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Ricardo Corrêa Coelho: França, a terra sem medo
O cientista social fala sobre as origens do povo francês, a influência da civilização gaulesa e a importância da comemoração do ano da França no Brasil para os dois países

Por Rodrigo Gallo

IMAGEM CEDIDA PELA EDItORA CONtEXtO

Até hoje, os franceses se declaram herdeiros diretos dos gauleses, a antiga civilização europeia que desafiou Roma e formou a maior resistência militar à expansão do general Júlio César. E esses ideais de bravura e independência fizeram parte da essência do povo da França séculos depois, durante a Revolução Francesa, criando um sentimento nacionalista muito forte - que dura até hoje.

É isso o que explica o cientista social Ricardo Corrêa Coelho, doutor em Ciências Políticas pela Universidade de São Paulo (USP) e autor do livro Os franceses. Ele, que viveu na França no início da década de 1990, explica que os gauleses foram escolhidos para simbolizar o país como um mito de fundação, mas que a ocupação romana e o feudalismo exerceram muito mais influência para a formação do Estado moderno.

Segundo Coelho, franceses e brasileiros têm muito mais semelhanças do que aparentam, embora poucos saibam. A Inconfidência Mineira foi estimulada pelos mesmos princípios que motivaram a Revolução Francesa, Tiradentes foi enforcado no mesmo ano da queda da prisão da Bastilha e Dom João VI só fugiu de Portugal com destino ao Rio de Janeiro por conta da perseguição de Napoleão.

ARQUIVO CIÊNCIA E VIDA ARQUIVO CIÊNCIA E VIDA
Acima, à esquerda, quadro de um típico sans-culotte durante a Revolução Francesa, por Louis-Léopold Boilly. À direita, o corpo de Tiradentes, mártir da Inconfidência Mineira, em tela de Pedro Américo. Ambos os movimentos teriam os mesmos princípios libertários

Com tudo isso, seria impossível negar que franceses e brasileiros são no mínimo "primos", tanto que 2009 está sendo considerado o ano da França no Brasil. Dessa parceria devem surgir bons resultados para nós, sobretudo do ponto de vista da tecnologia nuclear. O primeiro passo foi a assinatura de um acordo, em dezembro, que prevê a construção de submarinos com propulsão nuclear por aqui, numa espécie de intercâmbio de informações bélicas.

Ricardo Corrêa Coelho acredita que, com a expansão da economia nacional, as relações entre França e Brasil devem se estreitar ainda mais. Bom para eles, que ganham um aliado em ascensão, e bom para nós, que poderemos aprender um pouco mais sobre esse magnífico e histórico país.

Leituras da História: O senhor comenta no início do livro Os franceses, que o povo da França escolheu a ocupação dos gauleses como sendo o marco zero da história do país. Por que essa escolha, sendo que havia povoamentos anteriores na região?
Ricardo Corrêa Coelho: Não se pode ter respostas conclusivas em relação a isso, mas apenas hipóteses. A minha é que os gauleses foram um povo importante na época da ocupação romana na região. Então, seria interessante para justificar o início da França. A Gália era um território onde hoje se encontra a França, embora chegasse também até a Bélgica e ao norte da Itália, na Antiguidade. Aquela área foi a que enfrentou a maior ocupação dos romanos e os gauleses lutaram com muita bravura. Então, há questões de heroísmo, coragem e independência na raiz daquela civilização, ou seja, representam um mito muito importante para os franceses. Isso serve para justificarem que se diferem dos demais europeus. Esse fato também os valoriza como um povo com personalidade forte e muito própria.

Leituras da História: Mas os franceses ressaltam essas características no dia a dia até hoje? Eles falam com orgulho dessa origem gaulesa?
Ricardo Corrêa Coelho: Não, eles não falam sobre isso nas ruas. Mas nas escolas se ensina que seus ancestrais foram os gauleses. É como ocorre no Brasil, mas no que diz respeito aos portugueses. Aqui, considera-se que a origem do país foi a colonização de Portugal, que começou em 1500. Mas isso não leva em consideração a história dessas terras antes da chegada dos portugueses, quando só havia índios, como os tupinambás, por exemplo. Contamos nossa história a partir da época da colônia e dizemos que os portugueses construíram uma nova civilização.

