BIOGRAFIA O descobridor do Brasil Ao completar 100 anos, Claude Lévi-Strauss é tido como o principal antropólogo estrangeiro a estudar sistematicamente as populações indígenas brasileiras. Na década de 1930, o belga embrenhou-se nas matas nativas e fez contato com índios que o próprio País desconhecia
POR RODRIGO GALLO
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| Lévi-Strauss acampado à beira do rio Machado, onde ficou quinze dias entre outubro e novembro de 1938, com alguns índios tupi-cavaíba. Agarrando-se à bota dele, está a macaquinha Lucinda, que o antropólogo adotou durante a viagem |
Até a década de 1930, poucos pesquisadores dedicavamse a estudar as populações indígenas brasileiras de forma sistemática. Naquela época, os estudiosos costumavam voltar as atenções para analisar as comunidades africanas, asiáticas e norte-americanas, pois eram mais tradicionais nas academias européias. Foi então que o antropólogo e fi- lósofo belga Claude Lévi-Strauss veio ao Brasil e passou um tempo vivendo junto aos bororos e nambiquaras, no Mato Grosso, e os kadiveus, na fronteira com o Paraguai. As idéias e métodos de análise Lévi-Strauss mudaram para sempre os rumos da antropologia e dos estudos de mitologia, religião e parentescos.
O pensador, nascido em Bruxelas, na Bélgica, completou 100 anos em 28 de novembro e, mesmo em vida, já é uma das maiores referências na sua área de estudo. Qualquer curso de Ciências Sociais e Antropologia, por exemplo, possui disciplinas voltadas a estudar suas teorias estruturalistas - uma das principais correntes do pensamento antropológico.
Lévi-Strauss estudou Direito e Filosofia, dedicando boa parte de sua vida às aulas em cursos superiores. Ele, aliás, foi um dos primeiros docentes do curso de Ciências Sociais da recém-criada Universidade de São Paulo (USP), entre 1935 e 1938, quando viveu no Brasil e realizou importantes estudos de campo com etnias locais.
O principal mérito atribuído à obra de Lévi-Strauss é que ele nunca aceitou as teorias de que a cultura e a civilização ocidentais eram superiores ao resto do mundo. Ao contrapor-se a esse eurocentrismo, o pensador deu um novo enfoque aos estudos dos chamados povos primitivos, principalmente os das Américas.
"Para qualquer um, O CHOQUE CULTURAL SERIA INSUPORTÁVEL - ainda mais que, naquele período, o Brasil apresentava inúmeros problemas de infra-estrutura"
Claude Lévi-Strauss |
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| Índio bororo retratado pelo pintor francês Hercules Florence. Claude Lévi-Strauss viveu entre os nativos desse grupo na região do Estado do Mato Grosso, e contribuiu para uma mudança definitiva nos estudos antropológicos feitos até então |
UM FENÔMENO ACADÊMICO
Apesar de ter nascido na capital da Bélgica, foi na França que Claude Lévi-Strauss desenvolveu boa parte de seus estudos acadêmicos. Primeiramente, o antropólogo estudou em Versalhes e, enfim, mudou-se para Paris, onde se inscreveu nos cursos preparatórios. Como tinha dificuldades em aprender grego e matemática, logo descartou estudar línguas ou física, e concentrou seus esforços nas carreiras de Direito, na Faculdade de Paris, e em Filosofia, na famosa Sorbonne, simultaneamente.
No entanto, o "fenômeno" do pensamento europeu interrompeu brevemente a trajetória acadêmica, em 1931, por conta do serviço militar. Na ocasião, ele serviu em Estrasburgo e no Ministério da Guerra, antes de retomar sua rotina. No ano seguinte, após o casamento com Dina Dreyfus, que seria sua grande parceira nas incursões pelo Brasil, Lévi-Strauss tornou-se professor secundário no Liceu Mont-de-Marsan, uma pequena comuna francesa na Aquitânia. Sua carreira, todavia, mudaria radicalmente nos anos seguintes, quando trocou a Europa pelo Brasil.
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