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Júlio Barbosa de Aquino
A Amazônia de Chico Mendes
o vice-presidente do Conselho nacional dos seringueiros (Cns) conta como era a luta pelo reconhecimento da profi ssão e pela criação de reservas extrativistas ao lado de seu companheiro Chico Mendes

Por Sucena Shkrada Resk

Arquivo pessoal

Desde a juventude, o acriano Júlio Barbosa de Aquino conviveu com o seringueiro, sindicalista, político e ambientalista Francisco Alves Men- des Filho, mais conhecido como Chico Mendes (1944-1988). Foi ao lado de Chico que Júlio, hoje com 54 anos e atuando como vice-presidente do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS), começou a lutar pelo reconhecimento da profissão e pela formação das reservas extrativistas no Brasil.

Com os movimentos chamados "empates", iniciados pelos se- ringueiros na década de 1970, eles se mobilizavam contra os desmatamentos e retiravam da floresta equipamentos de peões de fazendas, usados para colocar as árvores abaixo.

Em 1975, Chico Mendes iniciou sua vida de sindicalista no recém-criado Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasileia, no Pará, onde ocupou o cargo de secretário. Dois anos depois, junto com Júlio e outros seringueiros, Chico fundou o Sindicato em Xapuri, no Acre - sua terra natal -, assumindo a liderança em 1981. Ao mesmo tempo, começou a sua breve carreira polí- tica como vereador pelo extinto partido Movimento Democrá- tico Brasileiro (MDB).

No ano de 1980, Júlio e Chico deram um passo importante na militância, ao participar da fundação do Partido dos Trabalhadores (PT), época em que Chico Mendes chegou a ocupar a direção do PT no Acre. Esse foi um período turbulento para Chico, em que chegou a ser enquadrado na Lei de Segurança Nacional. Fazendeiros da região o acusavam de envolvimento no assassinato de um capataz. No entanto, foi absolvido por falta de provas.

Foto:Jan-Pieter Nap
Foto do processo de extração do látex da seringueira, comumente utilizado na produção de borracha. Abaixo, Chico Mendes, que mobilizou as primeiras greves em prol dos seringueiros e da preservação ambiental

Os momentos tensos de confronto com os fazendeiros se tornaram uma constante na vida dos seringueiros. Júlio conta que para entender a história do extrativismo de látex na região amazônica, é necessário fazer um recorte antes e depois de Chico Mendes. O vice-presidente do CNS recorda-se de momentos marcantes que compartilhou com Chico, que já falava do conceito de sustentabilidade na década de 1980.

Após 20 anos do assassinato de Chico Mendes, em 22 de dezembro de 1988, Júlio afirma que um dos principais legados deixados por Chico foi o de lutar pelo direito dos povos da floresta amazônica e pela preservação do meio ambiente. Em entrevista à Leituras da História, Júlio fala sobre a luta de Chico, que postumamente, em dezembro de 2008, teve o pedido de anistia política feito por sua família aceito pela Comissão de Anistia do Ministério da Justiça, o que garantiu indenização retroativa à viúva de Chico, Ilzamar Mendes.

Leituras da História - Você pode explicar como é a realidade dos seringueiros no processo de extração do látex para a produção de borracha?

Júlio Barbosa de Aquino - Uma seringueira tem a condição de fornecer látex durante duas vezes por semana. O seringueiro geralmente trabalha de segunda-feira a sábado. Cada um trabalha em três estradas de seringa, que é o caminho, em que há um espaçamento entre um e outro, em formato de círculo, que pode compreender até 100 hectares de floresta. O trabalhador risca o tronco pela manhã e aí o látex cai numa tigela, e à tarde faz a coleta. Especificamente em Xapuri, hoje, o material é vendido in natura para uma fábrica de preservativos masculinos, o que possibilita a geração de renda. É o mesmo sistema de um produtor de leite.

Arquivo Ciência e Vida

O extrativismo na Amazônia acontece no período de maio a dezembro, porque até abril é época de chuvas. Nessa fase, o seringueiro coleta castanha, além das culturas de subsistência (abóbora, arroz, feijão, mandioca, milho), que são a fonte principal de alimentação das famílias.

LH - Como era o quadro do extrativismo da borracha antes de Chico Mendes?
Aquino - O tema já era complexo antes de Chico Mendes. De 1840 até 1912, era uma economia muito forte, fazia parte de um percentual alto do Produto Interno Bruto (PIB) brasileiro. O grande celeiro de produção era composto pelos Estados do Amapá, Pará, Roraima, Amazonas e Acre. A partir de 1912, a borracha começou a sofrer queda, porque ao mesmo tempo em que se deu início à exploração da borracha na Amazônia, houve a abertura para que a semente das seringueiras fosse testada em outros países. É daí que vem a vinculação do Brasil com os países asiáticos, principalmente Indonésia e Tailândia.