Leituras da História: Essa "seleção" de um mito fundador mais interessante, deixando de lado outras populações anteriores, existe em todos os povos?
Ricardo Corrêa Coelho: Sim. Todos os povos resolvem assuntos referentes às civilizações muito antigas de forma bem simplificada. Cada povo conta ideologicamente a sua própria história, mas sempre com base em elementos factuais. Os gauleses de fato existiram, pois há inúmeros relatos históricos sobre eles. Então não é uma invenção. Os mitos têm um pé na realidade e outro na ficção.

OS GAULESES EM ROMA, DE FRANÇOIS GUIZOt,  e ARQUIV
O quadro de François Guizot, à esquerda, mostra gauleses em Roma. Acima, mapa com tribos gaulesas em Céltica (atual França)

Leituras da História: Em que medida os habitantes que fizeram as pinturas da gruta de Lascaux influenciaram as populações posteriores da região? Afinal, eles são anteriores aos gauleses.
Ricardo Corrêa Coelho: De forma nenhuma. Essa é a grande separação da história da pré-história. Quem pintou as grutas, assim como quem ergueu os menires da Bretanha e quem fez o Stonehenge, a magnífica construção de pedra na Inglaterra, pertencia à pré-história da humanidade. Nem ao menos sabemos quem eram ao certo. De qualquer forma, essas populações representam marcos importantes da passagem do homem na terra. Não sabemos interpretar essas pinturas e os menires, e nem sabemos quem eram aqueles povos. Mas é o nosso elo perdido, podemos dizer, pois não podemos denominá-los. Os desenhos pictóricos de Lascaux mostram que eram registros cotidianos de um povo de caçadores, e só os testes com carbono 14 nos dão a precisão exata das pinturas. Não se pode fazer ligação alguma daquele povo com nenhuma outra civilização posterior. Qualquer tentativa de vínculo é temerária e resultado da imaginação.

ARQUIVO CIÊNCIA E VIDA
O que sabemos sobre os gauleses vem de pesquisas de historiadores antigos, como Heródoto (busto)

Leituras da História: Como surgiram as primeiras cidades da região que hoje corresponde à França? Elas foram erguidas pelos gauleses?
Ricardo Corrêa Coelho: Não, pois os gauleses viviam em aldeias, não em cidades. Esse conceito de cidade partiu de civilizações mais desenvolvidas, mais complexas. Uma das primeiras cidades na região da França é Marselha, fundada por gregos. Outra cidade importante é Paris, que se chamava Lutécia e foi fundada por romanos. Portanto, as primeiras cidades francesas são, na realidade, formações greco-romanas.
Nota da redação: A cidade de Lutécia, atualmente chamada de Paris, foi fundada por Roma em 52 a.C., às margens do rio Sena. O nome vem do latim e significa lama, em referência aos constantes alagamentos na região decorrentes do transbordo do Sena. Marselha foi fundada pelos gregos muito antes, por volta do ano 800 a.C., com o nome de Massalía, para servir como porto comercial.

Leituras da História: Gauleses e celtas são exatamente o mesmo povo?
Ricardo Corrêa Coelho: Gaulês é um celta, mas nem todo celta é gaulês, pois era um povo maior. Gaulês é o habitante de um território menor, a Gália, enquanto os celtas ocupavam uma região maior. Mal comparando, é como dizer ibéricos, que são espanhóis e portugueses. No entanto, português só é português e espanhol só é espanhol. Ao falar dos gauleses como sendo os fundadores da França, estamos falando de um povo específico dentro do tronco celta. E foi escolhido pela figura de Vercingentorix, um grande mito de resistência daquele povo em um período difícil em toda a região.

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