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Guerra do Vietnã
O Massacre de My Lai
Durante a guerra do Vietnã, o ataque norte-americano contra a vila vietnamita deixou centenas de civis mortos e chamou a atenção da opinião pública mundial para as atrocidades que estavam sendo cometidas nesse conflito

Por Orivaldo Leme Biagi

Foto de Ronald L. Haeberle registra mulheres e crianças em My Lai, no Vietnã, pouco antes de soldados americanos atirarem e os matarem

As recentes denúncias de desrespeito aos direitos humanos feitas por prisioneiros iraquianos ou suspeitos de terrorismo, capturados pelos norte americanos durante as guerras do Afeganistão, do Iraque, além da "caçada" a Osama Bin Laden e seus seguidores, não é novidade. Durante a participação efetiva dos Estados Unidos na guerra do Vietnã (19591975), muitos vietnamitas foram agredidos covardemente - e o massacre de My Lai é o episódio mais significativo desses ataques.

Soldado americano em vilarejo vietnamita durante a guerra. Cerca de 60 mil soldados americanos morreram no Vietnã e mais de 300 mil ficaram feridos

A destruição da vila

Massacres eram constantes no Vietnã, tanto por parte das forças militares dos Estados Unidos e seus aliados sulvietnamitas quanto pelos guerrilheiros do Vietcongue e tropas do Vietnã do Norte - a guerra do Vietnã foi violentíssima em todos os sentidos. Como as forças de resistência aos Estados Unidos estavam intimamente ligadas à população sulvietnamita, em particular nas inúmeras aldeias do país, era difícil de separar esta população do guerrilheiro - e, na dúvida, muitas vezes aldeias inteiras eram bombardeadas com napalm e seus habitantes hostilizados. My Lai foi o mais contundente desses casos.

A Companhia C, Primeiro Batalhão, Vigési ma Infantaria, DécimaPrimeira Brigada, Divisão Americanal, entrou na vila de My Lai em 16 de março de 1968 e matou aproximadamente cen tenas de aldeões (347, segundo estimativas nor teamericanas, ou 504, de acordo com os dados vietnamitas), inclusive mulheres e crianças, sob o comando do tenente William L. Calley (1943). De acordo com os soldados que estavam em My Lai, moradores da vila foram reunidos em grupos e abatidos com fogos de armas automáticas, sendo que qualquer sobrevivente era, depois, alvejado.

Pouco mais de um ano depois do massacre, o exatirador de helicóptero Ronald Ridenhour (1946 1998), que foi informado do ataque por meio de testemunhos de vários soldados da Companhia C, enviou 30 cartas de sua casa, no Arizona, relatan do o que tinham exposto a ele - cartas enviadas para o presidente Richard Nixon (19131994), autorida des militares, senadores e congressistas. A maioria jamais respondeu suas cartas, com exceção do con gressista Morris Udall (19221988), que telefonou a Ridenhour prometendo fazer tudo a seu alcance para o esclarecimento do massacre. O exército iniciou as investigações em 23 de abril de 1969 e, em setembro, poucos dias antes de seu desligamento do exérci to, acusou o tenente Calley pelo assassinato de 109 "seres humanos orientais", número reduzido depois para 102. Esse fato foi pouco divulgado pela impren sa (o New York Times, em 8 de setembro, destacouo apenas no final da página 38) e o assunto parecia encerrado, até o repórter free lance Seymour Hersh (1937) retomar a questão.

Em 22 de outubro de 1969, um conhecido de Hersh, o advogado Geoff Cowan, informou que o exército procurava submeter um sujeito à corte mar cial, em segredo, pela morte de aproximadamente 75 civis sulvietnamitas. Dois dias e 25 telefonemas depois, Hersh descobriu que o número de civis era 109. Conseguiu cerca de US$ 1 mil do Fundo de Jornalismo de Investigação, voou para Fort Benning e, em 11 de novembro, entrevistou o tenente Calley.

Nixon, em sua campanha para presidência dos EUA, afirmava que iria promover a paz no Vietnã, mesmo que, para isso, tivesse de aumentar a dimensão da guerra. Ele pretendia apoiar os sulvietmanitas a defender seu território e a negociar com os nortistas

As imagens que chocaram o mundo

Com a matéria pronta, Hersh teve dificuldades de publicála - as revistas Life e Look a rejeitaram. As sim, ele voltouse a uma agência fundada por David Obst poucos meses antes em Washington e ainda pouco conhecida, a Dispach News Service. Obst telefo nou para cerca de 50 jornais oferecendo a matéria por US$ 100, e 36 jornais a publicaram - a primeira pu blicação aconteceu no dia 13 de novembro.

No mesmo dia, o New York Times, que começara a trabalhar na matéria seis dias antes, divulgou sua versão dos fatos. Mesmo assim, o assunto parecia que não ia estourar na mídia. Então apareceram as fotos do massacre, tiradas pelo fotógrafo do exército Ro nald L. Haeberle, que estivera em My Lai com Calley. As imagens foram decisivas na matéria, e My Lai transformouse em um trauma para o exército dos Estados Unidos e para todo o país, que tanto justificara suas ações no Sudeste Asiáti co para salvar aquele povo, e não para destruílo.

A matéria chocou a opinião pública mundial. O massacre de My Lai foi levantado por Hersh, um jornalista dentro dos Estados Unidos, que pôde assim ter uma distância suficiente para se impres sionar com os fatos, ao contrário dos seus colegas correspondentes na região, que viam massacres constantemente, sem mais se impressionar com eles, pelo menos a ponto de relatálos.

Uma das consequências do episódio de My Lai foi que a imprensa norteamericana considerou a guerra do Vietnã praticamente acabada, pois nada mais poderia justificála e, contandose que os soldados norteamericanos estavam sendo retirados no processo de "vietnamização" (substituição das forças norteamericanas pelo treinamento e armamento das tropas sulvietnamitas), o conflito estaria logo encerrado e as preocupa ções deveriam ser desviadas para as conversa ções de Paris, onde o destino da guerra estava sendo decidido diplomaticamente. A quantidade de tempo e espaço dedicado a ela começou a declinar. Mas a guerra não diminuíra.

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