A polêmica sobre o descobrimento O descobrimento do Brasil Uma análise dos principais documentos sobre a descoberta do país, como as cartas de pero Vaz de caminha e mestre João e o registro conhecido como relação do piloto Anônimo, ajuda a elucidar uma dúvida que há muito tempo ocupa a cabeça dos historiadores: afinal, cabral sabia ou não aonde ia?
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AMÉRICO VESPÚCIO E ALONSO DE HOJEDA
A presença ou não desses dois navegadores em terras brasi- leiras, antes de cabral, ensejou um dos maiores debates entre historiadores brasileiros. longe de se chegar a uma conclusão absoluta, a polêmica criada entre os estudiosos merece ao me- nos o registro histórico.
para o historiador Francisco Adolfo de Varnhagen (1816-1878), em junho de 1499, o espa- nhol Alonso de hojeda (1466-1516), navegando em companhia de Américo Vespúcio (1454-1512), aportou ao delta do Açu, no rio grande do norte. Varnhagen baseou-se em dois documentos: uma carta supostamente endereçada por Vespúcio a pedro Soderini e nos depoimentos de hojeda, nos "pleitos de colón-probanzas del Fiscal"
o historiador thomaz oscar marcondes de Souza defende a versão de que a viagem de hoje- da e de Vespúcio foram duas expedições diferen- tes, e que apenas Vespúcio teria alcançado o Bra- sil. Seus argumentos são calcados na contradição de latitudes, existente entre os dois documentos estudados por Varnhagen. outro documento uti- lizado por marcondes de Souza para sustentar sua tese foi a carta de Américo Vespúcio a lorenzo de médici, em que descreve sua viagem ao Brasil em 1499, sem citar em nenhum momento a presença de hojeda ao seu lado. marcondes conclui que Vespúcio foi o pioneiro no des- cobrimento do Brasil.
O historiador capistrano de Abreu, diante das citadas contradições, prefere não sustentar nenhuma tese, convencido de que ca- rece o tema de documentos mais precisos e menos controversos. |
A RELAÇÃO DO PILOTO ANÔNIMO
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Um mapa português da costa do Brasil, incluindo o Monte Pascoal, conhecido por ser o primeiro do solo pisado por Cabral |
O documento chamado de "relação do pi- loto anônimo" é considerado um dos três mais importantes testemunhos relacionados ao des- cobrimento do Brasil. A descrição de viagem neste registro traz até hoje dúvidas quanto ao seu verdadeiro autor. Segundo o escritor ita- liano Giovanni Battista Ramusio (1485-1557), o documento pertenceria a um piloto desco- nhecido que teria participado das expedições. Pesquisas posteriores, entretanto, levantaram a suspeita de que Giovanni Matteo Cretico seria seu verdadeiro autor, sendo o texto construído a partir de informações de diplomatas e es- piões italianos.
Segue a transcrição do texto que se refere à descoberta do Brasil: "Aos XXIV de Abril que foi a quarta-feira da oitava da Páscoa, teve a dita armada vista de uma terra, com que houve grande prazer. E chegaram a terra para ver que terra era, a qual terra acharam muito abundante de árvores e gente que por ali andava pela praia do mar...".
Se concordarmos que o serviço de espionagem italiana era realmente competente, a relação do piloto anônimo, independentemente de quem a tenha escrito, transforma-se, sem dúvida, em uma descrição de grande valor histórico.
AS CARTAS DE MARCHIONI
Já chamamos a atenção, anteriormente, para o grau de intimidade que gozava na corte por- tuguesa o rico mercador e banqueiro florentino Bartolomeu Marchioni. Esse italiano bastan- te empreendedor acumulou favores do governo português pela quantidade de seus investimentos pessoais nas inúmeras expedições lusitanas, dentre elas a do próprio Cabral. Apesar de morar em Lisboa, Marchioni não se distanciou por completo de suas origens, mantendo relações comerciais com a casa ban- cária dos Médicis, em Florença. O que pode ser instigante em relação a este banqueiro é saber até que ponto ia seu conhecimento sobre possíveis segredos náuticos lusitanos e o grau de fidelidade que este poderia ter com seus conterrâneos italianos, grandes interessados na política expansionista dos portugueses.
