editora Escala
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000    
 
Filosofia  
   
 
 
 
Envie para um amigo Imprimir

 

Diplomacia no Reich
Pesquisa inédita mostra a relação entre diplomatas brasileiros e de outros países da América Latina com os nazistas, antes de a Segunda Guerra Mundial estourar. Seduzidos pelo totalitarismo de Adolf Hitler, o comportamento desses representantes internacionais oscilou entre o calculismo, a ingenuidade e a inabilidade diplomática

POR ROBERTO LOPES

FOTOS: ACERVO DO AUTOR

Na segunda semana de maio de 1945, quando a notícia das rendições do exército nazista espalhou- se pela Europa, a Alemanha não passava de uma terra devastada pelos bombardeios, pela fome e pelo medo. As capitulações tinham sido firmadas ao norte do país, pela junta que sucedeu a Adolf Hitler, e em Berlim, pelo comando militar de resistência ao avanço soviético. As fronteiras já haviam sido penetradas no lado oriental pelos temíveis russos, e, no sul e no lado ocidental, pelos anglo- britânicos, secundados por franceses, canadenses e tropas de outras nacionalidades.
Esse cenário de destruição em nada lembrava a nação esplendorosa concebida 12 anos antes pelo Terceiro Reich - o império que Hitler imaginava que iria durar um milênio. Mesmo assim, com a nação desmoronando, algumas administrações provinciais e municipais insistiam em manter certa rotina (a burocracia alemã nunca deixou de lado os carimbos e o preenchimento de fichas), mas tudo ficava prejudicado pela inexistência de um governo central. Nas dispensas do prédio do Ministério do Exterior, na capital, ainda havia chocolates, bebidas finas e enlatados estrangeiros - os restos de uma pilhagem que durara mais de quatro anos no centro da Europa. Bom para os russos, que comeram e beberam artigos das mais nobres procedências - Dinamarca, Holanda, França, Bélgica. Os soldados soviéticos também se abasteceram nas Missões Diplomáticas estrangeiras que haviam fechado as portas na Alemanha: na do Brasil, eles arrombaram salas trancadas e chegaram aos cofres que elas abrigavam, limpando o seu conteúdo.

Batalhão de tanques alemães do tipo Panzer II B desfila pelas ruas de Viena, em março de 1938, após o Anschluss (anexação da Áustria)
Documentos oficiais do Reich foram escondidos dentro de túneis, minas de carvão e até enterrados em chiqueiros

Em meio a essa situação deplorável que a Alemanha se encontrava no fim da Segunda Guerra Mundial, muitos celeiros e galpões do interior do país escondiam caminhões carregados de papéis - a documentação oficial do Terceiro Reich. Havia caixas guardadas dentro de túneis, nos labirintos das minas de carvão e até enterradas sob chiqueiros. Vários diplomatas alemães fugiram de Berlim carregando debaixo do braço pastas e arquivos que consideravam imprescindíveis manter. Grande parte desse material foi queimada, mas nem sempre dava tempo de atear fogo em todo o papelório. E nem sempre, também, essa opção era considerada a melhor.
Antes do suicídio do Führer, ninguém sabia dizer se aqueles nazistas ardilosos conseguiriam, no último instante, fazer a paz em separado com as potências ocidentais e, dessa forma, reagrupar suas forças para interromper o avanço irresistível dos russos. Quiçá ainda houvesse uma chance de sobrevivência para Hitler e sua gente. A máquina administrativa alemã precisava estar a postos, caso fosse convocada a operar novamente. Assim, em maio de 1945, quando a derrota do Eixo veio incondicional, esses papéis tiveram de desaparecer.

FOTOS: ACERVO DO AUTOR-FOTOS: ACERVO DO AUTOR
Acima, Adolf Hitler e Hermann Goering, entre outros, caminham em Munique, durante a comemoração do aniversário do 14o putsch, em 1937; abaixo, Lutero Vargas, filho de Getúlio Vargas

DOCUMENTOS REVELADORES
Os memorandos da diplomacia alemã no período nazista, que há décadas permanecem guardados em centros de documentação europeus, são provas inarredáveis contra muitos diplomatas latinoamericanos. Servindo em Berlim antes de a Segunda Guerra Mundial estourar, separados por um oceano de suas capitais e de seus superiores, esses homens julgavam poder fazer o que bem entendessem, sem sequer considerar a possibilidade de, um dia, terem suas atitudes iluminadas pelo farol inquisidor e indiscreto da História.
Para boa parte desses diplomatas, que representavam as nações subdesenvolvidas da América do Sul, o regime nazista simbolizava o autoritarismo bem-sucedido. Sob vários aspectos, a Alemanha era considerada um exemplo: politicamente, uma vez que significava o fim de qualquer forma democrática de oposição; militarmente, porque concluiu uma série de projetos armamentistas com extraordinária eficiência; administrativamente, pois recuperou a economia e estabilizou a moeda alemã.

OS VENDEDORES DE CAFÉ
Um relatório da espionagem americana na Suíça, da segunda metade de 1941, mostra que, para alguns diplomatas latino-americanos, a vitória nazista era dada como certa. Em outubro daquele ano, diplomatas colombianos na Europa já haviam entrado em contato com as autoridades hitleristas para organizar a venda de alimentos, incluindo o caro e saboroso café da Colômbia, na Rússia ocupada pelos alemães. Com esse acordo, a Colômbia pretendia saltar à frente da concorrência (Brasil, Guatemala, El Salvador), tão logo Moscou se rendesse aos (supostamente) insuperáveis generais nazistas.

1 | 2 | 3 | 4 | Próxima >>

 

 

 

Assinaturas
 
Assine as publicações do núcleo Ciência & Vida.
Matérias, novidades acadêmicas, reportagens e muito mais.
Filosofia História historia Psique
 
Edição nº24
SUMÁRIO DA EDIÇÃO
MATÉRIA DE CAPA
REPORTAGENS
TESTEMUNHA OCULAR
EDIÇÕES ANTERIORES
EXPEDIENTE
FILOSOFIA
LEITURAS DA HISTÓRIA
PSIQUE
SOCIOLOGIA
AGENDA
ARTIGOS
 
Busca
Buscar
 
 
Newsletter
Cadastre-se e fique atualizado diariamente com nosso conteúdo.
  OK
 
 
Institucional
Publicidade
Adicionar Favorito
Links Úteis
 
 
Legenda
O acesso ao conteúdo do portal Ciência&Vida é identificado por cards.
Assinante
Cadastrado


 
Editora Escala
  Loja Escala | Faça sua Assinatura | Anuncie | SAC | 55 11 3855-1000