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A polêmica sobre o descobrimento
O descobrimento do Brasil
Uma análise dos principais documentos sobre a descoberta do país, como as cartas de pero Vaz de caminha e mestre João e o registro conhecido como relação do piloto Anônimo, ajuda a elucidar uma dúvida que há muito tempo ocupa a cabeça dos historiadores: afinal, cabral sabia ou não aonde ia?

A CARTA DE PERO VAZ DE CAMINHA

ARQUIVO CIÊNCIA E VIDA
Mapa da colonização do Brasil, desenhado por volta do século XVI. É possível atentar para as características da fauna e da flora no documento

Base de todas as pesquisas relacionadas com o descobrimento, a carta de Pero Vaz de Caminha (1450-1500) sofreu inúmeras interpretações, todas feitas de acordo com a tese defendida por quem a pesquisava. Como nosso objetivo é mostrar todos os lados do tema em questão, escolhemos aquelas que nos pareceram mais plausíveis. Uma análise mais demorada da mensagem realmente proporcionará o levantamento de algumas interrogações.

"Posto que o capitão-mor desta vossa frota, e assim os outros capitães escreveram a Vossa Alteza a nova do achamento desta vossa terra nova, que se ora nesta navegação achou, não deixarei também de dar disso minha conta a Vossa Alteza".

Este trecho inicial da carta abre espaço para alguns questionamentos: o termo "achamento" teve seu significado relacionado por estudiosos à ação praticada por quem antes procurou. O termo foi inclusive usado para designar o mais intencional e procurado descobrimento português: o das Índias.

Por outro lado, para o pesquisador Manuel de Souza Pinto, ao substantivo verbal "achamento" corresponde hoje o adjetivo substantivo "achado", tendo este um significado de casualidade.

Esse mesmo trecho da carta favorece a mais duas perguntas: por que um acontecimento que poderia ter sido intencional exigiria que todos os comandantes de navios escrevessem ao rei?

Como poderíamos interpretar Caminha, quando ele frisa que se ora nesta navegação achou, não estaria querendo dizer que outros tentaram e só esta expedição conseguiu?

"E assim seguimos por este mar de longo". Este pequeno trecho serviu de forma convincente a ambas as teses. Para alguns analistas da epístola o termo "mar de longo" significaria mar de Ocidente, indicando, com isto, um rumo intencional ao Oeste. Para outros, a expressão "de longo" não implica rumo, mas continuidade direta e progressiva. Quando escreve o "nosso caminho", não estaria o autor se referindo a uma rota previamente traçada?

A carta, em nenhum momento, refere-se ao arrasto da frota pelas correntes equatoriais do norte e do sul. Baseado em informações cartográficas tanto de Caminha quanto do espanhol Mestre João e nos cálculos de latitude do estudioso português Duarte Leite (1864-1950), o historiador Jaime Cortesão (1884-1960) defende a ideia de que Pedro Álvares Cabral (1467-1526) e seus pilotos tinham não só a consciência unânime do afastamento da frota para oeste, mas, longe de subestimá-lo, por ignorância do impulso dos agentes naturais, o exageravam. Por outro lado, a navegação foi de longo, isto é, sem voltas, como sucedia nas proximidades do Golfo da Guiné. Cortesão conclui que o afastamento foi intencional.

Em suas instruções a Cabral, o navegador português Vasco da Gama (1469-1524) traça o melhor caminho para a expedição chegar às Índias. Segundo suas próprias palavras, "Quando apanhasse os alísios SE pela proa, devia velejar tão junto quanto possível ao vento e a corrente, até ficar o cabo da Boa Esperança completamente a este. Desse modo, a navegação seria mais rápida, os mantimentos se conservariam melhor e a gente iria mais sã". Por que teria Cabral desviado desta rota tão segura? Estaria cumprindo ordens secretas do rei - que até mesmo Vasco da Gama, descobridor das Índias, não poderia saber? Ou foi realmente empurrado para a costa brasileira pelas correntes ocidentais?

"Ali era com o capitão a bandeira de Cristo, com que saiu de Belém, a qual estava sempre levantada, da parte do Evangelho. Acabada a missa, desvestiu-se o padre e subiu a uma cadeira alta; e nós todos lançados por essa areia. E pregou uma solene e proveitosa pregação da história do Evangelho, ao da qual tratou da nossa vinda e do achamento desta terra, conformando-se com o sinal da Cruz, sob cuja obediência viemos, o que foi muito a propósito e fez muita devoção". Estaria Caminha nesse trecho atribuindo o achamento da terra a um milagre de Cristo, ou agradecendo ao mesmo Cristo por os terem trazido em paz às terras que tanto procuravam?

