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A ordem dos iluminados
A illuminati, sociedade secreta que aparece no enredo do fi lme Anjos e demônios, surgiu na Baviera, no século XViii, e já foi alvo de tantas teorias da conspiração que chegou a ser relacionada com a Revolução Francesa e o processo de independência dos estados Unidos

Por Sérgio Pereira Couto

Além disso, de concreto fala-se sobre Weishaupt ter vivido um bom tempo em Saxe-Gota-Altenburgo, onde escreveu uma série de trabalhos sobre sua sociedade, incluindo História completa das perseguições aos illuminati na Baviera (1785), Retrato do Iluminismo (1786), Desculpa para os illuminati (1786) e Sistema improvisado de Iluminismo (1787). Weishaupt morreu por lá em 18 de novembro de 1830 e deixou uma esposa de nome Anna Maria e seis filhos, chamados Nanette, Charlotte, Ernst, Karl, Eduard e Alfred. O fundador dos iluminados teria sido enterrado junto a um filho morto anteriormente, em 1802.

INDEPENDÊNCIA DOS EUA
Parecia mesmo que a Illuminati já fazia parte do passado. Porém, a questão da força que a ordem francesa teria adquirido ao participar da Revolução Francesa, bem como sua suposta autoria no conflito, são o âmago histórico que prevaleceu, inclusive nos dias de hoje. Há relatos de que o professor escocês de Filosofia natural, John Robinson, também membro da maçonaria, teria sido convidado a se tornar um illuminatus. Ele teria levado a proposta em consideração, mas conclu- ído que a ordem não era para ele. Em 1798, Ro- binson publicou um livro chamado Provas de uma conspiração, em que escreveu: "Uma associação foi formada com os propósitos expressos de se enrai- zarem nos estabelecimentos religiosos e derrubar todos os governos existentes (...). Os líderes iriam governar o mundo com poder incontrolável, en- quanto todo o resto seria usado como ferramenta da ambição de seus superiores desconhecidos."

BOICOTE AO CONCLAVE

No filme Anjos e demônios, a Illuminati tenta sabotar a reunião que elege um novo papa. Veja como acontece o ritual da Igreja Católica

O caso relatado no filme Anjos e demônios mostra uma tenta- tiva da illuminati de sabotar um conclave (cerimônia católi- ca para eleger um novo papa). segundo os "conspirólogos" de plantão, esse seria um dos grandes objetivos da sociedade se- creta: se infiltrar e até mesmo colocar um representante illuminati na direção da igreja católica. a situação parece ser delírio longe de acontecer, ainda mais sabendo que a ordem é contra a igreja.

O ritual do conclave (do latim cum clave que significa com chave) é realizado de maneira praticamente inalterada há oito séculos. Foi estabelecido pelo papa Gregório X (1210-1276), que institui a base dos atuais conclaves por volta de 1274. isso aconteceu porque, para eleger o sucessor de clemente iV, seu antecessor, o processo demo- rara mais de um ano e meio.

A reunião deve começar entre 15 e 20 dias após a morte do papa corrente, prazo fixado na época medieval e conhecido como novemdiales. esse período termina com a missa Pro Eligendo Papa, que conta com a presença de todos os cardeais na Basílica de são pedro que estiveram na mesma manhã em que começou o concla- ve. depois, os cardeais-eleitores vão para a capela sistina, onde começa a votação.

Novas regras foram estabelecidas pelo papa João paulo ii (1920-2005). se um papa não for eleito em até três dias do concla- ve, acontecerá uma pausa de 24 horas. depois de mais sete ten- tativas, mais uma pausa de mesma duração. ao final da terceira rodada, caso o impasse se mantenha, o resultado elegerá aquele que tiver maioria simples.

Para eleger um papa são necessários dois terços dos votos dos cardeais de menos de 80 anos. a votação pode se repetir, caso seja necessário, por um período de até três dias. e, claro, a segurança é extremamente reforçada. dan Brown deve ter se divertido muito ao imaginar o ataque ao colégio cardeal em Anjos e demônios.

Esse livro teria sido enviado para ninguém menos que o presidente norte-americano George Washington (1732-1799), que teria afirmado que não duvidava de que as doutrinas da Illuminati e os princípios do jacobismo (termo que designava originalmente o Clube Jacobino, que era um grupo maçônico francês com representação nos Três Es- tados e, depois, na Assembleia Nacional Francesa), haviam se espalhado pelos Estados Unidos.

Por essas e outras, os membros da Illumina- ti acabaram por levar mais um crédito: o de ter influenciado o processo de independência dos Estados Unidos, em 1776. Essa participação da sociedade secreta seria corroborada pela presen- ça de símbolos da Illuminati nas notas de dólar, a moeda norte-americana.

OUTROS ILUMINADOS

ARQUIVO CIÊNCIA E VIDA
A sociedade americana Skull and Bones seria uma continuidade da illuminati. na foto acima, ao lado esquerdo do relógio, George bush "pai". Abaixo, o signo do grupo com o numeral que, segundo uma teoria, indicaria o ano de criação, 1832

É comum dar a alcunha de "Illuminati" a qualquer grupo que aja como uma espécie de "poder nos bastidores", ou seja, o grupo que con- trola os negócios mundiais, sem ter pouca ou ne- nhuma ligação com o grupo da Baviera. Por isso é tão difícil obter informações confiáveis sobre as atividades de quem quer que esteja na ativa com esse nome.

