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Júlio Barbosa de Aquino
A Amazônia de Chico Mendes
o vice-presidente do Conselho nacional dos seringueiros (Cns) conta como era a luta pelo reconhecimento da profi ssão e pela criação de reservas extrativistas ao lado de seu companheiro Chico Mendes

Por Sucena Shkrada Resk

LH - Chico Mendes é reconhecido por ter sido um ambientalista nato. Que passagens pode contar a respeito dessa característica?
Aquino - Ele tinha convicção de que o modelo de reforma agrária vigente era inadequado a um país de dimensões continentais como o nosso. O modelo adotado no Sul ou em São Paulo não poderia ser igual ao da Amazônia, que é uma grande imensidão de floresta e água. Chico defendia que lá deveria haver uma reforma que regularizasse o modelo de vida dos povos tradicionais e seculares, como os seringueiros. Assim nasceu a ideia das reservas extrativistas. Chico era capaz de prever possibilidades. Hoje, por exemplo, o mundo acadêmico e científico está debatendo a questão das mudanças climáticas, que é um problema grave. Mas já naquela época, em 1974, durante o go- verno militar, ele falava que era preciso manter as florestas, porque se elas caís- sem, nós sofreríamos com a seca e altas temperaturas. Nunca tinha feito pesquisa sobre isso, mas era um visionário.

FOTO: CELSO ROBERTO DE ABREU SILVA
A produção e a exportação de borracha foram muito importantes para a economia brasileira no final do século XIX e início do século XX. O lucro com este comércio possibilitou a construção do Teatro da Paz, em Belém, entre 1869 e 1874

LH - Como ele se aprofundou nas pau- tas ambientais?
Aquino - No ano de 1977, Chico Mendes, eu e outros companheiros criamos o Sin- dicato dos Trabalhadores Rurais de Xapu- ri. Como nosso sindicato é composto, em sua maioria, de moradores da floresta, a nossa luta é contra o desmatamento, para que o seringueiro não deixe de existir. O Chico começou a perceber que na região Sudeste do Brasil, principalmente no Rio de Janeiro e em São Paulo, além do Rio Grande do Sul, estavam sendo promovi- das discussões importantes sobre a questão da ecologia. Ele buscou algumas pessoas que queriam fazer mestrado e doutorado para completar suas teses com o apoio das bases dos seringueiros. Em contrapartida, também obtinha as informações desses es- pecialistas. Daí descobriu que o movimen- to ecológico seria muito importante para fortalecer o Sindicato, em Xapuri. Buscou alguns aliados nessas regiões, como da As- sociação Brasileira de Geografia, que abri- ram espaço para Chico debater nas univer- sidades, principalmente entre 1984 e 1988. Dentre elas, a Universidade de São Paulo (USP); Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (ESALQ), de Piracicaba; a Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ); a Universidade Fluminense e a Universidade de Brasília (UNB).

LH - E quais foram os princípios que fundamentaram o conceito de reserva extrativista e de sustentabilidade de- fendidos por Chico Mendes?
Aquino - A ligação entre o movimento sindical e os movimentos ambientalis- tas foi a base para a criação das reservas extrativistas, batizadas de Resex. Carlos Minc (atualmente ministro do Meio Ambiente) teve um papel importan- te naquela época, dentre outros nomes, como Cristovam Buarque, pelo mundo acadêmico. A luta sindical passou a ser pela luta da terra e do meio ambiente. Chico Mendes foi uma das primeiras pessoas do Brasil a falar sobre desen- volvimento sustentável, em uma Assem- bleia do Sindicato, em Xapuri, no ano de 1987. Na época, estávamos discutindo como ter maior participação na Assem- bleia Nacional Constituinte. Para ele, seria ineficaz um desenvolvimento que só olhasse para as questões sociais e eco- nômicas, pois começou a perceber que se o meio ambiente fosse afetado, haveria um desequilíbrio das outras partes. Ele tinha convicção de que o capítulo sobre a reforma agrária teria de contemplar o meio ambiente, pois não adiantava pro- duzir e alguém consumir, se não houves- se o planejamento da produção - ou seja, tirar aquilo que o meio ambiente possa suportar. Só assim a Amazônia poderia ser beneficiada. A questão ambiental acabou tendo um destaque importante na Constituição de 1988, apesar de não ser seguida na prática.

