INVASÕES FRANCESAS A França no Brasil Entre os séculos XVI e XVII, expedições francesas desembarcaram em território brasileiro para tentar colonizar a região. Interessados em expandir o comércio e fugir dos conflitos religiosos na Europa, os franceses estabeleceram-se no Rio de Janeiro e no Maranhão até serem expulsos pelos portugueses
POR RODRIGO GALLO
A França, quem diria, já tentou conquistar o Brasil. Pelo menos uma parte do território nacional. E, mais do que simplesmente tentar, conseguiu cumprir esse objetivo por um tempo: a esquadra francesa chegou a aportar na baía de Copacabana, no Rio de Janeiro, e no Maranhão, anos mais tarde, estabelecendo breves acampamentos e até mesmo fortificações na costa. No entanto, acabou sendo expulsa pelos portugueses, descontentes com a intromissão dos pretensos e novos conquistadores. Muitas partes do continente americano, aliás, já estiveram sob o domínio dos franceses, como o Canadá, o Caribe e as Guianas.
A tentativa de colonização francesa no continente não deu muito certo, pois eles acabaram sendo derrotados em muitas batalhas e foram enxotados de praticamente todos os lugares por onde passaram. No entanto, conseguiram estabelecer colônias em Quebec, no Canadá, e no norte da América do Sul, além de alguns países caribenhos, como Haiti. Mesmo no Brasil, onde as expedições malograram depois de pouco tempo, a França deixou marcas muito fortes na cultura nacional - até o início do século passado havia o costume de batizar empresas e estabelecimentos comerciais com palavras em francês, e não em inglês, como ocorre hoje.
A relação entre a França e os vizinhos europeus - Portugal e Espanha, sobretudo -, ficou muito tensa na época das grandes navegações. Nas Américas, os franceses compraram uma grande briga com espanhóis e portugueses, que chegaram aqui primeiro e não aceitaram perder suas terras para novos colonizadores europeus.
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A imagem acima mostra a primeira missa celebrada no Forte de Coligny, com a presença de Nicolas Durand de Villegagnon. O quadro de Benedito Calixto, à direita, retrata o padre Manuel da Nóbrega benzendo a esquadra de Estácio de Sá que vai combater os franceses
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O PLANEJAMENTO DA INVESTIDA
A primeira tentativa de expansão francesa no território brasileiro começou pouco mais de cinco décadas depois da chegada dos primeiros portugueses ao Brasil. E a razão era basicamente a mesma: montar um entreposto comercial na costa das Américas para facilitar o escoamento das mercadorias obtidas na região.
A campanha foi bem-planejada e começou oficialmente em 1554, quando um militar francês chamado Nicolas Durand de Villegagnon (1510-1571) realizou uma expedição secreta no Cabo Frio, no litoral do Rio de Janeiro, em busca de informações sobre os hábitos de Portugal na colônia, sobretudo em relação àquilo que dizia respeito à navegação, comércio e organização bélica. Era o princípio da elaboração do plano colonial. "Na viagem a Cabo Frio, em 1554, Villegagnon obteve informações sobre como montar uma base na Guanabara. Na volta, buscou financiamento para a expedição", conta o diplomata e escritor Vasco Mariz, conselheiro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
O ponto onde a futura colônia seria instalada localizava-se a cerca de 200 quilômetros dali, na baía de Guanabara. O local era perfeito, pois os portugueses raramente iam para lá por conta dos furiosos e frequentes ataques das populações indígenas daquelas terras, como os tupinambás e os tamoios. A ideia era que o local fosse transformado em uma grande base naval, com uma fortaleza com direito a torres altas, ameias e passadiços que permitissem a guarnição de um exército e da própria enseada.
De volta a Portugal, Villegagnon deu início aos preparativos para o grande desafio que viria seguir. Naquele mesmo ano, o almirante Gaspard de Coligny (1519-1572) ajudou na preparação dos últimos detalhes da expedição ao Brasil, que seria supervisionada pelo próprio militarespião Villegagnon.
Como poucos se aventuraram a ingressar voluntariamente nas fileiras francesas que ingressariam na incerta e misteriosa expedição, Villegagnon foi obrigado a percorrer algumas prisões ao norte da França para arregimentar um exército formado basicamente por criminosos e rebeldes - quem aceitasse participar dessa investida ganharia em troca a liberdade e o perdão dos crimes cometidos no passado.
OS FRANCESES APORTAM NO RIO
Com tudo pronto para cruzar o oceano Atlântico, as três embarcações francesas zarparam em 14 de agosto de 1555, mas de forma secreta: para todos os efeitos, os navios seguiriam até a costa da Guiné, e não ao Brasil. Esse ardil foi utilizado para não levantar suspeitas no embaixador português que vivia em Paris. "O almirante Coligny, principal figura entre esses protestantes, gozava então de favor junto ao rei, o qual concordou com a expedição, fornecendo-lhe três navios", relatam Jorge Caldeira, Flávio de Carvalho, Cláudio Marcondes e Sergio Goes de Paula, em Viagem pela História do Brasil.
A viagem, no entanto, não seguiu conforme o planejado. Ao circundar as ilhas Canárias, os navios foram violentamente alvejados pelos espanhóis que guardavam a costa. Com uma manobra de fuga bem-realizada, os franceses conseguiram fugir das artilharias inimigas e seguir o trajeto.
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O almirante Gaspard de Coligny (acima) ajudou a planejar a expedição ao Brasil
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Apesar desse contratempo no caminho, a viagem prosseguiu sem mais atrasos e prometia levar muitos lucros à França - e muitas dores de cabeça às autoridades de Portugal no Brasil. Villegagnon trouxe ao território brasileiro cerca de 600 pessoas, somando os soldados, escravos, um intérprete e sua pequena guarda pessoal. Assim, a França dava início ao processo de colonização que ficaria conhecido como França Antártica.
Segundo o frei Vicente do Salvador (1564-1635), um franciscano nordestino considerado o "pai da História do Brasil", o líder invasor descreveu o Rio de Janeiro como um braço de mar que entra em uma boca estreita e fácil de defender com artilharias. Este é um sinal claro do otimismo de Villegagnon, um homem muitas vezes chamado de aventureiro, outras de visionário (leia mais sobre ele no box Villegagnon, o injustiçado).
O religioso, em seu livro História do Brasil, conta que um dos principais atrativos para os franceses, além das possibilidades de ampliar o comércio, eram as terras férteis do Rio de Janeiro. Vasco Mariz, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, reforça que os objetivos primários da missão incluíam a construção de um forte para dar apoio ao comércio nos portos franceses e atacar embarcações espanholas e portuguesas vindas das Índias, carregadas de especiarias, e do Rio Prata, trazendo ouro, do Peru, e prata, da Bolívia.
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