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história dos índios
Xingu - Um paraíso sob ameaça
Na década de 1940, os irmãos Villas Bôas se disfarçaram de sertanejos e viajaram ao Mato Grosso para estudar a população indígena local. Anos mais tarde, eles tiveram a iniciativa de fundar o Parque Indígena do Xingu, ajudaram a preservar parte das etnias e, por isso, foram indicados duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz. Hoje, apesar de o Xingu continuar sendo um oásis quase intocado, a região tem si

Por Sucena Shkrada Resk

Arquivo Família Villas Bôas
Cláudio e Orlando Villas Bôas com um índio do alto Xingu, na década de 1960

Arquivo Família Villas Bôas
Orlando Villas Bôas com três índios Caiapó, em 1956. À direita de Orlando está Raoni Metuktire, líder dos caiapós, conhecido internacionalmente por sua luta em defesa da floresta amazônica e dos povos indígenas

A criação do primeiro parque indígena brasileiro, o Parque Indígena do Xingu, em 1961, no Mato Grosso, foi possível graças à mobilização iniciada praticamente duas décadas antes pelos irmãos Leonardo, Cláudio e Orlando Villas Bôas. Anônimos e disfarçados de sertanejos, esses paulistas de classe média se enveredaram na expedição Roncador-Xingu, organizada em 1943 pelo governo de Getúlio Vargas. A campanha também ficou conhecida como “Marcha para o Oeste” e tinha como objetivo a ocupação do interior do Brasil.

Em um primeiro momento, os três irmãos candidataram-se para participar da missão, mas foram impedidos pelos organizadores, pois se tratavam nitidamente de pesquisadores e não de homens que queriam tentar uma vida nova em terras desocupadas. Por isso, os Villas Bôas deixaram as barbas cresceram, vestiram-se com roupas simples e fingiram ser analfabetos para conseguirem autorização para viajar com a expedição. Foi assim que começou a missão de Leonardo, Cláudio e Orlando que, mais tarde, com a participação do antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997), resultou na demarcação do parque indígena.

Uma vida dedicada aos índios

Os irmãos Villas Bôas, indicados duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz, receberam elogios e críticas negativas pela atuação no Xingu. Marina e Noel, viúva e filho de Orlando, falam sobre as anotações deixadas pelo sertanista e o projeto de criar o Instituto Orlando Villas Bôas

Orlando (1916-2002) e Cláudio Villas Bôas (1918-1998) estiveram à frente da direção do Parque Indígena do Xingu até 1975. Apesar de os irmãos terem sido reconhecidos mundialmente pelo seu trabalho, que os levou a serem indicados por duas vezes ao Prêmio Nobel da Paz, eles também receberam muitas críticas. Ao mesmo tempo em que os Villas Bôas foram elogiados pela preservação dos povos indígenas e pela iniciativa de organizar um programa de saúde pública, como vacinações e assistência médica para os índios, que morriam de gripe, disenterias e surtos de sarampo na década de 1950, devido ao contato com os brancos, os irmãos foram duramente criticados por terem fornecido ferramentas e bens materiais aos índios e interferirem no poder interno das aldeias. Segundo a Funai (Fundação Nacional do Índio, instituída em 1967, em substituição ao Serviço de Proteção ao Índio – SPI), isso teria contribuído para diminuir a produção artesanal tradicional e a degradação da cultura indígena.

Arquivo Família Villas Bôas

A vida dos Villas Bôas era tão atrelada ao Xingu que, nos anos 1960, quando Orlando conheceu sua mulher, a enfermeira Marina Lopes de Lima Villas Bôas, atualmente com 71 anos, logo a levou para trabalhar no parque ao seu lado. Em 1963, Marina seguiu para o Xingu e foi a primeira enfermeira a atuar na saúde local. "O Xingu foi a extensão da minha casa. A sociedade e o governo precisam avaliar o quanto os índios têm a nos ensinar, quanto à estrutura social e visão de mundo", diz ela.

Noel Villas Boas, de 33 anos, filho de Orlando, conta que o pai guardava seis cadernos de diários (preservados postumamente), que começou a escrever em 1943, ano da primeira expedição ao Xingu. Parte dessas anotações virou livros, inclusive o póstumo Orlando Villas Bôasexpedições, reflexões e registros, organizado por Orlando Villas Bôas Filho, em 2006. 

No acervo preservado pela família são mantidas relíquias, como correspondências entre o sertanista e o marechal Rondon, os antropólogos Darcy Ribeiro e Claude Lévi-Strauss, e centenas de fotos e registros. "Estamos no processo de criação do Instituto Orlando Villas Bôas, para tornar esse material disponível ao público. Sobre a expedição Roncador-Xingu praticamente não há material similar no Brasil, é um hiato de 20 anos na história brasileira", afirma Noel, que visita anualmente o Parque Indígena do Xingu.


Arquivo Família Villas Bôas
Os três irmãos Villas Bôas reunidos em foto da década de 1950. da esquerda para a direita: Leonardo, Orlando e Cláudio

A chegada dos homens brancos

Antes de os irmãos Villas Bôas se aventurarem no interior do País com a expedição da década de 1940, a região do Xingu já havia sofrido intervenções de homens brancos. Um dos primeiros a pisar naquelas terras foi o desenhista e explorador alemão Karl von den Steinen (1855-1929) que, em 1884, acompanhado do geógrafo Otto Claus, partiu de Cuiabá e desceu o rio Xingu, estudou os índios e classificou os Bakairi como originários dos Caraíbas e não dos Tupi-Guaranis, como se acreditava no século XIX.

A expedição Roncador-Xingu, de 1944, serviu como divisor de águas para a adoção de uma política indigenista

De acordo com Orlando Villas Bôas, no livro Orlando Villas Bôas: expedições, reflexões e registros, os povos contatados na época da viagem de Steinen foram os Bakairi, Juruna, Suyá, Waurá e Trumai. Já em 1887, Steinen foi à região acompanhado pelo antropólogo Paul Ehrenreich (1855-1914) e o geógrafo Peter Vogel. Dessa vez, os europeus aproximaram-se dos índios Aweti, Kalapalo, Kamayurá, Mehináku e Yawalapiti.

Arquivo Família Villas Bôas
Rei Leopoldo iii (1901- 1983), da Bélgica, joga xadrez com Cláudio Villas Bôas no Baixo Xingu, em 1967. O rei pretendia passar três dias no parque, mas acabou fi cando quase dois meses

Outras expedições viriam a acontecer somente a partir de 1896, como as organizadas pelos exploradores Hermann Meyer e Henri-Anatole Coudreau (1859-1899), representando o governo do Pará. Em 1920, o general Ramiro Noronha iniciou a exploração do rio Kuluene (afluente do Xingu), após fundar o Posto Indígena Simões Lopes (Bakairi), no rio Paranatinga.

No período entre o final do século XIX e início do século XX, é possível constatar a presença considerável de estrangeiros alemães, franceses, americanos e italianos, sendo que alguns acabaram sendo mortos em confronto com índios. Em 1944, a expedição Roncador-Xingu, da qual participaram os Villas Bôas, tornou-se um divisor de águas para a adoção de uma política indigenista, que surgiria anos mais tarde.

Quando os irmãos Villas Bôas chegaram ao Mato Grosso, os índios que habitavam a região estavam sendo dizimados

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