FOTO: FABIO RODRIGUES POZZEBOM/ABR
No Pará, pessoas associadas ao Fórum Social Mundial plantam pés de seringueiras em homenagem a Chico Mendes

LH - As reservas extrativistas de hoje atendem às expectativas de Chico Mendes?
Aquino - Infelizmente, a política am- biental brasileira em nenhum governo, até hoje, foi uma prioridade. Um país que tem mais de 40% do território co- berto pela região amazônica deveria ter uma ação mais efetiva. O Brasil é um continente formado por outros bio- mas, como a caatinga, o cerrado, a mata atlântica, o pantanal e o semiárido. O País não pode ter um Ministério do Meio Ambiente que tem menos de 5% de participação no orçamento da União. Esse tipo de visão traz efeitos negati- vos para as unidades de conservação, que é o caso das Resex, que foi o marco regulatório para mostrar o caminho para resolver os conflitos fundiários na Amazônia. Pois é uma espécie de zo- neamento, que delimita áreas para a destinação a certas atividades. No Pará, por exemplo, além dos seringueiros, há também muitas reservas marinhas, que trabalham com mariscos, caranguejos, camarões e peixes, que hoje se destacam no País. Já no Maranhão, com coco de babaçu, dentre outras espalhadas pelo Brasil. Hoje são cerca de 60 Resex no País e, só no Pará, há 16 de reservas ma- rinhas e 6 florestais. Mas não dá para viabilizá-las dessa forma.

LH - O que é necessário ser feito, em sua opinião, para aprimorar a instaura- ção das Resex no Brasil?
Aquino - O que falta é concluir o zo- neamento ecológico da Amazônia, pre- visto pelo ministro Carlos Minc ainda neste ano. Assim haverá um mapa em que deve e pode haver unidades de con- servação de uso direto ou conservação permanente. É preciso compreender que nessas áreas pode haver gente. Os seringueiros, por exemplo, são popula- ções históricas, desde 1840 na floresta amazônica. Eles não destruíram o ecos- sistema. Quem está destruindo são ou- tras atividades descontroladas.

LH - Como era a relação de liderança de Chico Mendes com a comunidade?
Aquino - Ele era muito ligado às comu- nidades e colocava as ideias para serem discutidas pelo coletivo. Suas propostas partiam das conversas que tinha com as pessoas. E o que conduzia, retransmitia o resultado para todos. Não gostava de ir sozinho às audiências e viagens e levava até quatro companheiros junto. Não agia autoritariamente.

FOTO: ANTONIO CRUZ/ABR
Na foto, o ministro Paulo Vannuchi e um primo de Chico Mendes (à esquerda), ouvem Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente (à direita), em sessão no Congresso que lembrou os 20 anos da morte do seringueiro

LH - Quais foram as passagens mais in- teressantes que você vivenciou ao lado de Chico Mendes?
Aquino - Algumas dessas passagens ocorreram quando estávamos na clan- destinidade, no final da década de 1970. Era a fase da ditadura militar e da guer- rilha do Araguaia, e estávamos fomen- tando as ideias do sindicato. Chico era um revolucionário, mas acreditava que sempre havia um jeito para o entendi- mento, sem as armas. Em homenagem à guerrilha da Araguaia, deu o nome de Lenira à sua filha e de Sandino ao seu filho, por causa da Revolução Sandinis- ta, na Nicarágua. Ele praticamente nos obrigava a estudar, fazendo que lêssemos de 15 a 20 páginas diárias, para depois iniciarmos uma roda de discussão, para dizer o que entendemos a respeito. Eu, por exemplo, me aprofundei na obra O capital, de Karl Marx, e na Bíblia. Chico sempre dizia para a gente: "não há vitória sem união, responsabilidade, compromisso e disciplina". A leitura era um dever de casa. Ele tinha em sua re- sidência, em Xapuri, uma biblioteca. Foi lá que tive acesso a todos os romances de Jorge Amado.

