Conexão Belém-Cuba "... Devido às dificuldades de ordem econômica, os cubanos valorizam ainda as pequenas coisas e são solidários. Nem uma panela quebrada é jogada fora. Nada vai para o lixo. Toda casa tem um depósito de 'sucatas', com parafusos e peças mais sofisticadas, para desmontar objetos e construir outros..."
Milene Bengui Martins
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Acima, Milene ao lado de estudantes cubanos, enquanto cursava Medicina na ilha
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"E nfrentei todos os tipos de desafios para conseguir uma bolsa de estudos para estrangeiros na Faculdade de Medicina da Escola Latino-Americana de Cuba, em Havana, onde estudei entre 2003 e 2008. Não tinha condições de custear a faculdade, pois minha família era da periferia de Belém. Havia cursado o ensino médio em escola pública e, desde os 15 anos, já trabalhava para auxiliar nas despesas domésticas. Quando o meu pai (que era comunista) comentou que havia a possibilidade de conseguir uma bolsa, onde existe uma das medicinas mais reconhecidas do mundo, começou a minha peregrinação.
Fiquei três anos na lista de espera. Fazia ofícios e ia pleitear ajuda financeira em entidades. Também cheguei a fazer várias rifas para poder pagar as passagens. Quando já estava sem esperanças, após ter feito um curso de espanhol e até ter passado no vestibular para Veterinária, no Pará, recebi a notícia de que havia conseguido a bolsa de estudo. Foi uma loucura, porque para conseguir o passaporte, os documentos seguiram até Brasília. O dinheiro ainda era muito pouco para cobrir as despesas. Foi, então, mais uma maratona de rifas. Em três meses, consegui chegar lá somente com o equivalente a US$ 150 para as minhas despesas.
Foram mais quatro meses praticamente vivendo dentro da universidade, já que era estrangeira e tinha poucos recursos. Logo em seguida, ocorreria o período de férias e bateu saudade de minha família. Só aí que me dei conta de que havia nos meus documentos de viagem um boleto de passagem aérea de volta para o Brasil, que estava prestes a expirar. Voltei para ver meus pais. E um novo desafio começou - como retornaria a Havana.
MATANDO AS SAUDADES
Milene voltou para o Brasil, mas ainda considera Cuba como sua "segunda pátria" Apesar de não ter concluído o curso de Medicina, Milene afirma que ainda pretende terminar os estudos. De volta recentemente a Belém, ela diz que não teme ter de batalhar por novos apoios novamente para a sua empreitada. Durante o Fórum Social Mundial (FSM) de 2009, realizado na capital do Pará, de 27 de janeiro a 1º de fevereiro, matou as saudades de sua "segunda pátria", como ela mesma chama Cuba, ao se informar sobre a ilha de Fidel e frequentar a tenda dos "50 anos da Revolução Cubana", montada na Universidade Federal do Pará (UFPA). |
Os meus amigos fizeram 'vaquinhas' e consegui apoio de entidades e indústrias locais. E, assim, lá estava eu no primeiro dia de aula, vivenciando a realidade de um hospital universitário cubano. Enfrentar a saudade foi difícil e rendeu muitos dias de choros e dezenas de cartas. Mas Cuba recebe a gente de braços abertos e observei que os médicos tratam seus pacientes lá de forma integral. Até nós, como estudantes, recebemos uma atenção especial. Nunca me esqueço do professor Pedro Pozo, que abriu a porta de sua casa e me tratou como se fosse da família. Lá pude compartilhar amizade e refeições caseiras.