A nossa semente foi transportada por pesquisadores ingleses para esses desti- nos. Em 1912, houve o início da expan- são das exportações e o mercado para o produto brasileiro começou a cair. A Primeira Guerra Mundial (1914-1918) contribuiu também para esse novo cená- rio, que perdurou até aproximadamente a Segunda Guerra (1939-1945).

LH - Qual foi o perfil da segunda fase?
Aquino - Entre 1940 e 1945, ocorreu um novo período de ascensão do extrativis- mo da borracha no País. Com a Segunda Guerra Mundial, houve a grande leva de migrantes nordestinos para a Amazônia, batizados de "soldados da borracha". Até então, não havia tanta ocupação nessa re- gião do Brasil. Muitos conflitos indíge- nas ocorreram na área, com a exploração dos seringais, e em 1956, aconteceram as reformas dos sistemas de organização do mundo, que tiveram influência aqui. Com isso, o Brasil extinguiu o Banco de Crédito da Borracha e, dez anos depois, criou a Superintendência da Borracha (SUDHEVEA). Hoje temos como re- ferência o Banco da Amazônia. Apesar desses fechamentos, de 1956 até o final da década de 1960 ainda houve uma ex- ploração importante da borracha no nor- te do País. Essa fase antecedeu o surgi- mento do personagem Chico Mendes.

LH - Em que contexto surgiu Chico Mendes na história do extrativismo da borracha no Brasil?
Aquino - De 1968 a 1971, começou a campanha de ocupação da Amazônia. Houve, naquele momento, uma divulga- ção muito forte na mídia nacional pelos governantes da época de que a Amazô- nia era um vazio sem gente e precisava ser ocupada. Daí vem os primórdios da instauração da expansão das fronteiras agrícolas e se dá início à construção da rodovia Transamazônica, do sul do Es- tado do Pará ao do Amazonas, e da ro- dovia BR 364, que vai até o Estado do Acre. O projeto de expansão não tinha o intuito da colonização para a agricultura, mas de abertura de espaço para a entrada das grandes empresas agropecuárias.

Arquivo pessoal
Durante a nona edição do Fórum Social Mundial (imagem à esquerda), realizada em janeiro deste ano, em Belém, foram realizadas diversas palestras para discutir a situação atual da Amazônia

Chico Mendes foi uma das primeiras pessoas do Brasil a falar sobre desenvolvimento sustentável

LH - Nessa transição houve conflitos acentuados?
Aquino - Os conflitos da Amazônia au- mentaram de forma impressionante. Os seringueiros começaram a ser expulsos, os índios dizimados ou prejudicados no eixo da BR 364, de Cuiabá e Porto Ve- lho, incluindo principalmente os suruis, da região de Rondônia. A rodovia passou pelo meio das terras deles e, na época, não houve nenhum plano de zoneamento ou um estudo de impacto ambiental. Aque- las áreas foram ocupadas por grandes fazendas de gado. Nesse contexto surgi- ram os movimentos sociais, primeiro por parte da igreja, liderada pela corrente da Teologia da Libertação, com as comuni- dades eclesiais de base. Chico Mendes e eu fizemos parte desse movimento e, em seguida da criação dos primeiros sindi- catos do setor, a partir de 1975.

LH - Como era o cidadão Chico Mendes?
Aquino - Ele nasceu e cresceu no meio do seringal, em Xapuri, no Acre, e foi al- fabetizado a partir dos 16 anos por um ex-combatente comunista refugiado no Acre, Euclides Fernandes Távora. Esse guerrilheiro ficou em uma colocação (que é o nome que se dá ao local onde moram os seringueiros) vizinha de onde vivia Chico Mendes, e ensinou a ele as primeiras letras. Depois de adulto, Chi- co cursou o Mobral e seguiu até o se- gundo grau. Mas ele tinha algo que vai além de saber ler e escrever, que era a convicção de que a sociedade era tratada de maneira muito desigual e achava que poderia haver um caminho para mudar esses rumos. Acreditava na importância da unidade dos trabalhadores com uma união objetiva. No primeiro momento, as primeiras manifestações que liderou, a partir de 1974, eram um tipo de greve que os seringueiros faziam, para proibir os fazendeiros de derrubar as florestas. Nós batizamos essa ação de "empate".

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