biografia Maria Leopoldina, uma estrangeira entre estranhos A jovem de Habsburgo foi usada como moeda de troca no casamento com dom Pedro I, príncipe do já decadente império português. No Rio de Janeiro, a garota educada na Áustria deparou-se com uma corte pouco sofisticada, teve de conviver com as inúmeras traições do marido e até falta de dinheiro
POR OLDAIR DE OLIVEIRA
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| Retrato de Maria Leopoldina pintado por Josef Kreutzinger (1757-1829) |
Culta, refinada, inteligente, poliglota, amante das ciências, estrategista e dona de um sobrenome de peso. Esta foi Leopoldina Josefa Carolina Francisca Fernanda Beatriz de Habsburgo-Lorena, ou simplesmente Maria Leopoldina, como é chamada em terras brasileiras. Importante figura da história nacional, ela desembarcou no porto do Rio de Janeiro com uma importante missão: tornar-se esposa de dom Pedro I. Mal sabia que, em um momento histórico decisivo, viria a se tornar também defensora do processo de independência do País e, posteriormente, primeira imperatriz do Brasil.
A arquiduquesa nasceu em 22 de janeiro de 1797, um período agitado, próximo à independência das 13 Colônias inglesas da América (1776), da Revolução Francesa (1789) e da ascensão de Napoleão ao poder, na França (1799). Era filha de Maria Teresa (1772-1807), princesa das duas Sicílias, e de Francisco II (1768-1835), imperador do Sacro-Império Romano Germânico – que com a desintegração do território, em 1806, tornou-se Francisco I, da Áustria.
Apesar de todas as qualidades já mencionadas, Leopoldina era, acima de tudo, mulher e, como pertencente à nobreza, não lhe restava outro papel a não ser servir de moeda de troca entre as realezas da época. Como filha de um dos governantes mais poderosos da Europa, conhecia bem a sua função e sabia que as uniões arranjadas eram fundamentais para permitir o equilíbrio entre forças distintas, fosse no aspecto familiar ou de Estado. Por isso, foi muito bem-preparada, sendo instruída nas ciências e nas artes e nos idiomas francês, inglês e italiano, além de latim. Sabia que era um valioso instrumento a ser usado em favor da pátria e não via nisso um ônus, e sim um caminho natural, ao qual jamais ousou se opor.
Não lhe restava outro papel a não ser servir de moeda de troca entre as realezas da época |
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| Quadro da pintora brasileira Georgina de Albuquerque: Maria Leopoldina, Imperatriz Consorte do Brasil, durante reunião com o Conselho de Ministros, atuando como Regente do Império, em 1822 |
Por esse motivo, a arquiduquesa não estranhou quando, em 11 de março de 1810, assistiu à partida de Maria Luísa, sua irmã mais velha, para a França, após casar-se por meio de procuração com Napoleão. Foi com as correspondências que trocou com Maria Luísa que a jovem Leopoldina, já órfã de mãe, começou a entender o destino de uma Habsburgo. Seis anos depois, foi a própria Leopoldina, então com 19 anos, quem passou pelo mesmo processo de noivado por motivos políticos. O noivo em questão, o português dom Pedro de Alcântara de Bragança, morava com a família no Brasil, em terras muito distantes da Europa. Maria Leopoldina estava ciente de que, caso a união se consumasse, viajaria durante meses pelo Oceano Atlântico e se depararia com mudanças profundas de cenário e cultura. Mas o que seria tudo isso ante os relevantes interesses de Portugal e Áustria para que aquela união se realizasse? Ela bem sabia, conforme deixou registrado, que era “do sexo que tinha de ceder”.
