a cúpula nazista mostram que esse relacionamento era valioso para ambas as partes. Os alemães precisavam desesperadamente importar os suprimentos estratégicos da América Latina, como alimentos para estocar nos tempos de guerra, para reduzir a independência da economia alemã. Para as nações latino-americanas, essa demanda do Reich representava uma fonte de receita que recuperaria suas economias após a quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929.
As pesquisas a respeito das relações entre os diplomatas latino-americanos e os nazistas, durante as décadas de 1920 e 1930, levaram mais de 20 anos para ficarem prontas e resultaram em um trabalho inédito na historiografia brasileira. Grande parte desse levantamento está no livro Missão no Reich, lançado em 2008, e nas páginas desta matéria exclusiva que os leitores da revista Leituras da História têm nas mãos.
O levantamento explorou fontes documentais de 11 países da Europa e das Américas. Na Alemanha, há fragmentos de dados relevantes para a compreensão das ligações entre os latino-americanos e os nazistas em depósitos tão distantes entre si quanto o Politisches Archiv des Auswärtiges Amt (Arquivo Político das Relações Exteriores), em Bonn, o Mikrofilmarchiv (Arquivo de Microfilmes) da Universidade Livre de Berlim, a Biblioteca de Munique e o arquivo da Hapag-Lloyd, em Hamburgo, além das informações históricas mantidas pelo governo alemão em Colônia, Aachen, Dresden, Freiburg e outras cidades germânicas.

Para boa parte desses diplomatas latino-americanos, o regime nazista simbolizava o autoritarismo bem-sucedido

A investigação também se estendeu pelos arquivos do Estado-Maior do Exército da França - fonte inédita para a historiografia latino-americana -, pelas estantes da Biblioteca da Universidade de Austin, no estado americano do Texas (onde é possível consultar parcela significativa das obras de referência sobre a política externa da América Latina), pelo National Archives, em Washington, o Records Office e o Foreign Office, de Londres. O trabalho de coleta de informações incluiu os arquivos históricos do Itamaraty, no Rio de Janeiro e em Brasília, e dos serviços diplomáticos na Argentina, Uruguai, Chile, Colômbia, Venezuela e República Dominicana.

O embaixador do Brasil, Moniz de Aragão (à direita), mostra artigos da produção agrícola brasileira a uma autoridade do Ministério da Agricultura do Reich
Hermann Goering, marechal do Reich, em um de seus compromissos de rotina: jantares de gala

JOGOS DE INTERESSES
A rebote das questões de ordem econômica, transparecem na pesquisa algumas atitudes no mínimo inábeis. E outras em que fica sinalizado o interesse pessoal nas relações com funcionários do alto-escalão governamental alemão, a despeito de serem esses os porta-vozes de um regime tão totalitarista quanto cruel para a humanidade. Uma fatal cumplicidade movida (não se sabe ao certo) pela pouca vocação diplomática, a ingenuidade ou a amoralidade dos representantes do Brasil e de outros países latino-americanos envolvidos nos achados desse estudo.
Graças aos documentos pesquisados, sabe-se, por exemplo, que no primeiro semestre de 1941, o embaixador chileno em Berlim, Tobias Barros Ortiz, um militar direitista, deixou seus compatriotas judeus (chilenos naturalizados) mofarem em uma prisão alemã de Paris. Na época, Barros Ortiz negociava com Ernst Woermann, diretor político do Ministério do Exterior alemão, a soltura de oito cidadãos chilenos não-judeus que haviam sido capturados pelos nazistas em Berlim, Paris e Viena. A prisão foi feita em represália à detenção de cinco alemães na cidade chilena de Valdívia, por terem se envolvido em atividades políticas proibidas pela legislação local.
Como forma de demonstrar boa vontade nessa interlocução, Barros Ortiz se dispôs a deixar de lado o pedido de Santiago para que os alemães libertassem os chilenos judeus. Mesmo assim, a "oferta" de Barros Ortiz não adiantou muito e os nazistas só soltaram os chilenos depois de os alemães saírem da prisão de Valdívia, em 30 de setembro de 1941. Quanto aos chilenos judeus, não há registros sobre o destino deles.
Mas essas não são as únicas aberrações que os velhos papéis do Reich revelam. Os textos também registram algumas tramóias diplomáticas, como o caso que envolveu o embaixador do Brasil no Reich, Moniz de Aragão. No início de 1938, Moniz de Aragão tentou parecer ao Itamaraty mais influente do que realmente era junto aos hitleristas, ao insinuar que a nomeação de um alto funcionário do Ministério do Exterior para a chefia da Embaixada no Rio de Janeiro tinha um dedo seu. No fim desse mesmo ano, Aragão tentou novamente se mostrar diplomata de prestígio, ao informar - indevidamente - que o tal embaixador alemão (que se desentendera com o ministro das Relações Exteriores brasileiro, Oswaldo Aranha, a quem Aragão queria agradar) seria prontamente retirado do posto.

