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A polêmica sobre o descobrimento
O descobrimento do Brasil
Uma análise dos principais documentos sobre a descoberta do país, como as cartas de pero Vaz de caminha e mestre João e o registro conhecido como relação do piloto Anônimo, ajuda a elucidar uma dúvida que há muito tempo ocupa a cabeça dos historiadores: afinal, cabral sabia ou não aonde ia?

MUsEU NACIONAl
O desembarque de Cabral em Porto Seguro, por Oscar Pereira da Silva

Todos os anos, por volta do dia 22 de abril, volta à tona uma famo- sa discussão sobre um importante mistério da nossa História: seria o descobrimento do Brasil fruto de uma casualidade ou este faria parte de um projeto intencional do império português? Independen- temente do grau de importância que esta questão tenha no contexto da coloni- zação portuguesa na América, é sempre instigante para o historiador remexer no que parece adormecido.

Provavelmente, a quantidade e conteúdo dos documentos que atualmente estão à disposição dos historiadores que tratam do descobrimento não dispõem de informações suficientes, que evidenciem de forma inquestionável uma ver- dade relacionada com o dito episódio. Entretanto, os documentos existentes proporcionaram, ao longo dos anos, o surgimento dessas duas versões, e o nosso objetivo é reabri-los e instigar possíveis conclusões.

 

O QUE RESISTIU AO FOGO DE LISBOA
Em 1º de novembro de 1775, ocorreu em Lisboa um grande terremoto seguido por um incêndio. Essas duas catástrofes causaram a destruição de importantes arquivos, provo- cando com o tempo uma série de especu- lações sobre os conteúdos dos documentos estragados. Para sorte da História, alguns papéis escaparam e, dentre eles, alguns rela- cionados com o nosso descobrimento. Hoje, esses registros são as únicas e mais impor- tantes fontes de análise e argumentação tanto daqueles que defendem a casualidade quanto a intencionalidade em relação à chegada dos portugueses ao Brasil. Dentre os documentos que se relacionam diretamente com o desco- brimento, três são considerados essenciais: a carta de Pero Vaz de Caminha, a carta de Mestre João e o registro conhecido como a Relação do Piloto Anônimo.

JEAN COUSIN
emérito representante francês dentre os precursores de cabral, Jean cousin foi um competente navegador e valoroso soldado. membro da escola de navegação fundada na cidade francesa de dieppe, cousin teria sido o principal discípulo do padre desce- liers, grande cartógrafo da época. A viagem de cousin, como quase todas da época, fez parte de um projeto de mercadores que buscavam a exploração do oceano Atlânti- co, em 1488.

A história da expedição comandada pelo navegador francês foi estudada com maiores detalhes no século XVIIIiii pelo historiador Ddesmarquets e retomada no século passado pelo historiador Ppaul Ggaffarel (1843-1920). Eentre os escritos de Gaffarel a descrição da viagem de Cousin, em que o navegador, na altura dos Açores, foi arrastado para oeste por uma corrente marítima e aportou em uma terra desconhecida (o Brasil) junto à embocadura de um imenso rio (o Amazonas).

ARQUIVO CIÊNCIA E VIDA
A carta de Pero Vaz de Caminha (acima) não deixa claro se a viagem foi intencional, embora o escritor tenha registrado que Deus não os enviou ao País por acaso

A veracidade da viagem de Ccousin, descrita pelo eminente historiador, não resiste, entretanto, a uma pesquisa mais apurada. Segundo o próprio Ggaffarel, toda a documentação da expedição foi destruída em 1694, em um incêndio ocorrido em Ddieppe. Sem os documentos, como conseguiu descrever tão minuciosamente a viagem? A semelhança entre a viagem de Ccousin com a de Ccabral levantou a suspeita de um possível plágio com o puro intuito de enaltecer o orgulho nacional francês.

