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Diplomacia no Reich
Pesquisa inédita mostra a relação entre diplomatas brasileiros e de outros países da América Latina com os nazistas, antes de a Segunda Guerra Mundial estourar. Seduzidos pelo totalitarismo de Adolf Hitler, o comportamento desses representantes internacionais oscilou entre o calculismo, a ingenuidade e a inabilidade diplomática

POR ROBERTO LOPES

Alvarenga era um bom amigo dos nazistas. No final de 1938, ele viajou da Alemanha para o Brasil no mesmo navio do novo embaixador do Reich no Rio, Karl Ritter, que havia sido diretor de assuntos econômicos do Auswärtiges Amt, e gozava de muito bom conceito em Berlim. Na ocasião, Alvarenga voltava ao Rio de férias e Ritter seguia para assumir seu posto. Durante a viagem, os dois estreitaram o relacionamento. Menos de dois meses mais tarde, Alvarenga procurou Ritter na Embaixada alemã no Brasil, a mando do ministro da Justiça, Chico Campos, para pedir a assistência de Berlim na organização de um evento anticomunista que o governo de Getúlio Vargas queria realizar na capital brasileira.

O EMBAIXADOR MAL INFORMADO

No fi m do primeiro semestre de 1939, Pedro Juan Navarro, que acabara de ser empossado como representante da Colômbia na Bélgica, fez uma visita de cortesia a seu colega Pimentel Brandão, embaixador do Brasil. Durante o encontro, que aconteceu na Embaixada do Brasil em Bruxelas, Pimentel deu certeza a Navarro de que a guerra não estouraria na Europa, pelo menos naquele ano. Navarro escreveu sobre a reunião em seu livro de memórias Europa Bárbara, de 1942. O trecho abaixo foi retirado do livro, ainda inédito, 1939: o Ano das Esperanças Mortas, de Roberto Lopes:

"O ministro de Bogotá encontrou-se com o seu colega do Brasil. O embaixador Pimentel Brandão foi ministro das Relações Exteriores, e, como Navarro, era novato no posto. Ainda assim, Navarro supôs que, por seus múltiplos contatos, o brasileiro poderia estar bem informado. 'Não crê que haja guerra, pelo menos este ano', anotou o colombiano. 'Pimentel fundamenta sua opinião dizendo que Inglaterra e França não lutarão por Dantzig (...) Manifesta- se convencido de que de todo o modo se encontrará a fórmula que facilite a anexação pacífi ca pela Alemanha de Dantzig e do corredor, com a aceitação, mediante prévio acordo, de Inglaterra e França. Enquanto os interesses vitais da França não estejam diretamente ameaçados e enquanto a Alemanha não construa uma frota que possa rivalizar com a do Império Britânico, não haverá guerra' concluiu."


A estreita relação entre Alvarenga e os nazistas fez que ele ganhasse com Getúlio Vargas, admirador do regime totalitário Nacional-Socialista de Hitler. Alvarenga e Lutero Vargas haviam se encontrado no início de 1939, quando o diplomata servia como secretário de Embaixada em Berlim. Lutero apareceu por lá, designado para aperfeiçoar-se em Medicina na equipe do prestigioso Dr. Sauerbruch - um médico que detestava os nazistas, mas fingia ser leal a Hitler para não acabar em algum campo de concentração.

SHOÁ VIRTUAL

Documentos liberados pelo Itamaraty sobre políticas anti-semitas devem ser divulgados pelo Departamento de História da USP, em janeiro de 2009

Shoá, em ídiche, significa Holocausto. Com o objetivo de tornarem públicos os registros brasileiros sobre políticas antisemitas durante a Segunda Guerra Mundial, o grupo do Laboratório de Estudos sobre a Etnicidade, Racismo e Discriminação do Departamento de História da USP (Universidade de São Paulo) pretende inaugurar em janeiro de 2009 o Arquivo Virtual do Shoá (Arqshoa). Entre as informações que serão divulgadas, devem estar depoimentos de judeus que, perseguidos pelos nazistas, deixaram a Europa e vieram para o Brasil reconstruir suas vidas. O projeto é coordenado pela historiadora Maria Luiza Tucci Carneiro, que falou à Leituras da História sobre a importância do arquivo.

