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Entrevista: John Sack
O Mistério de São Francisco de Assis
O escritor norte-americano e autor de A conspiração franciscana fala sobre a vida do santo mais popular da Igreja Católica e os enigmas relacionados à Ordem Franciscana, que serviram como base para o livro que mistura ficção e fatos reais

POR SÉRGIO PEREIRA COUTO

ARQUIVO PARTICULAR

A vida de São Francisco de Assis (1181- 1226) é cheia de episódios místicos e misteriosos, mas um fato persiste acima de todos: a localização da tumba de São Francisco foi um segredo que ficou oculto por mais de seis séculos. O que teria levado a Igreja Católica a esconder essa informação por tanto tempo? Essa é a pergunta que o escritor norte-americano John Sack tenta responder em seu romance histórico A conspiração franciscana (Th e franciscan conspiracy). Ao mesclar fatos históricos com uma boa narrativa, que lembra o italiano Umberto Eco em seu O nome da rosa, Sack elabora uma trama cheia de suspense, capaz de prender a atenção do leitor.

O autor é formado em Letras pela Universidade de Yale, em Connecticut. Em 1985, escreveu O lobo no inverno (The wolf in winter), um livro que narra a juventude de São Francisco de Assis. No atual A conspiração franciscana, Sack explora mais profundamente os primeiros anos da Ordem Franciscana, também conhecida como Ordem dos Frades Menores, fundada por São Francisco.

Em A conspiração franciscana, Sack conta a tentativa da Ordem de dissimular estigmas na pele de São Francisco e esconder seu corpo. Obra de ficção baseada em fatos reais, o livro fala sobre uma carta que frei Leo, companheiro de São Francisco, escreveu para o amigo Conrad antes de morrer. O pergaminho faz menção aos acontecimentos enigmáticos relacionados à vida do santo. Ao ler a carta, Conrad sai em busca de respostas para o mistério e acaba se deparando com uma armação de altos membros do clero.

Na entrevista a seguir, Sack, devoto de São Francisco e ávido pesquisador, revela um pouco do que é ficção e o que é realidade na obra.

Leituras da História – O que o levou a escrever uma história de conspiração baseada na vida de um santo tão popular quanto São Francisco de Assis?
John Sack
Um pouco foi curiosidade própria, um pouco foi o desejo de elucidar um mistério antigo. Acontece que, por causa de minha formação, eu sempre tive uma predileção especial por São Francisco. Tanto é que A conspiração franciscana não é o primeiro livro que escrevo com ele como personagem. Há alguns anos escrevi outro, chamado O lobo no inverno, lançado em 1985, que é baseado nas primeiras peregrinações do santo. A conspiração franciscana é meu primeiro romance para adultos, embora O lobo no inverno, que veio antes, seja considerado como romance para jovens. Mas a vontade que tive em me aprofundar na vida desse santo espetacular foi maior e gostei muito do resultado.

Se São Francisco foi um santo tocado por Deus, por que alguém pensaria em esconder o corpo como se fosse uma espécie de crime?

MUSEU POLDI PEZZOLI
A pintura de Carlo Crivelli mostra São Francisco de Assis de joelhos a Cristo, tendo sangue derramado sobre seus estigmas. Fato que os franciscanos tentaram encobertar

LH – Você disse que queria elucidar um mistério. Qual seria?
Sack Bem, parto de um pressuposto no mínimo intrigante: é sabido que, em 1230, a Ordem dos Franciscanos dissimulou os estigmas da pele de São Francisco de Assis e escondeu o lugar exato de sua tumba, que só seria descoberta 600 anos depois. Ninguém soube explicar ao certo os motivos que levaram os adeptos da Ordem a tomar tal decisão. Quero dizer, se São Francisco foi um santo tocado por Deus, a ponto de receber em seu corpo os sinais de Seus estigmas, por que alguém pensaria em esconder o corpo como se fosse uma espécie de crime? É claro que estamos imaginando um cenário que se passa em plena época em que a caça às chamadas relíquias religiosas era muito pesada. Temos casos em que muitas das relíquias são suspeitas de serem ossos de gente comum, até mesmo ligados a animas comuns. Os que obtinham esses objetos não tinham lá muito escrúpulo de fazer coisas normais passarem por santificadas. Mas o que sempre me intrigou foi por que fizeram isso com São Francisco? Isto é, ele era um membro do clero muito popular, é de se esperar, e até temer, que, após sua morte, algum maluco arrombe seu túmulo só para poder tocar nas marcas dos estigmas. Mas daí a dissimulá-los? Isso soa teoria da conspiração para mim.

LH – Isso não vai contra sua formação religiosa?
Sack
Nem um pouco. Conhecer a história do santo é venerá-lo por sua natureza. E São Francisco tem uma das histórias mais fascinantes da Igreja Católica. Todos gostam de falar sobre conspirações que envolvem aspectos religiosos e isso não é novidade para ninguém. O que diferencia um pouco a ficção de outras obras sensacionalistas é aprender a criar uma história densa e envolvente sem esbarrar em erros históricos grotescos. Por isso tomei muito cuidado quando me propus a escrever A conspiração franciscana.

REPRODUÇÃO
Em seu primeiro chamado, São Francisco, em sonho, viu um enorme palácio cheio de armas e uma mulher que poderia ser sua noiva. A pintura de Giotto di Bondone (1267-1337) ilustra esse momento

LH – Fale um pouco sobre sua formação.
Sack
Bem, não sei se posso dizer que minha biografia seja algo emocionante (risos). Eu nasci em 1938, na cidade de Springfield, no Estado de Ohio, nos Estados Unidos. Vivo atualmente no sul do Estado do Oregon. Sou formado em Língua Inglesa pela Universidade de Yale e tenho curso de escrita criativa na Universidade de Washington. Trabalhei por muitos anos como escritor técnico nos setores de informática e astrofísica. Quando jovem, passei dois anos sob a tutelagem de Th omas Merton, um escritor católico que era monge trapista (congregação religiosa católica derivada da Ordem de Cister), além de poeta, ativista social e estudante de religião comparada, o que lhe permitiu escrever mais de 60 livros sobre as relações inter-religião. Passei esse tempo com ele na abadia de Nossa Senhora do Gethsemane, um mosteiro trapista que fica no estado do Kentucky. Mais tarde, treinei técnicas de meditação transcendental com o Swami Muktananda, em Ganeshpuri, na Índia. Resolvi me dedicar a temas espirituais quando que me aposentei. Desde então, procuro sempre fazer uma boa pesquisa para obter um bom embasamento em meus escritos, sejam eles de ficção ou não-ficção.

LH – Você já tinha admiração pela fi- gura de São Francisco ou aproveitou esse tempo para desenvolver suas impressões do santo, quando desfrutou da companhia de Th omas Merton?
Sack
Não, eu já possuía minha adoração pelo santo, embora tenha usado muitas vezes do convívio com Merton para discutir as particularidades da vida de São Francisco. Não há como não sentir atração pela vida de São Francisco e pela Ordem dos Franciscanos. É uma história fascinante.

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