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Os santos de casa que fazem milagres
Eles caíram nas graças do povo e viraram santos por excelência. Vítimas de crimes violentos ou doenças fatais, alguns mortos são tidos como divinos pelos devotos, mesmo não tendo se dedicado à religião em vida

POR SOLANGE RAMOS DE ANDRADE

Uma cena comum tem ocorrido todos os anos, no Dia de Finados, em vários cemitérios espalhados pelo Brasil. Em 02 de novembro, milhões de pessoas visitam túmulos que não são de seus familiares e amigos, mas de seus santos de devoção. Esses "santos", porém, nunca foram canonizados pela igreja católica. Simplesmente foram pessoas que sofreram uma morte violenta ou doença fatal e, depois de enfrentarem martírio tão grande em vida, são vistas como santas após a morte. Sacralizados pela religiosidade dos devotos e eleitos como divinos, esses mortos são ditos capazes de promover milagres. São santos que não constam na hagiografia oficial, mas seus cultos traduzem uma intensa manifestação da religiosidade brasileira.

CRUCIFICAÇÃO DE SÃO PEDRO, DE MICHELANGELO MERISI
O quadro de Caravaggio mostra a crucificação de São Pedro, ápice do martírio que sofreu antes de ser elevado à categoria de santo. São Pedro pode ser considerado um mártir, discípulo de Jesus, que dedicou sua vida à propagação da fé cristã
O milagre é a experiência concreta que comprovaria a existência de Deus, por intermédio dos santos


No catolicismo, a maior expressão de religiosidade encontra-se no culto aos santos. A fé nos milagres dessas entidades é uma das principais características da religião, sendo impossível pensar o catolicismo sem suas imagens veneráveis. No Brasil, é comum, entre os católicos, cultuar, além dos santos oficiais, os chamados santos de casa e acreditar no poder deles.

SACRO OFÍCIO
As vidas dos santos constituem um importante meio de transmitir o sentido da fé cristã. Desde que o cristianismo existe, os devotos contam e recontam as histórias de pessoas que foram salvas por Deus e transformadas em santidades. Na tradição católica, o santo é alguém cuja virtude é reconhecida como excepcional. As sepulturas dos santos tornaram-se lugar para peregrinação, a ponto de igrejas serem construídas ao redor para abrigar as suas relíquias, assegurando uma celebração mais institucionalizada dos padroeiros locais.
Na cristandade, os primeiros cultuados como santos foram os mártires, e as primeiras homenagens dirigidas a eles tiveram origem espontânea. O mártir era aquele que dava a vida como testemunho de sua adesão à fé cristã. Antes do final do primeiro século da cristandade, o termo santo era reservado somente ao mártir. Com o passar do tempo, a concepção de martírio, na religião católica, foi sendo ampliada a ponto de caracterizar uma morte violenta resultante tanto de uma doença grave como de um homicídio, mesmo não existindo o critério adotado de que a morte seria em função da adesão à fé cristã.
O homem religioso procura viver o mais perto possível do sagrado. Porém, como sente que Deus, o Ser Supremo, está distante, o indivíduo procura experiências religiosas mais concretas. O santo, ao substituir a função de Deus, ao deixar de ser um intermediário, pode realizar a sua manifestação máxima: o milagre.
É por meio do mito, enquanto uma narrativa original, que o homem religioso busca uma identificação com a divindade, com o transcendente. Quanto mais personificado for o transcendente, maior o sentimento de identificação a um projeto coletivo de salvação. É o caso do culto aos santos, pois, com o passar do tempo, a oração oferecida a Deus passa a ser também direcionada ao santo, que já demonstrou, pelos milagres que realizou, ser portador de poderes divinos.
Como o devoto busca a salvação neste mundo material, ele encontra no poder do milagre uma resposta imediata à sua angústia. É à procura de um milagre que as pessoas dirigem-se aos santuários. As bênçãos, a proteção e os milagres correm de boca em boca, alongando a fila de novos adeptos. Divulgar a graça alcançada é o meio que o devoto encontra de propagar a vida dos santos.

FOTO: VALTER CAMPANATO/ABR

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