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IDADE MODERNA
A honra dos nobres
No período do Antigo Regime, as querelas entre os membros da aristocracia eram resolvidas por meio de duelos. Esses combates, que envolviam uma série de regras, eram uma espécie de última instância para solucionar casos de honras ofendidas

POR MARCOS ANTONIO LOPES

Honra à nobreza. Além de uma exigência, esse foi um dos grandes ideais da cultura nobiliárquica ao longo do Antigo Regime – governo que marcou a Europa durante a Idade Moderna (1453-1789). Acerca da glória e da reputação, um grande autor daquele tempo escreveu algumas observações esclarecedoras: Montesquieu (1689-1755) construiu uma teoria erudita sobre a honra, ainda que a tenha examinado a partir de um ângulo estritamente político. Ao analisar o princípio vital que moveria as ações dos indivíduos nos regimes políticos monárquicos, o filósofo francês considerou o sentimento da honra como o motor das ações aristocráticas.

A honra é a “paixão” dos súditos que compõem a nobreza nesse regime político; é a “mola” que os impulsiona sob o exercício do poder de um príncipe que observa as leis. Assim sendo, esse sentimento de grandeza, esplendor e glória existe no interior de uma monarquia como o próprio núcleo do sistema político e, para realizar-se plenamente, requer a atmosfera típica das sociedades aristocráticas, com suas cascatas de distinções, de precedências e de privilégios. No entanto, essa “mola”, essa “paixão”, é um anseio que cabe apenas a alguns poucos felizes. Montesquieu explicou que, no interior de uma monarquia tradicional – ou seja, não despótica –, a honra deriva de interesses particulares. Mas, ainda assim, tais interesses sempre levariam à realização do bem comum.

A HONRA NOS TEXTOS DE ÉPOCA

Com ou sem a presença de Montesquieu e de suas elevadas considerações filosóficas (autor que, diga-se de passagem, refletiu sobre a conduta virtuosa na condição de integrante da nobreza do sudoeste da França), é fácil observar como o anseio aristocrático da honra foi um dos temas mais recorrentes na literatura do Antigo Regime. E isso nos mais diferentes gêneros literários daquele tempo. Dos tardios romances de cavalaria, passando pelas peças teatrais e pelas obras eruditas de reflexão política (Do espírito das leis, de Montesquieu, por exemplo), para chegar aos livros de História e aos escritos poéticos, as reflexões sobre a honra ocupam um lugar central nos textos de época.

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O quadro O Duelo, de Leon Marie Dansaert (1830-1909), revela a importância dos combates sanguinolentos para promover a honra dos nobres em busca dos sentimentos de grandeza de uma monarquia

A idealização de um conjunto de normas, que guiaria o comportamento dos indivíduos pertencentes a um mesmo segmento social em cada passo de sua existência, poderia ser definida como a síndrome da nobreza, como uma espécie de obsessão de classe. Princípio regulador da vida social, a honra era também o motor que impulsionava as ações mais enérgicas, ou até mesmo heróicas, de indivíduos muito ciosos da posição que ocupavam no espaço hierárquico de uma sociedade estabelecida sobre os privilégios de sangue.

O sentimento arraigado da honra compunha a fachada principal do universo masculino. Mas o ideal de honra também existia para as mulheres, ligadas que estavam ao emaranhado de tradições do Antigo Regime, conjunto cultural de regras complexas e de numerosos interditos. Como diz a jovem e bela Carlota na peça de Molière (1622-1673), “eu preferia morrer a ser desonrada”1. Paradigmática do ideal de honradez feminina é El Cid, obra do escritor francês Pierre Corneille (1606-1684). El Cid é uma obra da primeira metade do século XVII e foi encenada no reinado de Luís XIII (1601-1643), tempo de intensos conflitos entre a nobreza e a realeza. Ambientada em um passado distante, no contexto das lutas entre cristãos e muçulmanos do século XI, o texto de Corneille revela muitos aspectos relativos à cultura da honra na França do século XVII. O homem da Idade Clássica, afirmou o historiador Philippe Ariès (1914-1984), tendia a conceber os tempos históricos de maneira sempre igual.

Como se sabe, em El Cid, a honra da família de Dom Rodrigo de Vivar (nobre guerreiro espanhol que viveu no século XI, também conhecido como El Cid e o campeador) foi ameaçada pelo pai de Climene, justamente a amada do herói da peça. Ao ver o pai morto por Dom Rodrigo em duelo, a heroína renuncia a desposá-lo. Essa é a parte dramática do enredo, na qual a figura da mulher se destaca em uma bem regulada encenação das leis de honra à l’Ancien Régime. Portanto, as questões relativas à submissão, à castidade, à fidelidade e a mais um rico conjunto de prendas que compunham o catálogo das virtudes da mulher ideal, também integravam a paisagem complexa dos sentimentos relativos à honra. Conscientes de tais valores estavam alguns dos mais atentos observadores daqueles velhos tempos, autores que tenderam a focar a coisa pelo prisma das leis estabelecidas pelos antigos costumes de suas respectivas sociedades.

A HONRA DAS DONZELAS

Mas com todos esses exemplos, não se pode esquecer de que quando o tema é a honra das mulheres, as Novelas exemplares, de Miguel de Cervantes (1547-1616), formam uma rica enciclopédia. Com efeito, trata-se de uma série de espantosas aventuras de donzelas atormentadas pela defesa da honra que perderam, ou que estão em vias de perder. A questão, no caso, vem a ser sempre a integridade daquele fruto mais sagrado e por vezes incandescente que elas reservam apenas aos cavalheiros mais ilustres que têm a felicidade de gozar de suas mercês. Contudo, ocorre que por vezes esses briosos mancebos de altíssima estirpe, quando saídos das altas temperaturas, se esquecem de cumprir com a palavra empenhada. É quando as “pombas ingênuas” reconhecem-se apanhadas pela lábia de mestres formados na velha ciência da velhacaria. A aflição gera correria, desencontros, mal-entendidos, e a defesa da honra arrasta amantes, pais, irmãos e demais parentes direto aos hospitais ou aos cemitérios. Como bem percebera o romancista francês Alain-René Lesage (1668-1747), exímio conhecedor das tradições ibéricas: “o amor tem grande império sobre os espanhóis; porém a honra tem ainda mais”.2

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