Do ponto de vista histórico, não foi apenas o grupo de Weishaupt que desfrutou desse nome. Houve também outra sociedade, datada de 1492, que, segundo o historiador e erudito espanhol Marcelino Menéndez y Pelayo (1856-1912) tam- bém se chamava de "iluminada". Essa organização teria uma origem gótica e promovia na Espanha ensinamentos vindos da Itália. Uma de suas líderes (sim, era uma mulher) foi conhecida como a Be- ata de Piedrahita, filha de um trabalhador e alvo da Santa Inquisição, por volta de 1511, quando chegou a afirmar em público que mantinha diálogos com Jesus Cristo e a Virgem Maria. Segundo Menéndez y Pelayo, em seu livro Los heterodoxos españoles (1881), a mulher só foi salva da fogueira graças à intervenção de padrinhos poderosos.

Os Alumbrados, como eram conhecidos, teriam provocado a simpatia de Inácio de Loyola (1491-1556), o fundador da Companhia de Jesus, a ordem religio- sa da Igreja Católica cujos membros são conhecidos como jesuítas. O contato entre Loyola e os Alumbrados teria acontecido durante o ano de 1527, quando o je- suíta estudava em Salamanca, na Espanha. Inácio de Loyola foi levado perante uma comissão eclesiástica e acusado formalmente, o que poderia ter acabado com sua carreira. Por sorte, escapou de castigo pior ao levar apenas uma advertência.

Há quem diga que a Illuminati exista até hoje, estabelecendo a Nova Ordem Mundial

Dois anos depois, um grupo de simpatizantes que estava em Toledo não teve a mesma sorte: foi preso e submetido a chicoteamento. Sabe-se também que a Inquisição não perdoou muitos dos admiradores da sociedade e queimou vários representantes do grupo em Córdoba. Por esse episódio anterior, em Toledo, sabemos que o nome de "Iluminados" já não era mui- to bem-visto pela Igreja Católica desde essa época.

Quando o grupo da Baviera surgiu com as ideias anti- clericais de Weishaupt, só fomentou ainda mais a ideia de que eles eram inimigos da religião católica.

Na França, há registros de um grupo um pou- co diferente dos Philadelphes, colocado em ação por Bode. Esse, que respondia como Illuminés, teria chegado à França em 1623, originário da Espanha (mais precisamente da cidade de Sevilha) e se ini- ciado ironicamente com um pároco chamado Pierce Guérin, que cuidava da paróquia de Saint-Georges de Roye. Seus seguidores eram conhecidos como gurinets. Mas o grupo não durou muito, pois logo foi suprimido, em 1635.

Um século depois, uma nova sociedade surgiu no sul da França, a região mais misteriosa e ligada às sociedades secretas de que se tem notícia. Pouco se sabe sobre sua história, além de que ela teria sur- gido em 1722 e atuado até 1794, possuindo ligações com o grupo britânico conhecido como French Pro- phets (profetas franceses).

No século passado, o pesquisador norte-ameri- cano Antony C. Sutton (1925-2002) jogou mais lenha na fogueira ao afirmar que a conhecida socieda- de secreta sediada na Universidade de Yale, chamada Skull and Bones (caveira e ossos) teria sido fundada como o ramo norte-americano da Illuminati. Hoje em dia há inclusive uma corrente que afirma que a fraternidade estudantil tem mesmo suas origens no grupo de Adam Weishaupt, porque a sociedade norte-americana tem caráter muito exclusivo. Para se ter uma ideia, anualmente apenas 15 estudantes são aceitos pela irmandade e treinados por veteranos que participam do ritual de iniciação de seus pro- tegidos. Os traços racistas, entretanto, deixam cer- tas dúvidas, já que todos os membros da Skull and Bones são brancos, protestantes e originários de fa- mílias extremamente ricas. Os "conspirólogos" de plantão fazem a festa apenas pelo fato de a fraternidade ter originado ministros, chefes de Estado, dirigentes da CIA e pelo me- nos três presidentes: William Taft (1857- 1930), George Bush e George W. Bush.

O escritor e pesquisador de socieda- des secretas Robert Gillette é da opinião de que a Illuminati, seja sob qual codinome que esteja usando, pretende em última ins- tância o mesmo intento de seus originais: esta- belecer um governo mundial por meio de assassi- natos, corrupção, chantagem, controle dos bancos e outras entidades financeiras.

Apesar de a Illuminati ter sido extinta oficial- mente em 1790, acredita-se que até hoje existam membros da ordem que continuam tramando para o estabelecimento de sua "Nova Ordem Mundial", ou seja, a criação de um único governo em todo o planeta, comandado pela seita, sem a interferência de um poder paralelo como o da Igreja Católica. É esse tipo de teoria da conspiração que dá fôlego para que uma organização do século XVIII ainda conquiste público leitor e espectadores de cinema no mundo todo.

REFERÊNCIAS ALBUQUERQUE, A. Tenório de. Sociedades secretas. Grá- fica e Editora Aurora, 1970. KLEIN, Shelley. As socieda- des secretas mais perversas da história. Planeta, 2007. KOCH, Paul. Illuminati. Pla- neta, 2005. WILKINSON, Robert John Goodman. El libro negro de los Illuminati. Robinbook, 2008. WILSON, Robert. Masks of the Illuminati. Dell, 1990.

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