O DIPLOMATA-CUPIDO
Um dos mistérios esclarecidos a partir da análise dos documentos do Reich diz respeito ao telegrama despachado pelo embaixador norteamericano no Rio de Janeiro, Jeff erson Caff ery, em setembro de 1942, a seus chefes na Secretaria de Estado. O representante do presidente Franklin Roosevelt informava Washington acerca da demissão do diplomata brasileiro Fernando Nilo de Alvarenga da assessoria do gabinete da Presidência da República.
Segundo investigações feitas pelo cientista político norte-americano Stanley Hilton, na virada da década de 1970 para 1980, Caff ery, nessa segunda metade de 1942, tinha como certa a exclusão de Alvarenga também dos quadros do Itamaraty. O que aconteceu foi, entretanto, exatamente o contrário: Alvarenga foi promovido e transferido para a bela e pacífica Bogotá. O diplomata safouse da degola funcional graças ao serviço pessoal prestado, três anos e meio antes, a Lutero Vargas, filho mais velho do presidente Getúlio Vargas.

Os diplomatas latinoamericanos deveriam fazer propaganda pró-Hitler em seus países de origem

HERÓIS DA SEGUNDA GUERRA

Apesar da situação de insegurança e dos jogos de interesses que imperavam na Europa no período da Segunda Guerra, alguns representantes de Estado arriscaram o emprego - e a vida - para salvar judeus das garras dos nazistas.

Atualmente, pelo menos duas importantes investigações acerca do comportamento heróico de alguns diplomatas latino- americanos, durante a Segunda Guerra Mundial, estão em curso: a do cônsul salvadorenho em Hamburgo e Genebra, o coronel Daniel Castellanos; e a do cônsul equatoriano em Estocolmo, Manuel Antonio Muñoz Borrero. Ambos emitiram certificados destinados a salvar judeus dos campos de concentração nazistas. Castellanos fez isso com o apoio de seu governo; Muñoz Borrero lançou os documentos às escondidas e pagou caro pela ousadia: foi demitido do cargo.
Há, contudo, outros personagens que, por seu empenho em salvar a vida dos judeus, mereciam ter suas atuações estudadas. Entre eles estão o ministro da República Dominicana em Berlim, Bonetti Burgos (morto precocemente no fim dos anos de 1930); o ministro do Paraguai em Berlim, general Manlio Schenoni Lugo; e o cônsul-geral da Costa Rica na Europa, Ronaldo Falconer (um diplomata nascido na Inglaterra que, em 1919, naturalizou-se costarriquenho, e, na solidão de seu escritório consular, igualmente no porto de Hamburgo, concedeu vistos a judeus, burlando as restrições impostas pelo governo que representava).
Dois casos famosos de brasileiros que ajudaram a livrar os judeus das garras dos alemães, reconhecidos em Israel pelo Yad Vashem (entidade oficial que preserva a memória do Holocausto), são os de Luis de Souza Dantas, embaixador brasileiro na França; e de Aracy Moebius de Carvalho, funcionária do Consulado- Geral do Brasil em Hamburg, que depois se tornou esposa do escritor brasileiro João Guimarães Rosa.


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