LH - Chico Mendes, então, era um ho- mem que só vivia para seus ideais?
Aquino - Chico não era somente mili- tante e trabalhador 24 horas por dia, ele tinha uma dedicação especial à família. Quando morreu, deixou Sandino, com 2 anos de idade, e Lenira, com 4 anos. Só pôde compartilhar parte da infância dos filhos. Mais do que amar o movimen- to, amava a esposa Ilzamar Gadelha, a quem dava muita atenção. Ele não dei- xava de ter horas para o lazer, como jogar baralho e dominó. Era um homem que sabia dividir seu tempo, sem excessos. Não era uma pessoa tipo Che Guevara (1928-1967), que se entregou de corpo e alma à revolução e morreu por ela. Chico morreu pela "revolução", mas também não deixava de vivenciar cada momento de outras partes de sua vida.

LH - Qual era a preocupação dele com relação à educação do trabalhador na floresta?
Aquino - Um dos artifícios que alguns fazendeiros utilizavam era de fazer que os seringueiros assinassem "com a impressão digital", por serem analfabetos, folhas em branco ou preenchidas, que supostamente seriam o meio legal para que os trabalhadores ficassem definitivamente em suas colocações. Entretanto, na verdade, estavam assinando uma declaração de que abriam mão da extração para que o fazendeiro pudesse derrubar a floresta. Muitos foram expulsos por pistoleirose jagunços, nessa circunstância. Nem advogados de Defesa dos Direitos Humanos conseguiam defender os seringueiros. Sendo assim, Chico Mendes percebeu a importância da alfabetização.

Em 1988, Chico começou a ser desclassificado diante da opinião pública

Aí foi criado em 1982, com o apoio da antropóloga Mary Alegretti, o Projeto Seringueiro. Assim lançamos a Cartilha Poronga (termo que designa a iluminação que o trabalhador coloca na cabeça, para riscar a seringueira à noite), base para a educação dos trabalhadores. Quando Chico morreu, o sindicato havia assinado um convênio com a Secretaria de Educação do Estado, e nós tínhamos terminado de construir 20 escolas nos seringais, que não existiam anteriormente, para evitar a migração para as cidades.

FOTO: MARCELO CASAL JRR/AABR
Foto tirada no segundo Encontro Nacional do Centro de Convenções Ulysses Guimarães, quando seringueiros, índios e quilombolas apresentaram reivindicações ambientais

LH - Em que momento a segurança de Chico Mendes começou a ficar mais preocupante?
Aquino - Em 1987, a situação começou a ficar pior. O contexto era o processo de pavimentação da BR 364 (Cuiabá-Rio Branco), que não levava em consideração o direito dos povos indígenas e das populações tradicionais da região. Chico resolveu contatar um ambientalista norte- americano da EDF [National Climate Campaign] e, assim, teve a oportunidade de participar da Assembleia Anual do Mundo, em Miami, com a credencial de "jornalista". Daí conseguiu ter audiência com o presidente do Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), além do Banco Mundial (BIRD), e relatar as ameaças aos investimentos das instituições na Amazônia. Também falou com um importante congressista norte-americano e entregou uma carta com todas as denúncias. Um mês depois, os investimentos foram suspensos, com o argumento de que enquanto o Brasil não fizesse um plano de impacto ambiental sobre a pavimentação da rodovia, os recursos não seriam liberados. A partir daí, a mídia nacional e local do Acre começou a criticar Chico, com o argumento de que ele estaria prejudicando o desenvolvimento do País. Ficou claro que havia pouca saída para ele, pois ao seu lado só ficaram praticamente os companheiros do movimento. As ameaças aumentaram e Chico passou a ter de conviver em companhia de seguranças. Por outro lado, a sua trajetória conferiu o recebimento do Prêmio Global 500, da ONU, nesse mesmo ano.

LH - Como passou a ser a vida de Chico Mendes após esse período?
Aquino - Em 1988, a insegurança passou a se acentuar. Ele começou a ser desclassificado diante da opinião pública. Isso foi muito ruim, uma página da história do Brasil que só agora, 20 anos depois de sua morte, o governo brasileiro pediu desculpas pelo que aconteceu.

LH - Você estava próximo de Chico Mendes quando ele foi assassinado?
Aquino - Eu estava na zona rural para convocar os companheiros para uma assembleia do sindicato, que ia acontecer em 29 de dezembro. Quando cheguei próximo à sua casa, já estava no caixão. O assassinato havia acontecido aproximadamente às 19 horas do dia anterior e eu cheguei às 9 horas do dia seguinte. Ele estava acompanhado por dois policiais, pela esposa e filhos no dia em que foi morto.

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