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RELAÇÕES EXTERIORES
De especulação também se vive
A história do capitalismo mostra que o sistema econômico enfrenta abalos financeiros desde o século XVII e que as crises estão ligadas ao eterno processo de empréstimos, investimentos e inadimplências

POR MARCOS LOBATO MARTINS

Multidão de investidores reunidos do lado de fora do Banco dos Estados Unidos, após anunciar falência, em 1931

Em setembro de 2008, o estouro da "bolha imobiliária" americana deu início a uma crise financeira de enormes proporções. Há quem chame essa crise de "o primeiro crash da globalização". Outros a vêem como o início do fim do "império norte-americano" e a certidão de óbito do neoliberalismo. Para os historiadores econômicos, a assombrosa perda de riqueza que está ocorrendo agora, graças ao derretimento do sofisticado mercado financeiro construído nos países centrais, evidencia algo mais prosaico, embora terrível: o capitalismo é inseparável de crises financeiras agudas. A história do capitalismo pode ser contada, portanto, por meio dos dramáticos enredos das numerosas crises financeiras que ele engendra. É o que se propõe neste artigo, com a devida brevidade.

LUCRO, COMPETITIVIDADE E INSTABILIDADE

Considerado o criador da moderna economia, o escocês Adam Smith (1723-1790), no livro A Riqueza das Nações, apreendeu o princípio motor do capitalismo: "Não é da benevolência do padeiro, do açougueiro ou do cervejeiro que eu espero que saia o meu jantar, mas sim do empenho deles em promover seu próprio auto-interesse". É a vontade de obter dinheiro e lucro que anima os agentes econômicos, que faz os mercados funcionarem e, segundo Smith, promoverem, de lambuja, o bem-estar dos indivíduos e da coletividade. O mercado capitalista, sob o regime do laissez-faire (deixai estar), produziria a marcha inelutável para o progresso. Ao Estado, caberia apenas garantir a ordem e a segurança contra os inimigos externos.

O alemão Karl Marx, fundador da teoria marxista, que influenciou as grandes revoluções do século XX

As crises econômicas e as revoluções sociais do século XIX colocaram em xeque a visão idealizada do liberalismo de Adam Smith. Karl Marx (1818- 1883), o mais eminente crítico do capitalismo, construiu uma poderosa e influente interpretação da economia capitalista, na qual ganharam relevo as falhas - e, portanto, as crises - inerentes à dinâmica das forças de mercado. O ponto de partida do marxismo é o mesmo: o mercado é o princípio organizador da sociedade capitalista, de maneira que essa sociedade está presa a forças subterrâneas que têm vida própria. No interior do mercado, movem-se indivíduos impulsionados pelo desejo de ganhar dinheiro, de acumular capital.

O mecanismo da competição econômica, segundo Marx, gerava simultaneamente tanto a riqueza quanto a pobreza, bem como a tendência à concentração dos capitais. Mas a trajetória da economia capitalista não é suave, tampouco apenas ascendente. Marx dedicou bastante atenção aos solavancos da roda da fortuna capitalista. Assinalou a tendência recorrente da economia de perder impulso e até mesmo de ir para trás, vivendo em "ciclos", passando de períodos de expansão para períodos de contração.

A explicação para os ciclos pode ser encontrada nos excessos e desajustes de oferta e demanda, nas retrações de crédito, nas variações de otimismo e pessimismo entre os agentes econômicos, no aparecimento de rupturas tecnológicas ou institucionais e alterações nas relações de força entre trabalho e capital (embates entre sindicatos, empresas, governos e opinião pública).Enfim, a interpretação de Marx põe em relevo três características do capitalismo histórico: a) aguda instabilidade; b) baixa previsibilidade; e c) difícil governabilidade.

Para se ter uma idéia da montanha-russa que é a economia capitalista, basta lembrar que, desde 1790, há registros confi- áveis de pelos menos 46 ciclos econômicos irregulares. Entre 1854 e 1919, a duração média de uma recessão era de 22 meses; nos Estados Unidos, a economia se retraía em média a cada 49 meses. Mesmo nos tempos atuais, as crises econômicas continuam freqüentes. Segundo o FMI (Fundo Monetário Internacional), desde 1970 ocorreram 124 crises financeiras pelo mundo afora.

"Irei até o Paraíso (...) onde se vendeu a primeira ação do mundo. EVA COMPROU-A À SERPENTE, COM ÁGIO, VENDEU-A A ADÃO, também com ágio, até que ambos faliram. Machado de Assis, crônica de 23/10/1892"

FOTO: JAMES MITCHELL
Mais de mil homens desempregados marcham em direção à Tesouraria de Perth, na Autrália ocidental, para ver o Premier Sir James Mitchell, em 1931

Tendo em vista essas características do capitalismo, o economista Hyman Minsky (1919-1996), um dos pioneiros no estudo de crises financeiras, observou ironicamente, em 1982, que o mais significativo evento econômico desde a Segunda Guerra Mundial (1939-1945) "é algo que não aconteceu: não houve uma depressão profunda e duradoura" na economia internacional.

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