Mestre João deixa bem claro que tinha conhecimento de um mapa que já mostrava terras brasileiras antes da chegada de Cabral
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No centro da imagem, Vasco da Gama, que havia traçado a Cabral um mapa fidedigno de como chegar às Índias, mas que não fora seguido |
Após a segunda expedição portuguesa às Índias, Marchioni escreveu duas cartas a Florença dando conta de tal episódio. Segue a transcri- ção de um trecho da segunda carta que se refere ao descobrimento do Brasil: "... Este rei [D. Ma- nuel] achou recentemente nesta [viagem] um novo mundo, mas é perigoso navegar sobre a extensão desses mares...". No restante da carta, Marchioni registra para seus interlocutores o conteúdo e a quantidade das cargas transportadas da Índia. Uma mensagem que trazia informações financeiras tão importantes e detalhadas, não pode- ria também registrar um conhecimento prévio de terras a oeste e um possível propósito de posse destas mesmas terras?
O último grande argumento para a "política de sigilo" portuguesa seria a disputa política e econômica existente entre Portugal e Espanha no final do século XV. Os fatos nos contam que D. Manuel seria o herdeiro indireto das terras espanholas, direito adquirido por intermédio das duas esposas que teve entre 1497 e 1517, ambas filhas do rei da Espanha. Entretanto, entre os anos 1498 e 1501, D. Manuel estava solteiro, pois enviuvara de sua primeira esposa e só se casaria novamente em 1501. E foi justamente nesse pequeno intervalo de tempo que aconteceram os episódios políticos e econômicos mais marcantes da empresa expansionista lusitana: a viagem de Duarte Pacheco (?-1533), a descoberta do caminho marítimo para as Índias por Vasco da Gama e a viagem de Pedro Álvares Cabral ao Brasil.
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DUARTE PACHECO
e ntre os anos 1505 e 1508, foi produzido pelo cosmógrafo português Dduarte Ppacheco um roteiro da circunavegação africana, que ficou conhecido como "Eesmeraldo de situ orbis". Ddurante muito tempo, esse documento ficou desaparecido. Somente em 1892 foram descobertas duas cópias: uma na Biblioteca Ppública de Évora e outra na de Llisboa - ambas em Pportugal. Nno início do século XX, o historiador português Lluciano Ppereira da Silva (1864-1926), analisando mais detalhadamente o documento, levantou a tese de que teria sido Dduarte Ppacheco o primeiro lusitano a chegar a terras do atual Brasil.
O argumento de Lluciano Ppereira tem como base um trecho presente na página 16 do "Eesmeraldo", que em resumo dizia: "Ccomo no terceiro ano de vosso reinado do ano de Nnosso senhor de mil quatrocentos e noventa e oito, donde nos vossa Alteza mandou descobrir a parte ocidental, passando além da grandeza do mar Ooceano, donde é achada e navegada uma tam grande terra firme com muitas e grandes ilhas adjacentes a ela. É achado nela muito fino Brasil com outras muitas coisas de que os navios nestes reinos vem grandemente carregados".
m ais uma vez estamos diante de um documento cujo conteúdo mostra-se um tanto obscuro e passível de diversas interpretações. Ddeve ser levado em conta, por exemplo, a data em que o documento foi escrito, após 1500, época em que várias expedições já tinham desbravado o continente americano, dando a Dduarte Ppacheco informações suficientes para compor seu texto. Ppara aqueles que contestam a tese de Lluciano Ppereira, o "Eesmeraldo" não oferece informações concretas que certifiquem a localização do território alcançado por Ppacheco. Ppoderia ser, portanto, terras da América do Nnorte, ou até mesmo, como escreveu Mmarcondes de Souza, regiões boreais do Nnovo Mmundo, alcançadas pelos navegadores e irmãos Ccorte-Rreal a mando de Dd. Mmanuel. |
A CARTA DE MESTRE JOÃO
Entre a tripulação que compunha a esquadra de Cabral, encontrava-se o médico particular do rei D. Manuel. A presença do espanhol Mestre João Faras, conhecido simplesmente como Mestre João, pode ser justificada pela sua genérica formação, pois além de médico ele era também físico com conhecimentos em astronomia e astrologia. Mestre João entrou para a história muito mais devido a seus conhecimentos de astronomia do que por ter sido médico do rei. A ele é atribuído o batismo da constelação de estrelas mais conhecida entre os brasileiros: o Cruzeiro do Sul.
A carta escrita por Mestre João ao rei D. Manuel, datada de 1o de maio de 1500, está entre os três mais importantes documentos que dizem respeito ao nascimento do Brasil.
Nessa correspondência, o astrônomo comunica ao monarca o resultado de seus estudos do céu do Brasil, cujos números apontaram para uma latitude de aproximadamente 17o, muito próximo, inclusive, dos hoje confirmados 16o 21' 22" de latitude sul, em que está localizada a Baía de Cabrália.
