Diplomacia no Reich Pesquisa inédita mostra a relação entre diplomatas brasileiros e de outros países da América Latina com os nazistas, antes de a Segunda Guerra Mundial estourar. Seduzidos pelo totalitarismo de Adolf Hitler, o comportamento desses representantes internacionais oscilou entre o calculismo, a ingenuidade e a inabilidade diplomática
POR ROBERTO LOPES
Detalhe: todos eram considerados simpatizantes do nazismo e aptos a continuarem, em suas capitais, o trabalho de propaganda pró-Hitler. Um deles era o secretário de legação peruano Cerro Cebrián, que não cumpriu a missão, pois foi mandado para outro posto quando chegou a seu país de origem.
| A VISITA DE HITLER AO BRASIL |
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O cônsul brasileiro Vinício da Veiga tentou trazer Adolf Hitler para um tour brasileiro. Mas graças ao extremismo do alemão, o passeio não deu certo
Antes de os nazistas assumirem o poder na Alemanha, o cônsul brasileiro Vinício da Veiga tentou trazer Adolf Hitler ao Brasil, em 1926. Segundo as anotações pessoais do cônsul, a intenção era permitir que Hitler, na época um político em ascensão na Alemanha, conhecesse a realidade brasileira da América Latina.
O plano de Veiga não deu certo porque o então presidente brasileiro Artur Bernardes negou a concessão do visto. Um dos brasileiros que se manifestou contrário à idéia foi o próprio chefe de Veiga, Guerra Durval, embaixador do Brasil na Alemanha. Durval argumentou que não ficaria bem para o relacionamento bilateral entre Brasil e Alemanha receber um líder extremista que há três anos tentara derrubar a República de Weimar (1918-1933) por uma tentativa de golpe, que ficou conhecido como o Putsch da Cervejaria. Por causa disso, Hitler ficou detido em uma prisão de Landsberg, de 1923 a 1925. Na carceragem, o líder dos nazistas escreveu o livro Mein Kampf (Minha Luta). A proximidade de Veiga com Hitler ficou bem conhecida no Itamaraty, e o cônsul colecionou desafetos por causa disso. |
VIAGEM PARA A VERGONHA
Em agosto de 1939, o navio de guerra alemão Admiral Graf Spee deslizou sem ruído para fora do porto de Wilhelmshaven, no norte da Alemanha, em busca de posição no Atlântico Sul. Sua missão era clara: capturar ou fazer desaparecer os navios mercantes dos países que ousassem desafiar o Reich, em conseqüência do ataque à Polônia.
As reações de Londres e Paris, que a 3 de setembro declararam guerra a Berlim, ativaram o corsário alemão. Em contrapartida, o Admiral Graf Spee cumpriu fielmente a tarefa que lhe fora designada: afundou nove embarcações em pouco mais de um mês. Só que a singradura terminou de forma inesperada, com o barco encurralado (e severamente danificado) no porto de Montevidéu, no Uruguai, depois de ter atacado uma frota de três belonaves do Reino Unido.
| O CONVITE DO FÜHRER |

Acima, o germanoargentino Richard Darré, ministro da Agricultura da Alemanha e guardião dos certificados de pureza racial dos membros da SS; à esquerda, o embaixador argentino no Reich, Eduardo Labougle
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Em junho de 1939, ao despedir-se de Hitler, por ter sido removido para o Chile, o embaixador argentino, Eduardo Labougle, elogiou-lhe a obra administrativa: a redução do desemprego, a ampliação da infra-estrutura nacional, a recuperação das finanças. Em resposta, o Führer exibiu falsa modéstia: "Isso não é nada. Volte daqui a quatro ou cinco anos, o senhor sequer reconhecerá Berlim". O embaixador argentino gozava de um acesso especialmente bom à cúpula nazista, e esse canal se devia ao fato de Hitler possuir em seu círculo mais íntimo um germano-argentino, Richard Darré, ministro da Agricultura Nazista, que também era um alto oficial da SS (Schutzstaff el), a organização paramilitar ligada ao partido alemão.
Labougle nunca voltou à Alemanha. Mas mesmo que o tivesse feito, não teria mesmo como reconhecer a avenida Unter den Linden, a principal da porção leste de Berlim, onde ficava o portão de Brandemburgo. Também seria difícil distinguir a Wilhelmstrasse, rua do centro da capital, endereço do Ministério do Exterior e de outros prédios governamentais. Em 1944, esses lugares já estavam irreconhecíveis, de tão degradados. Em 1945, haviam quase desaparecido sob um mar de escombros.
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Ao cabo de 72 horas, Hans Langsdorff , comandante do Spee, mandou sua tripulação abandonar a unidade e autorizou que o navio fosse explodido. Langsdorff queria evitar, a qualquer custo, a destruição e captura do Spee pelos navios inimigos, que aguardavam ao largo.
Poucas horas mais tarde, já em um alojamento da Marinha argentina, em Buenos Aires, Langsdorff vestiu seu uniforme branco de gala, enrolou-se na bandeira do Reich e apontou para a própria cabeça uma pistola que tomara emprestada. Por mais de 60 anos, testemunhas desse drama, além de analistas militares e historiadores, ofereceram relatos e conclusões enaltecedoras às qualidades marinheiras do comandante, que, sozinho, engajara toda uma força- tarefa da Grã-Bretanha, inflingira-lhe severas perdas e ainda conseguira escapar por seus próprios meios para o Uruguai. Langsdorff , diziam essas testemunhas, preferira não sobreviver ao seu navio.
Mas essa é a versão que agoniza. Os livros de apontamentos do Admiral Graf Spee voltaram à Alemanha e os dados que eles registraram acerca da chamada "Batalha do Rio da Prata" estão hoje preservados não em Wilhelmshaven - sede, em 1939, do Distrito Naval do Mar do Norte da Marinha alemã -, e sim nos arquivos do Foreign Office, em Londres. As anotações mostram que, bem ao contrário do que se convencionou considerar nas últimas seis décadas, o desempenho do Spee em situação real de combate foi pouco mais do que um fiasco. Seus motores possantes emprestavam ao barco vibração excessiva, sua blindagem era demasiadamente frágil e a pontaria de seus canhões, simplesmente medíocre. Os projéteis disparados pelas baterias secundárias do navio (dos canhões de menor calibre) obtiveram um índice de impacto sobre o inimigo correspondente a 0%.
Caso tivesse decidido manter-se vivo, caberia a Langsdorff , em algum momento, admitir todas essas falhas. Problemas que, de resto, os seus superiores conheciam perfeitamente. Tanto que haviam programado recolher o navio no começo de 1941 para submetê-lo a uma demorada reforma.
ROBERTO LOPES é jornalista, pesquisador do Laboratório de Estudos sobre a Etnicidade, Discriminação e Racismo do Departamento de História da USP, e autor do livro Missão no Reich, primeiro volume de uma antologia que pretende recontar o relacionamento da América Latina com o Nazifascismo, por meio dos relatórios dos diplomatas latino-americanos que serviram na Europa durante a 2ª Guerra Mundial. Nesse momento, Roberto Lopes finaliza o segundo volume da coleção 1939: o Ano das Esperanças Mortas, cujo lançamento está previsto para 2009, ano que marca o 70º aniversário da invasão da Polônia pelas tropas alemãs. |
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