Literatura, Política e Lupas "... No presídio político de Linhares, depois de os presos organizarem uma greve de fome de 15 dias por melhores condições, conseguimos montar uma biblioteca, além da assinatura de cinco jornais..." José Adão Pinto
POR JOSÉ ADÃO PINTO
Cego do olho direito e com baixa visão no esquerdo, tive difi- culdade de conseguir vaga nas escolas públicas, em Governador Valadares, Minas Gerais, onde passei minha infância. Nos anos 1950, não aceitavam alunos defi- cientes visuais. A primeira chance que tive de ingressar na sala de aula foi em uma escola simples, de "fundo de quintal", criada por dona Mercedes. Paciente, ela dedicava seu tempo a atender alunos com dificuldades físicas e motoras. Até hoje não me esqueço do esforço dessa educadora.
... Em casa, meu pai me incentivava a superar as limitações. Dizia que eu precisava adquirir conhecimento. Lia em voz alta literatura de cordel para mim, desde os meus 5 anos de idade, e foi assim que me ensinou o prazer de prestar atenção nos textos e a apreciar a literatura...
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José Adão Pinto desde pequeno nutria uma paixão por literatura, passando horas na biblioteca com sua lupa, lendo livros de Graciliano Ramos a Jean-Paul Sartre |
... A minha identificação com o universo das palavras cresceu quando um professor italiano, Paulo Zapp, chegou à cidade e construiu uma biblioteca, que levava o nome dele, na região central. Eu tinha 11 anos nessa época e fui conhecer o lugar. Ao perceber meu interesse, ele comprou para mim minha primeira lupa, para que eu pudesse iniciar a imersão nos livros... Com apoio das bibliotecárias Constância e Teresa, tive acesso às principais obras literárias...
Nessa biblioteca, li a obra completa de Érico Veríssimo, de Graciliano Ramos, de Jorge Amado e comecei a descobrir Jean- Paul Sartre com Os caminhos da liberdade... Foi deslumbrante. Rompi com a formação religiosa que tive até então... O meu interesse crescia de tal maneira, que saía da escola, levava a marmita na ferrovia da Cia. Vale do Rio Doce, onde meu pai trabalhava como guarda-freio, e seguia para a biblioteca. Eu ficava lá até as 21h, quando fechava...
... Depois das aulas com a professora Mercedes, consegui fazer o ginásio em um colégio presbiteriano. Nesse período, quatro pessoas foram fundamentais para que eu aprendesse a importância do estudo em grupo: meus amigos Davi, Ivanor, Mirian e Rosemeyre, que copiavam a matéria em meu caderno, para me auxiliar no processo de aprendizado. Até hoje este laço de amizade permanece...
... Daí, ingressei na militância política, aos 15 anos... Participei do movimento estudantil e minha vida ficou mais difícil. O colégio já não mais me aceitava, então, Dalila Couto, que havia montado uma escola, me concedeu uma bolsa de estudos em 1966, porque me propus a montar uma biblioteca no colégio. A experiência foi muito interessante... Eram duas salas de leitura em que a gente discutia textos. Isso me mostrou que ler não precisa ser uma ação solitária. Fiz campanhas para a doação de livros e, assim, envolvemos a participação de editoras e da comunidade. Foi praticamente um ano e meio de dedicação...
... Assim comecei a escrever os meus primeiros textos ao criar um jornal com meu amigo José William Sarandy. O artigo de iniciação foi sobre A necessidade da arte, de Ernest Fischer. Apesar do periódico só chegar até a terceira edição, foi uma forma importante de expressão da adolescência para a fase adulta...
... Fiz o Científico e curso de contabilidade, mas tive de entrar na clandestinidade, pois integrei a Corrente Revolucionária de Minas Gerais, da Ação Libertadora Nacional (ALN). Fiquei preso de 8 de abril de 1969 a 31 de agosto de 1974, mas, mesmo assim, não consegui me distanciar dos livros...
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Ex-bibliotecário, militante estudantil e livreiro, Adão lê de um a dois livros por semana, apesar das dificuldades com a visão |
... No presídio político de Linhares, depois de os presos organizarem uma greve de fome de 15 dias por melhores condições, conseguimos montar uma biblioteca, além da assinatura de cinco jornais, feita por familiares. Com isso, comecei a fazer a hemeroteca, ao recortar as notícias por assuntos, separadas por saquinhos de leite, que era o que tínhamos à mão... Fui o bibliotecário, por um período. Organizávamos também palestras... Para sobreviver a essa situação com todos os tipos de carências, percebi que não bastava estar vivo, mas precisava estar criando...