LEITURAS DA HISTÓRIA - Já existe uma data para o site entrar no ar?
TUCCI CARNEIRO - Trabalhamos com a data de 27 de janeiro, que é quando a ONU comemora o Dia Internacional de Rememoração do Holocausto. Mas o mais importante é que o Arqshoa exiba o conjunto de informações que julgamos importantes: os documentos liberados pelo Itamaraty sobre a política anti-semita do governo de Getúlio Vargas, pelo Arquivo Nacional; os arquivos pessoais e das entidades que trabalharam no salvamento de judeus que corriam o risco de morrer na Europa caso não conseguissem emigrar para o Brasil; e os depoimentos dos sobreviventes. Além disso, o Arqshoa irá divulgar um calendário de eventos que vão lembrar e debater a recepção aos judeus no Brasil.
LH - Você está escrevendo um livro sobre o embaixador brasileiro na França, Souza Dantas, reconhecido pelo governo de Israel como um dos diplomatas que ajudaram a salvar judeus dos nazistas. Quando o livro será lançado?
TUCCI CARNEIRO - Fica pronto, se tudo correr bem, no ano que vem, com a documentação que recolhi sobre o Souza Dantas em Nice, em Paris, na Alemanha, onde ele esteve detido, e em Portugal.
LH - O Brasil não tem uma política clara de liberação de informações históricas por parte dos seus diferentes centros de documentação, como existe, por exemplo, na Inglaterra e nos Estados Unidos. Você tem esperança de que isso, um dia, possa vir a mudar?
TUCCI CARNEIRO - Acho que pessoas como o Jaime Antunes, diretorgeral do Arquivo Nacional, podem contribuir muito, junto ao Governo Federal e ao Congresso, para que isso seja corrigido. Ele é nosso parceiro na organização do Arqshoa, e percebi o quanto ele considera iniciativas como essa, decisivas para o resgate da memória brasileira. Tenho esperança, sim.

Em um almoço, ao qual compareceu como "escolta" de Lutero, Fernando Nilo ajudou o rapaz a aproximar-se da jovem alemã Ingeborg ten Haeff . O flerte deu certo e os dois começaram a namorar. Em 1940, Lutero foi pressionado a se retirar da Alemanha e incumbiu o fiel amigo Alvarenga de pedir a mão da moça em casamento. Ingeborg aceitou e veio morar no Brasil com o marido. Graças a esse favor que prestou ao filho do presidente Vargas, Alvarenga não foi despedido da assessoria do gabinete da Presidência da República.
Caff ery, embaixador norte-americano no Rio de Janeiro, jamais ficou sabendo por que todo o seu estratagema tendente a eliminar a influência de Alvarenga no governo do Rio fora torpedeado. Foi dito apenas que ele parecia desfrutar de ligações privilegiadas no meio dos Vargas e dos nazistas.

RELAÇÕES [POUCO] DIPLOMÁTICAS
Franceses, ingleses e americanos investigaram, vigiaram e perseguiram muitos diplomatas latinoamericanos (e os parentes deles) suspeitos de colaborarem com o regime nazista. No início do ano de 1940, durante uma reunião interministerial no Quai d'Orsay (Ministério do Exterior, em Paris), os militares franceses alertaram seus companheiros diplomatas: deveriam ter cuidado com o novo ministro da Guatemala na França, José Gregorio Díaz (ex-ministro em Berlim), pois ele estava a soldo alemão.
O FBI (Federal Bureau of Investigation) seguiu os passos dos filhos do ex-cônsul colombiano na capital do Reich, Joaquín Quijano Mantilla - um conhecido simpatizante dos hitleristas -, quando eles resolveram passear nos Estados Unidos. Os agentes americanos também acompanharam os passos da filha do encarregado de negócios uruguaio em Vichy, Luis Dupuy, quando a menina deixou a Europa e voltou a morar em Montevidéu. Dupuy considerava Hitler "um grande caudilho, um verdadeiro condutor de multidões, a quem o povo alemão segue cegamente porque ele sabe (...) de seus deveres de governante e considera o bem do povo a lei suprema".
Um memorando da diplomacia Nazista revela que, em agosto de 1943 - um ano e meio depois de as repúblicas latino-americanas já terem quase todas rompido o seu relacionamento com a Alemanha -, um grupo de diplomatas alemães reuniu-se em uma sala de seu ministério, na rua Wilhelmstrasse. O motivo do encontro era examinar uma relação de diplomatas da América Latina que serviam em Berlim e outras cidades da Europa central, e precisavam de autorização para atravessar as áreas controladas pelas tropas alemãs e alcançar um porto neutro onde pudessem embarcar de volta a seus países.

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