A "POLÍTICA DE SIGILO" E A ESPIONAGEM NO REINO
Sempre quando estudamos a expansão marítima portuguesa e principalmente o período dos grandes descobrimentos lusitanos, nos deparamos com argumentos cujos parâmetros são baseados em uma possível política de sigilo, criada estrategicamente pela Coroa portuguesa, a fim de preservar seus interesses, sejam políticos ou econômicos, a partir dos resultados de suas expedições.

Para alguns historiadores, o "descobrimento do Brasil" está diretamente inserido no contexto desta "política de sigilo". Para melhor entendermos esse fato, é necessária uma rápida passagem pela gênese da expansão marítima portuguesa, buscando situar seus principais patrocinadores. No início e no decorrer do século XV, a burguesia portuguesa mostrou-se incapaz e limitada a encampar economicamente o projeto expansionista. Excluído o apoio burguês local, coube à Coroa portuguesa receber de bom grado a colaboração direta de dois grupos economicamente ativos da época: a organização religiosa Ordem de Cristo e os banqueiros e comerciantes estrangeiros.

ORDEM DE CRISTO, BANQUEIROS E DIPLOMATAS

ARQUIVO CIÊNCIA E VIDA
O quadro de Jorge Colaço (1864-1942) mostra Infante D. Henrique, que comandou uma ordem religiosa que abastecia financeiramente a expansão marítima portuguesa

A Ordem de Cristo tem sua origem na Ordem dos Templários - organização religiosa do tempo das Cruzadas, que desenvolveu intensa atividade econômica, acumulando riqueza e poder.

Os templários teriam chegado a Portugal no século XIV, expulsos da França, perseguidos pelo papa da época. Em Portugal, foram bem-acolhidos pela Coroa que, de olho em suas riquezas, acabou criando uma nova ordem, a Ordem de Cristo, e transferindo para esta todo o patrimônio dos religiosos franceses.

Para alguns historiadores, o "descobrimento do Brasil" está diretamente inserido no contexto da "política de sigilo" portuguesa

Os templários se caracterizavam por manter suas normas de conduta no mais total sigilo. Sua legislação era conhecida por completo, apenas por aqueles que alcançavam o maior cargo de sua hierarquia. Como a Ordem de Cristo, principalmente quando comandada pelo Infante D. Henrique (1394-1460), financiou diretamente a empresa expansionista, muitos tendem a ver nesta estrutura organizacional da ordem a gênese da "política de sigilo" portuguesa.

REPRODUÇÃO

Dentre os colaboradores financeiros de Portugal, estavam representantes de várias nações. Ficaram famosos nomes como Manuel Pezagno (conhecido como Manuel Pessanha em português), Vadino Vivaldi, Lanzarotto Malocello, da família alemã Függer, e principalmente o banqueiro Bartolomeu Marchioni, que, durante os governos de D. João II (1455-1495) e D. Manuel (1469-1521), chegou a assumir o posto de grande conselheiro e auxiliar financeiro da empresa dos descobrimentos e da organização do comércio das Índias.

A relação entre os banqueiros e comer- ciantes com a "política de sigilo" deve neces- sariamente passar pela análise dos relatos dos embaixadores das repúblicas italianas junto ao governo português. Para muitos historiadores os "oratori", como eram conhecidos os embai- xadores italianos, não passavam de espiões a serviço de seus governos e financistas. Até onde se sabe, Portugal não só não empreendeu um programa de contraespionagem como, muito pelo contrário, por motivos anteriormente cita- dos, abriu espaço em sua empresa expansionis- ta para navegantes, cosmógrafos, banqueiros e conselheiros estrangeiros.

Veremos a seguir trechos de cartas enviadas a Veneza pelos embaixadores italianos, dando notícias das viagens de Cabral: "... acima do cabo de Boa Esperança, do lado de Sudeste, descobriram uma terra nova, chamam-na dos Papagaios: por se- rem eles do comprimento de um braço e mais, de vá- rias cores, dos quais vimos dois..."; "também supõem estar ligada com as Antilhas que foram descobertas para os reis da Espanha e com a terra dos papagaios recentemente achada pelas naus deste rei que foram para Calicut". O primeiro trecho foi extraído da carta de Giovanni Matteo Cretico e o segundo foi escrito por Pedro Pasqualigo. Pelo menos a princípio, os embaixadores parecem ignorar qualquer indício de conhecimento prévio das terras do atual Brasil.

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