Uma certeza, no entanto, fica sob suspeita no tocante à primariedade por parte de Mestre João de batizar de Cruzeiro do Sul a constelação que teria visto no céu do Brasil. Uma leitura mais atenta de sua carta não revela, em nenhum momento, a referência do nome Cruzeiro do Sul.
O último argumento para a "política de sigilo" portuguesa seria a disputa política e econômica entre Portugal e Espanha
Em um trecho da carta, ele chama a atenção de que as "estrellas principalmente las de la crus son grrandes casy como las del carro", embora, em um pequeno desenho feito pelo mestre do céu astral do Brasil, ele chame de "las guardas" as estrelas que formam a famosa constelação.
O MAPA DE PERO VAZ BISAGUDO
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Quadro Memória das Armadas que de Portugal passaram à Índia ilustra a caravela utilizada por Pedro Álvares Cabral
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"... Quanto Señor al sytyo desta terra mande vossa alteza traer um mapamundi que tyene Pero Vaaz Bisagudo e por ay podrra ver vossa alteza el sytyo desta terra...". Esse trecho, também presente na carta de Mestre João, revelou-se de extrema importância para aqueles que defendem a tese de intencionalidade do descobrimento do Brasil. Em suas palavras, Mestre João deixa bem claro que tinha conhecimento de um mapa que já mostrava terras brasileiras antes da chegada de Cabral. Esse fato merece algumas ressalvas: afora a carta de Mestre João, nenhum outro documento até então conhecido faz referência ao mapa pertencente a Pero Vaz da Cunha, apelidado o Bisagudo. Mapas famosos, como os de Bahaim, Toscanelli ou André Bianco, foram todos confeccionados antes de 1492 e, pelo menos até o momento, nada pode sustentar a tese de descoberta pré-colombiana do Brasil.
A IMPORTÂNCIA DOS DOCUMENTOS
Ouvir a voz que ecoa dos documentos continua sendo o grande desafio do historiador. A História está repleta de fatos ainda por serem "decifrados" e não devemos hierarquizá-los de forma preconceituosa para não perdermos a oportunidade de estarmos diante do inusitado. Assim como o descobrimento do Brasil, outros temas de nossa história não receberam a devida importância por parte dos historiadores. Documentos continuam empoeirados à espera de algum curioso que queira escutar a sua "versão" dos fatos.
REFFERÊNCIAS - ABREUabreu, João Ccapistrano de. O Descobrimento do Brasil.Rrio de Janeiro: 1976, Ccivilização Bbrasileira, 2a. edição. - CORTEScortesÃOo, Jaime. A Carta de Pero Vaz de Caminha.de Janeiro:s/d, Llivros de Pportugal Lltda. - SOUsouZAa, Tt. Oo. Mmarcondes de. O Descobrimento do Brasil.Ssão Ppaulo: 1956, Ggrafica-Eeditora Mmichalany Llimitada, 2a. edição. - Carta patente dos reis da Espanha, de 7 de maio de 1495 ( Ccomplemento do Ttratado de Ttordesilhas) - Ddescrição de viagem de Vicente Yañêz Ppinzón ao Bbrasil em janeiro de 1501, no "Libreto de tutta la navegatione de Re de Spagna". - Pprimeira folha das instruções náuticas de Vasco da Ggama para a viagem de Ccabral. - Fragmentos de instruções a Ppedro Álvares Ccabral quando foi capitão-mor de uma armada à Índia. - Ccarta de Ppero Vaz de Ccaminha a Dd. Mmanuel, datada de Pporto Sseguro em 1º de maio de 1500. - de Mmestre João a datada de em 1º de maio de 1500. - Ccarta de Dd. Mmanuel aos Rreis Ccatólicos dando notícia do descobrimento do Bbrasil por Ccabral. - Ttrecho da carta de Ggiovanni Mmatteo Ccretico ao doge de Veneza, dando notícia do descobrimento do Bbrasil. - Rrelação do Ppiloto Aanônimo. - Ccarta de Vespúcio a Llorenzo di Ppier Francesco de Mmédici, datada de Ssevilha a 28 de julho de 1500, dando notícia da sua viagem ao Bbrasil em 1499.
Eduardo Borges é mestre em Hhistória Ssocial pela Uuniversidade Federal da Bbahia e professor de na do Eestado da e na Uunijorge (Ccentro Uuniversitário Jorge Aamado).
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