Onde há tristeza, que eu leve a alegria POR STEFANO CATARINELLI
“... Apesar de tudo, as crianças são sempre ótimas. Mesmo no sofrimento, esboçavam sorrisos diante de nossas apresentações. O que tiro de lição de tudo isso é que ninguém tem de lamentar, mas tem de ser feliz...”
Stefano Catarinelli
“A transformação dos meus caminhos de vida começou em 1996, quando criei com um grupo de companheiros o projeto Coringa Sem Fronteira. A ideia foi amadurecida ao observar trabalhos voluntários de artistas circenses espanhóis, do Palhaços Sem Fronteiras, que iam a países devastados por guerras e conflitos étnicos para levar um pouco de alegria a essas pessoas. Então decidimos que nos períodos do inverno europeu partiríamos para essa experiência. A primeira delas, de 1996 a 1998, foi na região de Chiapas, no México: uma área montanhosa acima de 2 mil metros de altitude, com densas florestas, e que tem o urânio, uma riqueza cobiçada por muitos...
... Fomos ao encontro das comunidades indígenas, que ficam concentradas na selva perto da fronteira com a Guatemala. É algo difícil de esquecer. Em uma das ocasiões, éramos seis italianos e quatro artistas mexicanos. Apresentamos espetáculos a essa plateia e, no final, um dos artistas locais nos deixou emocionado, porque se dirigiu ao público e disse que cada pessoa que estava lá não estava sozinha, havia uma corrente em solidariedade a elas. Todo mundo gritava como se fosse uma manifestação de sobrevivência.
Afinal, viviam sob uma guerra psicológica. Cada comunidade indígena, que queria ficar a favor do subcomandante Marcos, do movimento Zapatista, sofria impacto psicológico com a presença de militares.
A cada dia dormíamos em uma comunidade. É uma vivência completamente diferente. Percebi alguns traços peculiares da cultura. Um deles é que as mulheres se vestem sempre com o mesmo figurino de cor azul ou rosa, e se casam muito jovens, a partir dos 15 anos. Elas ficam afastadas e submissas e os homens têm a voz de comando.
A carência alimentar também era grande. Comiam arroz, feijão e tacos praticamente todos os dias, por falta de outras opções. A comunidade estava cercada e passava clandestinamente pelas fronteiras impostas pelo poder vigente, à noite. O subcomandante Marcos colocou um observador internacional em cada comunidade, como uma forma de proteção contra possíveis ataques. A ideia é que o mundo ficasse atento ao que estava acontecendo por lá.
VOLUNTARIADO SEM FRONTEIRAS
O artista circense italiano Stefano Catarinelli, 45 anos, da cidade de Foligno, na região central da Itália, criou o grupo Coringa Sem Fronteira (www.giullarideldiavolo.com ou www.giullarisenzafrontiere.it), em 1996, e resolveu deixar de lado o diploma de geólogo para se empenhar no ofício de levar alegria às pessoas carentes. Durante metade do ano, Stefano trabalha com seu grupo, que varia de 5 a 20 pessoas, em praças italianas e da Europa. No inverno europeu, parte com alguns companheiros para as viagens voluntárias pelo mundo, cujo roteiro inclui países devastados por guerras. Cada um paga sua própria passagem para essas empreitadas. A inspiração, segundo ele, partiu do trabalho desenvolvido pelo grupo espanhol circense liderado por Tortel Poltrona.
Há nove anos Stefano é casado com a bailarina mineira Rose Zambezzi, que também integra a trupe. Ela já excursionou com o cantor Milton Nascimento, com o evento Missa dos Quilombos. Rose diz que descobriu com o Coringa Sem Fronteira e com a arte do malabares outra dimensão da arte: “Entrei de cabeça, pois a meta é ir ao encontro de quem não tem acesso fácil à cultura”, conta a mineira. |
Moçambique foi o nosso próximo destino, em 1999. Por lá, ficamos durante dois meses. Queríamos encontrar a população pós-guerra civil. Morreram muitas pessoas e nos deparamos com vários órfãos. Chegamos a visitar dez orfanatos, vimos crianças carentes, mas há uma hora que a gente tem de ir embora. Uma cena que mexe com a gente.
A ARTE DE FAZER RIR
A técnica do clown utilizada por Stefano é universal. Segundo ele, uma chave para entrar em qualquer lugar e compartilhar a vivência com todo mundo é a capacidade de rir de si mesmo e do outro. Para isso, utiliza como instrumentos as brincadeiras, o malabarismo e a mágica. Os espetáculos duram, no mínimo, uma hora. Cada artista do grupo forma pequenas equipes, que desenvolvem atuações independentes e interagem com o público.
Ao todo, o grupo já visitou 14 países. No Brasil, excursionou por duas vezes. A primeira foi à Bahia, em 2005, quando se apresentou em uma cadeia e em uma das maiores áreas de lixões do País, em Itabuna. A segunda aconteceu neste ano, em 2009, e o destino foi o Pará, onde tiveram a oportunidade de apresentar sua arte a comunidades tradicionais, que ficam horas distantes de centros urbanos. |
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A técnica de entretenimento utilizada por Stefano, que envolve malabarismo e mágica, ajuda crianças carentes a esquecerem um pouco do sofrimento cotidiano |
Nos campos de refugiados, depois de seis anos de guerra, a situação era também muito complexa. As crianças só viam pai e mãe tristes, fugindo. Estavam alojadas em barracas militares da Organização das Nações Unidas (ONU). Vimos muita pobreza, pessoas nas ruas vestindo roupas surradas, esgoto a céu aberto e casos de malária. Diante disso, cada um do grupo ajuda ao outro para não cair o humor diante de toda tristeza.
Em 2001, fomos a um dos locais mais tensos do planeta, na ex-Iugoslávia. Foram somente 20 dias, pois era impossível ficar mais por causa das restrições de entrada. Passamos por quatro barreiras com cerca elétrica. O primeiro impacto foi que todas as casas tinham buracos de balas em Sarajevo. Ficávamos impressionados com as histórias que ouvíamos de sobreviventes.
Antes, todo mundo vivia junto, sem se importar com as religiões diferentes. Cada cidade tinha uma igreja e uma mesquita. Com a guerra, eles se dizimaram. Muitas mulheres muçulmanas sofreram agressões sexuais. Quem parecia uma pessoa normal, tornou-se brutal. Muçulmanos colocavam a cabeça dos adversários nas pontas de lança.
Fazíamos o espetáculo com medo, porque todo mundo estava estressado e armado. Fomos a uma praça treinar, para mostrar que não éramos inimigos. Tudo era muito difícil.
Mais uma experiência signi ficativa ocorreu durante dois meses, em Laos, no Camboja, em 2007. Por lá, vimos crianças e adultos mutilados. As minas terrestres de plásticos ainda são muitas e difíceis de detectar. Nesse cenário, encontramos cirurgiões que auxiliavam as vítimas. Fomos a hospitais e a campos de refugiados. Estima-se que tenham morrido por volta de 4 milhões de pessoas.
Apesar de tudo, as crianças são sempre ótimas. Mesmo no sofrimento, esboçavam sorrisos diante de nossas apresentações. O que tiro de lição de tudo isso é que ninguém tem de lamentar, mas tem de ser feliz, pois há coisa muito pior. Hoje eu quero ser feliz, sim, sem haver, de fato, felicidade.”
Depoimento coletado e editado pela jornalista Sucena Shkrada Resk.
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