Os trâmites de Viena
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| Acima, Maria Luísa, irmã de Leopoldina, casada com Napoleão Bonaparte, segura o filho Napoleão II |
O casamento de dom Pedro com Leopoldina começou a se tornar um projeto viável em 1815, durante o Congresso de Viena, na Áustria. Ali, embaixadores de grandes potências europeias discutiam a organização da Europa pós-Napoleão e buscavam não só um equilíbrio entre as nações como também a restauração dos tronos às famílias reais derrotadas pelo francês. Para Portugal, o principal objetivo era diminuir a influência e pressão que a Inglaterra exercia sobre si. E isso só seria possível por meio da formação de alianças com outras potências. Inicialmente, buscou-se uma aproximação com a Rússia, que já havia se aliado com a Espanha. A Áustria foi a segunda opção dos governantes lusitanos, que sabiam que o país tinha grandes interesses comerciais no vasto império português.
Mas esse não era o único atrativo para os austríacos, que entendiam que o fortalecimento da monarquia dos Bragança impediria uma aventura republicana nos domínios lusos na América, com já havia acontecido nos Estados Unidos. Cientes de que a união entre Áustria e Portugal seria vantajosa, representantes desses países passaram a planejar o casamento de seus príncipes. Pedro José Joaquim Vito de Meneses Coutinho, então Marquês de Marialva, foi fundamental na concretização dessas negociações. Isso porque o acordo só foi aceito em função de o Marquês ter assegurado aos austríacos que a família portuguesa voltaria à sua pátria assim que os conflitos de independência que ocorriam no Brasil chegassem ao fim, o que deveria acontecer em cerca de dois anos.
Enganando Leopoldina
Para seduzir a arquiduquesa, o Marquês de Marialva tratou de esconder os defeitos da família real portuguesa e ressaltar as inúmeras qualidades de dom Pedro. Não disse, por exemplo, que ele era epiléptico, que não tinha bons modos e nem que era um tipo de Don Juan dos trópicos. E, para provar que o herdeiro de dom João VI era dono de boa aparência, o marquês entregou-lhe um medalhão com o rosto do príncipe, que, por sinal, agradou. Em uma carta à Maria Luísa, Leopoldina escreveu que o seu amado era tão lindo quanto um Adônis, referindo-se ao personagem da mitologia grega dotado de extrema beleza. Para quem não se achava bela como as irmãs e ainda tinha problemas com a balança, a oportunidade parecia uma dádiva divina e irrecusável.
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Pintura de Jean-Baptiste Debret ilustra a chegada de Maria Leopoldina ao Rio de Janeiro, em 1817, poucas horas antes do seu casamento arranjado com Pedro I |
Dessa forma, o contrato de casamento foi assinado em 29 de novembro de 1816 e a cerimônia religiosa realizada em dois momentos: em Viena, em 13 de maio de 1817 (onde dom Pedro não compareceu e foi representado pelo arquiduque Carlos Luís), e em 6 de novembro de 1817, um dia após a chegada ao Rio de Janeiro, desta vez com a presença do noivo. Entre uma celebração e outra, no entanto, muitos acontecimentos mudariam, aos poucos, a opinião de Leopoldina sobre o paraíso terrestre que estava prestes a conhecer.
A chegada à corte caipira
Foram cinco meses de viagem para chegar ao Brasil, com direito a uma parada estratégica na Itália, onde esteve com Maria Luísa. Leopoldina jamais voltaria a vê-la, apesar de expresso desejo de que isso voltasse a acontecer. Durante o trajeto, alguns contratempos, como uma revolução em Pernambuco, quase fizeram Leopoldina retornar à Europa.
Além das volumosas bagagens, a arquiduquesa trouxe consigo importantes artistas e intelectuais, como os botânicos Karl Friedrich Phillip von Martius e Johann Baptiste von Spix, o naturalista Emanuel Pohl e o pintor Thomas Ender. Já em terra firme, Leopoldina descobriria uma cidade suja, uma corte caipira e deselegante e uma população de hábitos esquisitos e anti-higiênicos, em que se comia com as mãos e as mulheres, sem nenhum pudor, escarravam em público. A própria Leopoldina, para não se sentir constrangida perante sua nova família, abriu mão dos talheres e passou a usar os dedos como garfo.
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