PARA ELES, TUDO FOI POR ACASO
Os primeiros a se posicionarem em rela- ção ao descobrimento desintencional do Brasil foram os cronistas portugueses do século XVI. Para esses estu- diosos lusitanos, o descobrimento do Brasil não passou de uma obra do acaso, fruto de um desvio de rota impulsionado por fatores ex- ternos. Dentre os defensores dessa tese encontravam-se os eminentes historiadores: Fernão Lopes de Castanheda (1500-1559), João de Barros (1496-1570), Damião de Góes (1502-1574), Gaspar Cor- reia (1495-1561), Jerônimo Osório (1506-1580) e Pero de Magalhães Gândavo (?-1579).

ARQUIVO CIÊNCIA E VIDA
O quadro As ruínas de Lisboa retrata o terremoto de 1755, que destruiu inúmeros documentos importantes sobre o descobrimento das terras tupiniquins

Sobre as referências ao episódio de descobrimento da América por- tuguesa nos textos desses cronistas, transcrevemos alguns trechos em português arcaico. Fernão Lopes de Castanheda escreveu: "Desta terra mandou Pedralvarez a Gaspar de Lemos na sua caravela com cartas a el Rey dõ Manuel, em que dizia ho que lhe ateli tinha acontecido, e mandoulhe hum homem daquela terra, e ao outro dia que forão tres de mayo partiose Pedralvares Cabral cõ toda a frota, Leuãdo a rota do Cabo da Boa esperança". João de Barros, por sua vez, afirmou: "Pedralva- rez vendo que por razão de sua viagem outra cousa não podia fazer, dali espedio hum nauio, capitão Gaspar de Lemos, com noua pera el Rey dom Ma- nuel do que tinha descoberto: o qual nauio com sua chegada deu muito prazer a el rey, e a todo o reyno, assi por saber da boa viagem que a frota leuaua, como pola terra que dascobrira".

Já Damião de Góes registrou: "Pedralvarez Cabral aho pairo comtoda há armada dous dias, mas vendo que não aparecia, seguio sua viagem, e navegando aloeste, ahos XXIIII dias do mês Dabril viram terra, do que forão muim alegres, porque polo rumo em que jazia, nã ser nenhuma das que atte em então eram descobertas".

Como pode ser percebido, os escritos acima citados em nenhum momento deixam transpa- recer a possibilidade da descoberta fazer parte de um projeto intencional da Coroa portuguesa. É preciso ter em mente, entretanto, que muitos desses cronistas tinham uma ligação direta com a Coroa, com alguns exercendo, inclusive, cargos públicos. Por isso, seus escritos estão passíveis de representarem a visão oficial do Estado.

ALGO DE INTENCIONAL PAIRA NO AR
No Brasil, durante o Império (1822-1889), um sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o historiador Joaquim Norberto de Souza e Silva (1820-1891), publicou na revista do mesmo instituto um texto baseado na mensagem de Caminha, inaugurando a tese da intencionalidade. A carta de Pero Vaz de Caminha, sem dúvida, trata-se do mais conhecido e importante documento relacionado ao descobrimento do Brasil. Nas palavras do historiador brasileiro Capistrano de Abreu (1853-1927), a carta "é o diploma natalício lavrado à beira do berço de uma nacionalidade futura". A epístola, que ficou esquecida durante séculos, teve sua primeira divulgação pública em 1817, quando foi impressa no Rio de Janeiro e publicada na Corografia Brasílica do Pe. Manuel Aires do Casal.

MUSEO NAVAL, MADRID

VICENTE YAÑÊZ PINZÓN
Diferentemente de Jean Ccousin, os argumentos sobre a presença em terras brasileiras antes de Ccabral do espanhol Vicente Yañêz Ppinzón (1462-1514) são bastante sólidos e documentados. Vários foram os depoimentos escritos que comprovam a viagem, dentre eles o do próprio Ppinzón e o de renomados historiadores contemporâneos do navegador espanhol, como Juan de Lla Ccosa (1460-1510), em 1500.

Existe uma dúvida sobre o local exato em que Pinzón teria chegado a terras brasileiras. A versão mais provável é que a expedição teria partido de Ppalos, a 18 de novembro de 1499 e, depois de algumas paradas, alcançou uma terra ao sul do Eequador, a 26 de janeiro de 1500. A esta terra, Pinzón chamou de "Santa Mmaria de la Cconsolación", mais tarde os portugueses vieram chamá-la Ccabo de Santo Agostinho (em Ppernambuco).

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