... Aos 28 anos, saí da prisão. Limpei vidro de carro, trabalhei como operário em fábrica de papel e como entregador de livro... Na hora de o cliente conferir a entrega, ainda dava dicas literárias, como das obras do romancista alemão Thomas Mann... Com essas iniciativas, que eram naturais para mim, em quatro meses consegui a promoção para vendedor, função que desempenhei até 1977...
... Então parti para vender livros em bares, em Belo Horizonte... Certa semana consegui vender 100 exemplares de Poemas do cárcere, de Ho Chi Minh, algo inédito... E os livros não mais saíram da minha vida. Montei uma banca de jornal próximo ao prédio de Ciências Sociais, da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), e dei um passo importante junto aos estudantes Antonio Roberto Bertelli e Javert Monteiro, quando montamos a Aldeia Global Editora, que publicou 18 títulos até 1980. O primeiro foi sobre a Unidade Operária contra o Fascismo, de Dimitrov, que rendeu três dias de prisão, porque ainda estávamos na Ditadura. Conseguíamos obter um conteúdo político com qualidade, era uma luta intelectual em que os livros eram as armas...
... Até 1982, gerenciei a Livraria Pax, que ficava na Praça 7, em Belo Horizonte... A leitura passou a ser uma necessidade pessoal. Montei o sebo Adão Livraria, no Edifício Arcanjo "Maleta", reduto famoso por sediar várias livrarias e bares freqüentados por intelectuais de esquerda... Trabalhar com o livro usado, principalmente na área de humanas, era uma descoberta diária. Uma das relíquias que tive foi uma edição do Oswaldo Aranha, sobre a estética, de 1920...
... Quando mudei para São Paulo, na época das Diretas Já, comecei a vender livros nas ruas, desde clássicos a livros de denúncias. Também me engajei na luta antimanicomial, porque vi muitos ex-companheiros enlouquecerem e também estive internado por um período, por causa da depressão... Conheci Franco Basaglia, que estava no Brasil. Ele ficou famoso por estabelecer a abolição dos hospitais psiquiátricos na Itália...
... Fui eleito representante de internos, familiares e entidades, na 2ª Conferência Nacional de Saúde Mental... Ajudei a formar o acervo de saúde mental do Centro de Documentação e Informação Científica (Cedic/PUC-SP)... E esta é uma luta que até hoje defendo...
... Em 1996, uma nova fase começou em minha carreira. Comecei a vender livros na Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo (FESPSP), por meio do contato com a professora Eliana Asche, especialista em Educação e Letras... O convívio com jovens universitários foi, e é ainda, muito importante na minha trajetória... Continuo sendo um leitor ávido. Leio pelo menos uma obra por semana. O livro é uma das formas mais completas de auxiliar o pensamento. Por ser um deficiente visual, percebo a necessidade de haver mais títulos em braile e com recursos sonoros, como a coleção A voz da academia. Continuo a desafiar as dificuldades, com minha lupa de 30º, e a descobrir e redescobrir grandes autores, desde Karl Marx a José Saramago..."
Depoimento colhido e editado por Sucena Shkrada Resk.
UMA HISTÓRIA DE LUTAS E SUPERAÇÃO
O mineiro José Adão Pinto, 61 anos, diz que os livros o ajudaram a superar as dificuldades. "O meu pai (adotivo) era ferroviário e me encontrou sobre a linha do trem, quando eu tinha pouco tempo de vida. Fiquei muito tempo exposto ao sol, o que queimou minhas retinas e casou a cegueira em meu olho direito e a baixa visão do esquerdo", explica. Apesar desse problema, até hoje ele lê de um a dois livros por semana e acompanha as notícias de jornais.
Ex-bibliotecário, militante estudantil e livreiro, Adão saiu de Governador Valadares e foi morar em São Paulo. Em 2000, Adão foi à Coroa Vermelha, na Bahia, para participar da Manifestação dos 500 anos. Houve um confronto com a polícia e ele acabou levando um chute na perna. Por isso, ficou internado por dois meses e descobriu um talento adormecido: o de artista plástico. "Comecei a desenhar e pintar figuras abstratas, como uma fuga para a dor". A distração resultou em centenas de obras em acrílico, tinta a óleo e à caneta, que ficam expostas na livraria da FESPSP. Quando perguntado como faz para distinguir as cores, devido à dificuldade visual, ele responde: "Se não consigo reconhecer a tinta, peço para alguém falar a cor para mim. É um aprendizado contínuo, como tive durante a infância, em relação à literatura", afirma o obstinado livreiro. |
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