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BIOGRAFIA
Antonio Carlos Magalhães: O rei da Bahia
Um dos políticos mais polêmicos da História recente do Brasil, Antonio Carlos Magalhães foi deputado federal, prefeito de Salvador, governador da Bahia por três vezes e senador. Intempestivo, tratava com regalias seus partidários e com truculência os opositores. Por essas e outras, o baiano ganhou o apelido de Toninho Malvadeza

POR FERNANDO JORGE

FUSÃO DE IMAGENS: AGÊNCIA BRASIL
Impulsivo, Antonio Carlos Magalhães protagonizou algumas das cenas mais marcantes e violentas da política nacional. Em uma delas, humilhou um de seus colegas udenistas, chamando-o de idiota

Para compreender e analisar a personalidade do "Toninho Malvadeza", bem como a vigorosa influência que ele exerceu na vida pública brasileira, é mister evocar, antes de tudo, as suas brigas violentas. Essas brigas o tornaram temido e respeitado. Sem elas, o rude Antonio Carlos Magalhães, nascido em Salvador, no dia 4 de setembro de 1927, não teria se transformado no "Toninho Malvadeza", bicho-papão da nossa política, que assustava e fazia tremer de medo, como se fossem criancinhas apavoradas, deputados, senadores, governadores, ministros e até presidentes da República.

Antonio Carlos, em 1954, era redator de debates na Assembléia Legislativa da Bahia. Ele serviu o senador Juracy Magalhães, um dos principais líderes políticos da terra do Caetano Veloso. Apesar de não ser parlamentar, Antonio comandava na Assembléia a bancada da UDN. Fornecia sugestões e conselhos aos deputados. Pois bem, no decorrer de uma sessão, um deputado atacou os udenistas. Imediatamente, Antonio Carlos reagiu, com o dedo em riste:

- Cale a boca, seu idiota!

Indignado, o ofendido encaminhou uma reclamação à Mesa da Assembléia. Esta suspendeu Antonio Carlos por quinze dias, porém ele não se conformou. No fim de outra sessão, agrediu o parlamentar, aplicou-lhe algumas porradas. Devido a isso, a suspensão de Antonio passou a ser de trinta dias.

Eleito deputado federal pela Bahia em 1959, na legenda da UDN, o nosso Toninho Malvadeza irritou o deputado Hermógenes Príncipe, da Aliança Democrática Popular, e este sacou o seu revólver para fuzilar o Toninho, mas a bala não saiu.

FOTO: WILSON DIAS/ABR

Hermógenes Príncipe sacou o seu revólver para fuzilar Toninho, mas a bala não saiu

ARQUIVO DO AUTOR
Tenório Cavalcanti (acima), que carregava em sua ficha um enorme histórico de homicídios, era um inimigo declarado de ACM. Por várias vezes o ameaçou com armas de fogo

De janeiro a agosto de 1961, durante o governo de Jânio Quadros, o impulsivo Antonio Carlos combateu o messiânico presidente do olho torto. Lá na Câmara Federal, junto de Grün Moss, o ministro da Aeronáutica, ele começou a examinar, certa ocasião, o problema do asfaltamento das pistas de aviões em alguns municípios. Estava presente o temperamental Edílson de Melo Távora, engenheiro civil e deputado pelo Ceará. Aí, de súbito, Edílson encarou Toninho Malvadeza e fez a seguinte pergunta:

- Você quer brigar?

Toninho Malvadeza respondeu prontamente:

- Quero!

Sem perda de tempo, Edílson puxou o revólver, a fim de meter logo uma bala no Toninho, mas ao ver aquela loucura, o deputado Miguel de Calmon jogou-se em cima do cearense. Seguraram a fera e a bala ficou no revólver. Mais tarde, o deputado Adauto Lúcio Cardoso deu um conselho a Antonio Carlos Magalhães:

- Você é tão maluco quanto ele. Quando ele perguntou se você queria brigar, você deveria ter dito "não"!

Outra vez, também na Câmara Federal, o perigosíssimo Tenório Cavalcanti proferiu um discurso sobre trustes. Tenório criticava nesse discurso Clemente Mariani, ex-presidente do Banco do Brasil e que naquela época era ministro da Fazenda. Baiano como Mariani, Antonio Carlos o defendeu. Na tréplica, Tenório insinuou algumas coisas contra Toninho. Este não deixou a peteca cair:

- Vossa Excelência pode dizer de mim isto e mais coisas, mas na verdade o que Vossa Excelência é, mesmo, é um protetor do jogo e do lenocínio, porque é um ladrão.

Tenório Cavalcanti, "o homem da lurdinha e da capa preta", com várias mortes nas costas, sacou o revólver e berrou:

- Você vai morrer agora mesmo!

Todos os membros da Câmara Federal correram para impedir o assassinato. Segurando o microfone, em atitude de desafio, Toninho Malvadeza bramiu:

- Atira, seu filho-da-mãe!

Esmerino Arruda, líder do Partido Social Trabalhista, agarrou o revólver de Tenório, feroz alagoano de Palmeira dos Índios, acusado de ter assassinado, em agosto de 1953, o delegado de polícia Albino Imparato. Contido pelos seus colegas, Tenório babava de ódio. Ele assegurou que haveria de matar Antonio Carlos de qualquer maneira.

" SÓ NÃO ME AMA QUEM AINDA NÃO ME CONHECE "
ACM, ao completar 70 anos, em 4 de setembro de 1997

Líder da minoria na Câmara Federal, na época do governo Jânio Quadros, o advogado Pedro Aleixo morava no mesmo prédio de apartamentos de Toninho Malvadeza. O apartamento de Aleixo era quase pegado ao de Antonio Carlos e, por esse motivo, a fim de se resguardar, para a sua porta não receber nenhuma saraivada de balas da "lurdinha", isto é, da metralhadora de Tenório Cavalcanti, ele colocou o seu nome com letras bem grandes no alto da porta.

* Complemento da redação

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