O feijão não falta à mesa e ainda comem muitas raízes (yandas). Durante os dois primeiros anos da faculdade, como podia sair só aos finais de semana, famílias conhecidas de cubanos faziam doces para a gente comer. Afinal, ficávamos das 8h às 16h em sala de aula. Um aspecto que achei muito interessante na cultura local é que devido às dificuldades de ordem econômica, os cubanos valorizam ainda as pequenas coisas e são solidários. Nem uma panela quebrada é jogada fora. Nada vai para o lixo. Toda casa tem um depósito de 'sucatas'. Procuram lá desde parafuso até peças mais sofisticadas, e desmontam objetos para construir outros. Em Cuba também incentivam a juventude a trabalhar voluntariamente, como na plantação de batatas. Aprendi a semear na época da safra, no segundo semestre. Até o nosso reitor colocou a mão na massa.
50 ANOS DE REVOLUÇÃO CUBANA
Faz cinco décadas que Fidel Castro instaurou o sistema socialista em Cuba, mas, aos poucos, o país vem adotando uma economia mais aberta
Cuba é hoje o único país do mundo governado sob o regime socialista. A chamada Revolução Cubana, capitaneada por Fidel Castro e revolucionários, em 1959, contra o então presidente Fulgêncio Batista, completa 50 anos em 2009.
Em julho de 2006, Fidel se afastou do poder devido à saúde debilitada, mas foi um dos líderes do mundo que mais tempo ficou à frente do poder, ao comandar Cuba sob a doutrina socialista inspirada na extinta URSS, que apoiou o país, durante o período da Guerra Fria. Em contrapartida, desde 1962 o país sofre embargos econômicos dos Estados Unidos. A eleição de Barack Obama é vista como uma possibilidade de mudanças nesse cenário por alguns cientistas políticos.
O governo cubano, apesar de não ter a marca ocidental do capitalismo em sua gestão, é reconhecido internacionalmente pelos positivos indicadores nas áreas de educação e saúde, e começa a se adaptar gradativamente aos novos modelos energéticos, ao trocar os antigos eletrodomésticos da população, como Milene vivenciou. Mas a ilha, no aspecto urbano, mantém suas edificações e frota de veículos antigas.
No mês de fevereiro de 2008, o governo foi definitivamente assumido pelo irmão de Fidel, Raúl Castro, que já sinaliza uma gestão mais flexível, aberta ao período da globalização. Uma das mudanças em sua administração, por exemplo, foi a liberação do governo para que os hotéis voltassem a hospedar cubanos, o que era proibido, desde 1993. O comércio de bens de consumo, como celulares, computadores e eletrodomésticos também já é autorizado nas lojas locais. |
A ajuda humanitária é mais frequente, principalmente quando ocorrem incidentes, como os três últimos furacões que atingiram a ilha. Tive a oportunidade de ajudar uma vez a levar as vítimas a alojamentos, além de organizar filas para receberem alimentação. Outra experiência interessante foi a de participar das equipes voluntárias que ajudaram na troca dos eletrodomésticos antigos russos por outros mais modernos e econômicos, de origem chinesa. O governo cobrou taxas mínimas para a população fazer a mudança. Apesar das críticas tecidas à estatização dos principais meios culturais adotados pelo regime comunista vigente, a televisão cubana, por exemplo, é muito educativa. Exibe diversos cursos. O período da tarde é geralmente destinado às crianças.
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Milene participou do nono Fórum Social Mundial, em Belém, para se informar a respeito de Cuba, sua "segunda pátria", como ela mesma chama o país |
Há grandes cinemas na capital, que apresentam principalmente filmes nacionais, argentinos e mexicanos, com ingressos a preços baixos, equivalentes a 10 pesos (menos de US$ 1). Havana velha é muito histórica. Seus hotéis construídos há décadas estão ainda em funcionamento. Já a experiência de viver na cidade de Via Clara, onde estudei durante dois anos, foi mais uma aula cultural, pois é conhecida como a cidade de Che Guevara. Lá, ele estudou e fez a revolução. Há uma praça que leva o seu nome, como forma de homenagem. E a saudade do Brasil também diminuiu assim que identifiquei semelhanças com a paisagem do Pará, em um lugar chamado Pinal del Rio."
Depoimento coletado e editado pela jornalista Sucena Shkrada Resk.
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